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Crítica do filme Amores Canibais

O seu amor é canibal...

Carlos Augusto Ferraro

por
Carlos Augusto Ferraro

Sábado, 11 Novembro 2017
Fonte da imagem: Divulgação/Netflix
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Em um futuro, que parece cada vez mais próximo, o governo estadunidense repaginou a velha tradição grega do ostracismo e passa a simplesmente despejar seus criminosos e outros indesejáveis em uma vasta terra de ninguém nas fronteiras do Texas.

Entre fisiculturistas canibais e raves regadas a psicotrópicos alucinógenos, Amores Canibais tenta, com muita dificuldade, equilibrar toda a inspiração de Ana Lily Amirpour em cima de um roteiro fino e pouco elaborado. O tempo certamente fará mais justiça aos rompantes poéticos da diretora, mas por enquanto é apenas uma lenta jornada contemplativa de metáforas do declínio da civilização ocidental.

Longe de ser um filme ruim, Amores Canibais simplesmente não reproduz o mesmo charme do excelente Garota Sombria Caminha pela Noite — primeiro longa da diretora. Com um referencial cinematográfico bem explorado, o filme tem boas ideias, uma cinematografia excepcional e algumas presenças ilustres, incluindo Jim Carrey, Keanu Reeves e Jason Momoa. O problema é que o roteiro circular não permite que a trama “engrene" e acaba se tornando difícil (quiçá tedioso) para os mais desavisados.

O declínio da civilização ocidental

Na distopia de Amirpour, ser parte do “lote ruim”, como são chamados os “expatriados”, significa escolher entre sobreviver no deserto, onde você divide seu tempo na constante busca da próxima refeição, evitando se tornar a refeição dos outros, ou entrar no transe onírico farmacologicamente induzido na “reserva” de Conforto — um reduto no qual o Sonho (vivido de maneira deliciosamente perturbadora por Keanu Reeves), governa, ao som de música eletrônica, um rebanho de desiludidos, doentes, vendedores de macarrão e seu próprio exército/harém de seguranças/concubinas gestantes.

A escolha pode até parecer simples, mas quem está na melhor situação? O antílope sempre atento ao leão que o cerca, ou o cordeiro alheio ao seu fim no abatedouro? A morte é uma certeza, resta saber como você prefere recebê-la. 

Não existem heróis e vilões, apenas escolhas. O espectro da vida não se resume a preto e branco, o mundo possui muito mais tons, que acabam se misturando até turvarem.

Quem não quer um pedaço de Momoa?

Morrer de pé ou viver de joelhos?

A trama de Amores Canibais é muito simples, o que acaba se tornando o grande problema da película. Arlen é uma garota recém despachada para a fronteira, com um número tatuado atrás da orelha, ela é agora parte do “lote ruim”.

A garota logo descobre que, apesar do deserto ser vasto, ela não está sozinha, e em pouco tempo acaba capturada por um grupo de fisiculturistas canibais liderado pelo monolítico Miami Man (Jason Momoa). Em tempo, Arlen consegue fugir, não sem antes de ter um braço e uma perna deglutidas pelo grupo de Miami Man.

Em fuga, exausta, e sem dois membros, a jovem é encontrada por um ermitão mudo — Jim Carrey, impressionante e irreconhecível — que a leva até os portões de Conforto, um acampamento seguro sob a tutela de um homem atendendo pela alcunha de “O Sonho” (Keanu Reeves). Lá Arlen descobre que bom e mau são apenas questões de perspectiva. E é nesse momento que o roteiro perde sua grande deixa. Ao não se aprofundar nos temas levantados o filme acaba assumindo uma posição muito despretensiosa, o que destoa da proposta visual do filme, criando uma combinação nada homogênea.

Amirpour recita poesia visual enquadrada em longas contemplações lisergicas do deserto

A trama não se desenvolve de maneira fluida, muito por conta das longas tomadas contemplativas, que apesar de visualmente interessantes não se adequam a “simplicidade” narrativa. Não há dúvida alguma que a cinematografia é o ponto alto da produção. Evocando Tarantino, Sergio Leone e algumas pitadas de George Miller. Ana Lilly Amirpour entrega um filme que mescla com elegância a sua pincelada singular, com os fortes traços de outros diretores.

Confere o meu lombo

Endurecer sem perder a ternura

Com apenas dois longas, já é seguro dizer que Ana Lilly Amirpour é uma das diretoras mais interessantes do circuito contemporâneo. Da mesma maneira que o rap é, essencialmente, poesia, a visão de Amirpour possui uma estrutura clássica com uma pegada “descolada”.

Longe de ser tão emblemático quanto sua primeira incursão cinematográfica, Amores Canibais reafirma o talento estético e a poesia de Amirpour, mesmo que tropece em um roteiro pouco inspirado.

Provavelmente, Amores Canibais receberá um reconhecimento cult tardio. Daquele tipo que pipoca nos comentários de cinéfilos em meio a discussões em bares cafés.

Fonte das imagens: Divulgação/Netflix

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