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Crítica do filme As Duas Irenes

Sobre família, descoberta e identidade

Lu Belin

por
Lu Belin

Sexta, 27 Outubro 2017
Fonte da imagem: Divulgação/Vitrine Filmes
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E se você descobrisse que tem um irmão e ele tem seu nome e sua idade? O que isso faria com a sua identidade? Foi partindo dessa dúvida e da grande quantidade de homens que têm filhos fora da família "principal" que o cineasta Fabio Meira desenvolveu a ideia do filme "As Duas Irenes".

Inspirado em um ca(u)so que é quase um tabu na família do próprio Fabio, ele decidiu construir uma história de como seria se uma jovem descobrisse que o pai tem uma segunda família em paralelo, e que, dentro dessa família, há uma outra dela mesma.

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Não deu mole: escreveu o roteiro, produziu e dirigiu o filme – que teve até uns pitacos de ninguém menos do que Gabriel Garcia Marquez no roteiro. E depois de oito anos pra sair da cabeça e cair no cinema, o primeiro longa-metragem de Fabio Meira finalmente virou um premiado produto do audiovisual brasileiro, vencedor do Kikito de Ouro no Festival de Gramado em três  categorias: Melhor Filme pelo Júri da Crítica, Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante para Marco Ricca.

Com orçamento limitado e financiado principalmente por editais de Cultura, “As Duas Irenes” conquistou os festivais e a crítica, com um roteiro simples e coerente, focado em um núcleo muito bem construído, com uma boa discussão em seu plot e com um visual de encher os olhos.

Fotografia para emoldurar

Filmado quase que integralmente com a iluminação natural de uma cidadezinha histórica no interior de Goiás, o filme tem nas locações simples, porém cheias de significado e beleza, um de seus principais trunfos.

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Pousadas históricas locais se tornaram as casas dos protagonistas, elementos que constroem um contexto histórico de algum tempo atrás – mas que o público não consegue situar muito qual é.

As cores usadas no filme compõem um cenário perfeito pra que a história se passe, assim como o figurino e a contraposição dos espaços urbanos simples e típicos de cidade pequena com as belezas naturais destas mesmas cidades.

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Uma cachoeira até então inédita em produtos audiovisuais, um cinema de rua de uma cidade de interior, casinhas em uma rua foi coberta de cascalho especialmente para o filme – tudo contribui para que a fotografia do longa-metragem seja digna dos elogios que vem recebendo.

Um drama pra Freud explicar

Toda a beleza da fotografia de “As Duas Irenes” chega quase que para embelezar uma trama que nada tem de atraente. Não no sentido de que a história não seja boa, muito pelo contrário.

Mas é que a fotografia e os aspectos visuais contribuem muito para o diretor contar esta história do jeitinho que ele queria, com um enfoque bastante específico. Um foco não no “barraco” que a Irene poderia fazer quando descobre a traição do pai à família, mas em como isso a transforma internamente

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Na cabecinha da adolescente tímida, a atriz e modelo Priscila Bittencourt enfrenta seu outro eu, a bem mais ousada e inventiva Irene (Isabela Torres), ambas filhas do Tonico, interpretado por Marco Ricca.

Com um elenco entrosado e protagonistas que vão muito bem em seus papéis, apesar de bastante jovens e inclusive com cenas de nudez, o filme surpreende bastante neste que é, segundo a humilde opinião desta que vos fala, um dos pontos fracos do cinema brasileiro, a atuação que tantas vezes deixa a desejar, especialmente em dramas.

Em termos de roteiro não é diferente. A gente tem sim muitos bons dramas entre outros tantos que falham ao cativar o público. Mas, "As Duas Irenes" consegue ser quase um drama biográfico, ao costurar com sensibilidade todas as dúvidas vividas pela protagonista, considerando especialmente o contexto da fase da vida pela qual ela está passando.

Ou seja, além trama que dá origem à história, da descoberta de uma outra de si, Irene também vive as descobertas típicas da adolescência, do encontro com a sexualidade, à medida em que se relaciona cada vez menos com a família que até tão pouco tempo era constitutiva de sua identidade.

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E é isso que é “As Duas Irenes”, um drama de excelente qualidade e de grande capacidade questionadora e de imposição de conflito. Você se percebe o tempo todo angustiado com a situação da(s) Irene(s), tentando entender o que ela(s) fará(ão) a seguir, incomodado com algumas das presenças e algumas das ausências dentro da linha da história.

Trata-se de um trabalho muito bem construído e de uma história comovente na medida, engraçada também na medida, e, esperamos que, bem reconhecida dentro do cinema nacional. Recomendadíssimo!

Fonte das imagens: Divulgação/Vitrine Filmes

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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