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Crítica do filme Hereditário

É armadilha de Satanás!

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Quinta, 28 Junho 2018
Fonte da imagem: Divulgação/Diamond Films
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Após assistir ao filme “Hereditário”, ao sair da sala de cinema, você possivelmente vai ter uma das seguintes reações: “Socorro, Senhor Jesus. Põe um anjo em meu lar!” ou “Manda mais que tá é pouco”. Sim, este é um longa-metragem que vai deixar você no famoso cagaço.

O filme de terror dirigido pelo estreante Ari Aster — que assina como diretor e roteirista — é um título planejado com cautela para contar uma história coerente, sem cair em frivolidades, ao mesmo tempo em que inova pela sua montagem ímpar.

O roteiro toma como base a morte da matriarca da família Graham para desencadear uma série de eventos sinistros sobre seus descendentes. Tudo começa com uma perturbação anormal sobre a jovem Charlie (Milly Shapiro), que parece ser a favorita da avó. No entanto, toda a casa parece estar destinada a receber esta herança indesejada.

É com base nesta simples linha de raciocínio que a trama consegue ir das premissas básicas ao desenrolar a ligação entre os familiares até construir uma teia de acontecimentos deveras inesperados que, felizmente, só são entrelaçados nos acréscimos do segundo tempo. É por essas e outras tantas artimanhas que o filme vem ganhando tanto prestígio dos fãs do gênero.

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Bom, mas antes de dissertar sobre esta obra de terror, vale um conselho muito importante: se você ainda não viu o trailer, não veja. Mesmo que a película consiga guardar seus segredos, as menores cenas do vídeo de divulgação já podem estregar algumas surpresas. Aliás, se você quiser, vale até ler este texto depois; ele não tem spoilers, mas é sempre bom ir às escuras. 

Quieto, porém inquietante

É curioso — e muito bem-vindo — que alguns filmes de terror têm apelado para uma fuga do habitual. Mais intrigante ainda é que todos parecem convergir para um mesmo ponto. A cautela toma a vez da pressa, o silêncio substitui o barulhento, o certo se sobrepõe ao inesperado e a tensão elimina o medo.

As agitadas câmeras de obras consagradas (como “A Bruxa de Blair”) dão vez a tomadas estáticas, em que podemos vislumbrar muito mais num mesmo cenário e aguçar ainda mais nossos sentidos. Aqui, nada de novo, uma vez que já vimos técnicas similares até em títulos recentes como “A Bruxa” e “Ao Cair da Noite”.

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Esta abordagem mais ampla possibilita englobar mais personagens num mesmo quadro e dá espaço para que o espectador veja o perigo chegando aos poucos. Assim, a fuga da tradicional técnica de “jump scare” (aqueles sustos com coisas pulando na tela e sons exagerados) se dá de forma bastante natural, uma vez que o medo se impõe pelo certo e não pela surpresa.

É bastante simples: há um perigo real e basta um take um pouco mais longo para que o espectador apenas veja o que vai acontecer em cena. Basicamente, este tipo de técnica elimina o sustão, mas deixa uma tensão constante no ar e sempre podemos ter a certeza de que o pior está acontecendo a todo instante e não há como fugir.

Outro ponto que se faz recorrente é a mudança do áudio estridente para um mais sereno, com diálogos pontuais e apenas a sonoplastia necessária. Não se trata do clima mudo de “Um Lugar Silencioso”, porém o silêncio ajuda na construção do suspense inerente que constantemente entra no terror mais aprofundado. A trilha de Colin Stetson também se encaixa como uma luva, pronta a asfixiar o espectador.

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E é na junção disso tudo que “Hereditário” se destaca entre os títulos do gênero. Apesar de não ser pioneiro, ele aproveita todas essas vantagens para criar um clima angustiante. É válido pontuar, contudo, que ele pode até incomodar a plateia pela demora em desenrolar alguns fatos, mas a espera sempre vale a pena. Cada revelação, cada cena deixa a gente muito tenso.

Perturbador em sua essência

Apesar das técnicas bem executadas e da sonoridade devidamente implementada, é nítido que o filme de Ari Aster se supera pela fotografia — até desconfortante em muitos momentos. A mescla de luz e sombra cria cenários perfeitos para a trama. A casa principal onde a família Graham habita é gigante e cheia de esconderijos para ficarmos de olho em cada canto da tela.

Interessante pontuar ainda que, felizmente, a história da vez para diálogos em inúmeros ambientes, o que evita o cansaço e permite um desenvolvimento da história de forma natural. O roteiro foi realmente pensado para nos guiar por uma trilha bem misteriosa, mas a paleta de cores se mantém intacta e perpetua o clima de mistério a todo instante.

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Agora, se toda a produção de cenário já é admirável, o filme ganha ainda mais força por seus personagens bem desenvolvidos. Com o roteiro bem divido entre todos da família, temos a oportunidade de acompanhar diferentes olhares e paranoias, cada qual com suas justificavas, o que sempre agrega para deixar tudo ainda mais amedrontador.

Há um trabalho muito admirável por parte de Gabriel Byrne e Milly Shapiro, que são muito marcantes na trama, porém o destaque fica para Toni Collette, que simplesmente se mostra avassaladora a cada cena. Ela é uma mãe completamente destruída pelas circunstâncias da vida. E se a loucura e a depressão já não são suficientes, a coisa fica ainda pior com as ilusões do sonambulismo. E nada como uma atriz empenhada pra deixar a gente maluco.

Quem brilha muito também — principalmente com uma quantidade exagerada de closes em seus olhos — é o ator Alex Wolff, que mais parece uma versão mais jovem de Dev Patel (o rapaz de “Lion”). Ele é talvez o pivô nas cenas mais tensas, já que protagoniza em longas tomadas. Um rapazinho que parece não ser grande coisa pelo personagem, mas que a gente acaba respeitando muito ao ver sua dramaticidade.

E aí, meu povo, é na soma de todos os medos que a gente tem essa belezinha de filme. Pouco convencional, um tanto experimental, cansativo para alguns, mas terrível para todos. Muita gente pode até se cansar pelo ritmo mesmo, porém ninguém vai esquecer esse filme tão facilmente, pois ele realmente se infiltra no subconsciente. “Hereditário” é uma obra totalmente excelente!

Fonte das imagens: Divulgação/Diamond Films

Hereditário (2018)

Algumas árvores têm troncos podres

Diretor: Ari Aster

Duração: 126 min

Estreia: 7 / Jun / 2018

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