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Crítica do filme Bright

Entre a luz e a sombra

Carlos Augusto Ferraro

por
Carlos Augusto Ferraro

Sexta, 29 Dezembro 2017
Fonte da imagem: Divulgação/Netflix
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Talvez por contar com uma premissa tão interessante, ou por arrebanhar nomes de peso como Will Smith, Joel Edgerton, David Ayer, Bright acaba ficando abaixo das expectativas. Mesmo assim, a nova adição ao serviço de streaming traz um vislumbre divertido de um universo fantástico pronto para ser explorado.

A ideia de revisitar o prolífico mundo dos filmes policiais — em especial o subgênero dos “tiras parceiros” — em uma ambientação pouco usual é muito inteligente e proporciona um bom espaço criativo para construção de um roteiro esperto, permitindo que várias brincadeiras com os próprios estereótipos do gênero.

Infelizmente, David Ayer — que já mostrou talento nesse nicho com o excelente Marcados para Morrer — faz escolhas estranhas, derrapa e não consegue navegar pelo roteiro, que por si só já não é nenhuma maravilha. Bright é um filme interessante, que possui uma premissa muito melhor do que o seu conteúdo propriamente dito. Trata-se de uma boa pedida para os assinantes da Netflix, mas não espere nada muito impressionante.

Um mundo de possibilidades

O universo de Bright é o grande destaque da produção. Em um mundo contemporâneo, magia e tecnologia se misturam criando situações inusitadas, como homens e orcs trabalhando lado a lado na policia, ou ainda elfos elitistas morando em Beverly Hills e ocupando cargos nos altos escalões do governo.

Para deleite dos fãs, tanto de fantasia como de filmes policiais, as metáforas estão por todos os lados. Segregação racial e estratificação social ganham roupagem fantástica para metaforizar nossa realidade dentro de um mundo mágico. O estilo urbano e os elementos fantásticos formam um cenário repleto de possibilidades, uma mistura divertida de As Cores da Violência e Senhor dos Anéis.

Entretanto, não somos devidamente apresentados a este mundo e todas as informações sobre o cotidiano surgem recortadas e, em nenhum momento, são devidamente abordadas. A escolha dessa abordagem sutil destoa demais do ritmo do filme — muito mais agitado e sem pausas para maiores contextualizações — assim, tais nunaces se perdem no meio dos tiros, explosões e encantos.

Fala sério mano

NPC

Will Smith, como já era de se esperar, entrega um desempenho sólido, mesmo sem qualquer esforço aparente. Na verdade, os últimos papéis do “Maluco no Pedaço” não têm exigido muito do ator que, inegavelmente, tem capacidade para muito mais do que alguns monólogos com os olhos inchados e o rosto coberto de sangue.

Noomi Rapace, sempre marcante, também não precisa fazer muito para chamar a atenção na pele de uma elfa maligna. Ela entrega cenas de ação dignas de Legolas, mesmo sem um Olifante. Além disso, sua fisionomia compenetrada transpira toda a obstinação da personagem.

Enquanto isso, Joel Edgerton (coberto de maquiagem) é o proverbial burro de carga do filme. Como o orc Nick Jacoby, o ator explora com muita habilidade as diferentes facetas do personagem mais interessante da trama. Equilibrando momentos cômicos, dramáticos e de ação pura o ator é o melhor na tela, mesmo que as lentes tentem dar mais atenção para Will Smith.

Já David Ayer escorrega mais uma vez. O diretor que já mostrou muito talento, como em Corações de Ferro e Marcados Para Morrer, faz escolhas erradas e perde as deixas narrativas, gerando um filme fragmentado, como em Esquadrão Suicida, também assinado pelo diretor.

Vixe, muita treta!

Max Landis parte de ideias interessantes, mas no final entrega um roteiro desinteressante. Mesmo assim, o filme ainda renderia uma história mais envolvente se a montagem fosse direta. Em suma, como em Esquadrão Suicida, o diretor parece se esquecer do que está acontecendo em seu próprio filme, e vai improvisando as coisas até que no final resta apenas uma coleção de vinhetas e não uma película coeso. Uma pena, pois o que poderia ser uma trama envolvente se resume a uma coleção de clipes (muito bem realizados) de perseguição e tiroteio. 

Luz no fim do túnel

Não seria nada surpreendente, e na verdade torço muito para isso, se a Netflix resolvesse apostar em um seriado ambientado no universo de Bright. Repleto de possibilidades, esse mundo de Orcs, humanos, elfos e magia em um cenário urbano contemporâneo (em vez da tradicional ambientação medieval) pode render um bom show policial com a qualidade já característica das produções Netflix.

Com ideias interessantes e alguns erros de execução, Bright é uma boa novidade no catálogo da Netflix

O filme perde muito justamente por não explorar esse universo. As metáforas são boas, mas rasas, e em pouco tempo tudo fica perdido no meio da ação.  No final você fica com o gostinho de quero mais, ou um gostinho de poderia ser melhor. Aproveitando analogia gastronômica falta “tempero".

Bright possui boas ideias e mesmo com alguns problemas o espectador ainda deve conseguir aproveitar boa parte das quase duas horas de filme. As cenas de ação são consistentes e as trocas entre Will Smith (o policial veterano) e Joel Edgerton (o orc novato), são o ponto mais divertido do filme.

Fonte das imagens: Divulgação/Netflix

Bright

Se houver um lampejo de luz, haverá esperança

Diretor: David Ayer

Duração: 118 min

Estreia: 22 / Dez / 2017

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