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Crítica do filme Corra! | Tem caroço nesse angu
Fonte da imagem: Divulgação/Universal Pictures
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VEJA A FICHA COMPLETA

Só porque você é convidado, não quer dizer que você é bem-vindo

Diretor: Jordan Peele

Duração: 104 min

Estreia: 18 / Mai / 2017

O ano é 2017, mas pelos noticiários, às vezes, parece que estamos vivendo em épocas primitivas, com tantos casos de racismo estampando as capas dos tabloides.

O tema também é lugar-comum para produções cinematográficas, porém, na maioria dos casos, temos retratos de episódios históricos. A verdade é que são poucas as obras que ousam trazer essa pauta para o debate num cenário atual.

Esta é justamente a proposta de “Corra!”, um filme de terror — pois é, um gênero pouco habitual para esse tipo de debate — que pretende mostrar como um simples final de semana pode ser intenso para um jovem negro que vai conhecer a família de sua namorada — branca, bonita e bem sucedida.

De início, a sinopse pode não representar nada de extraordinário, afinal estamos em 2017 e as pessoas — ainda mais americanos, de primeiro mundo, civilizados, avançados na pauta — já se desvencilharam do preconceito e nada de mal pode acontecer numa simples visita. Só que nem tudo é preto no branco...

Não temos nada contra...

Esta minha pequena introdução e até mesmo a sinopse de “Corra!” pode dar a impressão de que o filme realmente quer debater o racismo e mostrar como um jovem negro pode entrar numa enrascada simplesmente por ter a cor de pele diferente de outros indivíduos. Todavia, a história escrita por Jordan Peele é um pouco mais profunda, sendo que há várias camadas que permitem uma série de debates e reviravoltas.

É interessante como o filme trata de sua pauta com base nas diferentes perspectivas dos personagens. Para o protagonista, toda a ideia de visitar a família da namorada parece um tanto desconfortável, ainda mais porque a garota não comentou com os pais que ele é um rapaz negro. A garota, por outro lado, parece tranquila e até comenta que uma coisa dessas parece um tanto absurda, já que seus pais não são racistas.

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Um ponto bastante importante, que serve tanto como argumento para o script quanto como assunto para conversas sobre as dificuldades no trato do racismo, é o comportamento exageradamente hospitaleiro da família para com o rapaz. Para o jovem Chris (Daniel Kaluuya), num primeiro momento, as ações são normais, já que a relação com Rose (Allison Williams) é um tanto incomum e tudo pode ficar um pouco desajeitado.

Os discursos da família Armitage também parecem ir na contramão do racismo, sendo que há vários argumentos para não mordermos essa isca. O senhor Dean Armitage (Bradley Whitford) e a senhora Missy Armitage (Catherine Keener) se mostram muito abertos e jamais dão a impressão de que haja qualquer problema no namoro dos dois.

Todavia, como diz o ditado: todo cuidado é pouco. Então não é de estranhar as reações do protagonista a determinados ocorridos. É nessa pegada da desconfiança que o filme resolve construir sua tensão, sendo que as cenas pendem muito mais para o suspense do que para o drama, então, de fato, não espere um racismo tão comum, porque o roteiro é ardiloso.

Até temos amigos que são...

Apesar de ser um cara mais voltado para comédia, o diretor e roteirista Jordan Peele mostra que tem talento para o terror — inclusive, ele está por trás da nova série de horror da HBO, “Lovecraft Country”. A trama  de "Corra!" é pautada em uma vertente mais voltada ao psicológico do indivíduo, muito mais pela questão da raça, mas a sensação de pavor é terrível para qualquer um na plateia.

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O roteiro de Peele é sagaz, com desvios de foco nos diálogos. Assim, tal qual o protagonista, somos guiados pelas dúvidas e sempre fica aquela pulga atrás da orelha: será que isso não é coisa da minha cabeça? O script vai direto ao ponto e coloca o racismo como tema central, porém usa de situações familiares — que, às vezes até destoam do rumo principal — para disfarçar suas intenções e, em alguns casos, evidenciar o racismo velado ou mais sutil.

O uso de personagens-chave para debater o tema de forma natural é o que garante o tom convincente no desenrolar da história, sendo que a presença de outros negros, além do protagonista, é o que aguça ainda mais o ar de mistério. O reforço na desconfiança e no medo foi um recurso útil para intensificar — ainda que com certo exagero — como o racismo pode afetar o psicológico de uma pessoa.

Aqui, os méritos vão para Daniel Kaluuya, que, às vezes, com alguns olhares mais estáticos consegue nos passar bem a tensão de estar numa situação tão perturbadora. O ator se mostra muito convincente ao dialogar com os demais personagens, deixando sempre o tom de dúvida no ar com um simples franzir de testa ou com ações que comprovam a estranheza da situação.

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O comportamento um tanto questionável de todos nos faz pensar no pior. Os destaques para incrementar esse tom de medo vão para Betty Gabriel, Lakeith Stanfield e Marcus Henderson, trio de suma importância para o desenrolar da história. Ainda que sejam personagens de menor destaque, a seriedade deles ao encaram às câmeras é de dar arrepios. A trilha intensa e carregada de momentos angustiantes também ajuda muito.

Curiosamente, apesar de se voltar bastante para o terror e o suspense, a obra de Peele não apela para cenários escuros ou mesmo para clichês. A ideia claramente não é dar sustos na plateia, mas deixar o nervosismo tomar conta. A fotografia é caprichada e a direção é ponto fundamental para o sucesso da trama. Com closes bem expressivos, o registro das expressões dos personagens é o que faz o filme ficar tão assustador.

Você está convidado para essa visita à casa dos Armitage, mas não espere uma recepção muito habitual, pois o clima pode ficar realmente pesado. Pegue sua pipoca e esteja preparado para momentos de tensão! Em caso de medo, fica a dica: Corra!

Fonte das imagens: Divulgação/Universal Pictures

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