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Crítica do filme A Forma da Água

Um mergulho charmoso no bizarro

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Quinta, 01 Fevereiro 2018
Fonte da imagem: Divulgação/20th Century Fox
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Toda vez que Guillermo del Toro anuncia um novo projeto, a galera fica ensandecida com um novo e mágico universo, provavelmente populado por humanos, mas permeado por criaturas inusitadas. O cara já pisou na bola, é verdade, mas não podemos negar que ele faz um ótimo trabalho na criação de coisas fantásticas, seja pela história pouco convencional ou sua direção.

No seu mais novo trabalho, “A Forma da Água”, del Toro nos leva à Guerra Fria, para conhecer os laboratórios secretos do governo. Entre tantos planos mirabolantes, a turminha do exército está aprontando altas confusões para proteger uma criatura que vive em ambiente aquático e tem poderes inacreditáveis.

Do outro lado da história, temos a não tão jovem Elisa (Sally Hawkins), uma zeladora muda que tem como única função a limpeza dos laboratórios. Numa de suas atividades rotineiras, ela e sua colega Zelda (Octavia Spencer) descobrem este ser de outro mundo. Com inocência e bondade, as duas vão tentar fazer de tudo para evitar os experimentos governamentais.

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Só que o mundo não é bem esse conto de fadas e elas talvez encontrem grandes dificuldades, já que estão numa instalação de segurança máxima e tem um cara barra pesada (Michael Shannon) só esperando alguém pisar na bola para descer o sarrafo em geral e ganhar pontos extras com o governo. Todavia, sempre há espaço para um pouco de esperança e amor ao próximo.

E qual a boa do filme? Bom, o xis da questão aqui é a forma como tudo isso é retratado. O diretor Guillermo del Toro pinta este universo com um esmero que dá gosto. Cada cena é uma pintura. Cada personagem é uma figura única e exuberante. Há muito o que falar, mas recomendo fortemente que você confira esta obra na telona, pois palavras não são suficientes.

Aquarela em 24 quadros por segundo

Em toda crítica, precisamos pautar alguns pontos de destaque que possam justificar nossa apreciação ou rejeição a uma determinada obra. Contudo, quando a gente fale em títulos como “A Forma da Água” fica difícil saber por onde começar e quais características merecem mais elogios, uma vez que toda a produção parece se encaixar perfeitamente.

A história desenvolvida por Guillermo del Toro é bem elaborada e tem espaço para encaixar uma enormidade de elementos que podem levar o público a mergulhar num mundo de possibilidades. Todavia, eu acredito plenamente que somente a visão do próprio criador deste universo poderia dar tão certo. É algo que só funciona, pois ele imaginou cada cena com uma riqueza de detalhes e uma abordagem bem específica.

Digo isso, pois é interessante notar como uma história misteriosa e bonita pode nos impressionar mesmo com cenários tão ordinários. Laboratórios, bases secretas e ambientes residenciais comuns podem conter inúmeros elementos que remetem ao velho, ao antigo e pouco criativo, mas com a devida disposição e retratação, a perspectiva muda completamente.

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A fotografia caprichada em penumbras e tons azulados (ou esverdeados, dependendo da sua calibração de tonalidades) faz que até o momento mais comum seja um tanto envolvente. Agora, quando ela é aplicada em cenas que envolvem ousadia aquática, a representação fica ainda mais gratificante aos olhos. Se o mínimo de romance proposto em alguns momentos não é suficiente, a sedução da água faz o restante da mágica.

E cabe dizer que Guillermo del Toro foi muito ousado na construção de algumas cenas, apelando para efeitos especiais, câmeras lentas e cenas um tanto claustrofóbicas — mas também imersivas e muito livres pela composição geral. Enfim, na parte estética, é como ver um filme de época pensando com carinho e embelezado com filtros que deixam qualquer Instagram no chinelo.

Gotinhas de absurdo para refrescar a vida

Bom, além dos aspectos já comentados sobre a fotografia e a montagem de “A Forma da Água”, eu poderia falar sobre inúmeras características que deixam esta obra ainda mais intrigante aos nossos olhos. Todavia, creio que alguns pitacos sobre a abordagem de personagens seja de suma importância para enxergarmos uma beleza pouco convencional.

Assim como Guillermo del Toro já fez em outros tantos títulos, temos aqui novamente uma conexão de personagens inusitada. A protagonista que seria limitada na visão de muitos espectadores acaba apresentando um trunfo na parte comunicativa, algo explorado de forma magistral pela atriz Sally Hawkins, que tem uma linguagem corporal fantástica.

Mesmo com seu jeito tímido, a protagonista se expressa de forma magistral pelos trejeitos, olhares e mínimas reações que fazem toda a diferença. Quando unimos esta atuação pontual com as situações inclusivas do roteiro, temos então um direcionamento bem interessante para a obra, que não apenas quer ser bonita em visual, mas também em conteúdo.

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É claro que há um “que” de absurdo na história, mas temos de estar abertos ao incomum na hora de embarcar nas loucuras de del Toro. A presença da criatura aquática é algo fora do comum, que mexe com a plateia de inúmeras formas. O mestre dos disfarces Doug Jones (que já fez outro bicho das águas em Hellboy e inúmeros papéis de monstros) se supera neste filme!

Doug Jones já fez todo tipo de alienígena e monstro, mas sua performance aqui é algo que transcende quase tudo que já vimos. É quase como se a criatura estive ali e fosse de uma realidade alternativa. Sim, uma parte enorme do mérito vai para a turma da maquiagem, que arrasa na composição do corpo e da face do personagem. Esta é a verdadeira forma da água.

Completa o pacote os demais atores que dão o devido tom de comédia, drama, suspense, romance e perigo da Guerra Fria. Michael Shannon está nojento e espetacular e Octavia Spencer dispensa comentários, não é mesmo? Enfim, temos aqui um ótimo concorrente ao Oscar e um filme para levar para a vida como símbolo de amor e imaginação.

Fonte das imagens: Divulgação/20th Century Fox

A Forma da Água

Os mistérios da água

Diretor: Guillermo del Toro

Duração: 119 min

Estreia: 11 / Jan / 2018

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