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Critica do filme Jogador Nº1

O olho da referência chega até a sangrar

Carlos Augusto Ferraro

por
Carlos Augusto Ferraro

Quinta, 29 Março 2018
Fonte da imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures
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Antes mesmo de chegar às livrarias, ainda em agosto de 2011, já havia uma guerra de ofertas dos grandes estúdios para transformar o livro de Ernest Cline em um filme. A aventura com uma grande “caça ao tesouro”, no melhor estilo monomito, com toneladas de referências multimidiáticas e uma boa dose de saudosismo parece ter sido feita sob encomenda para os cinemas.

A história é uma grande homenagem a cultura pop, em especial ao universo nerd oitentista. Quando Steven Spielberg foi atrelado ao projeto todos sabiam que ele era a escolha mais adequada, se não a única, para comandar a empreitada, e é aqui que o filme ganha corpo.

Não estamos falando apenas dos talentos técnicos de Spielberg — cujo nome na produção também ajudou a assegurar boa parte dos acordos de licenciamento para o uso de diferentes propriedade dentro de um mesmo filme — mas principalmente porque toda a carreira de Spielberg ajudou a criar a obra Cline. O escapismo e o movimento autoral do qual Spielberg fez parte, consolidou a época que Ernest Cline tanto enaltece em sua obra.

Como resultado dessa parceria, Jogador Nº 1 é um grande sonho juvenil, abrigando referências pop de diferentes eras, criando uma ponte de saudosismo entre diferentes gerações. É fácil se desprender da ação e simplesmente ficar rastreando a tela por surpresas escondidas, como a moto de Kaneda (Akira) o Delorean (De Volta para o Futuro), o Plymouth Fury '58 (Christine - O Carro Assassino), o furgão do Esquadrão Classe A e assim por diante. Isso posto, assista Jogador Nº 1, assista mais de uma vez, assista sempre que possível e nas maiores telas possíveis!

Bem-vindo ao Deserto do Real

No futuro distópico de 2044 o mundo está caindo aos pedaços, portanto não é a toa que todos prefiram fugir da realidade e buscar consolo em um universo virtual, entra aqui o OASIS. A criação de James Halliday  e Ogden Morrow (em uma parceria à lá Jobs e Wozniak) permite que as pessoas fugissem dos problemas e logo o virtual se tornou a realidade de todos, as pessoas trabalham, estudam e se divertem dentro do jogo.

Mas quando Halliday morre, ele revela que escondeu um easter egg (uma espécie de surpresa digital dentro do jogo) no universo virtual e quem encontrar esse segredo digital herdará toda sua empresa, tornando-se assim o homem mais rico do mundo, virtual e real. Wade Watts (Tye Sheridan), como o resto da humanidade, é um garoto pobre totalmente dedicado a encontrar o “ovo de Halliday” e mudar sua vida para sempre. Como um dos maiores entusiastas de Halliday, Watts consegue juntar as peças dá início a corrida em busca do Ovo.

Cline, autor do livro também assina o roteiro, o que ajudou a manter a essência da história, mesmo com algumas mudanças. Os leitores certamente sentiram falta de alguns elementos, como o arco de Daito e Shoto. Sem contar que os enigmas de Anorak foram totalmente modificados.

Tudo perfeitamente compreensível, não apenas por conta do pesadelo contratual de adquirir todas as licenças necessárias para incluir esses elementos no filme, mas principalmente por se tratarem de mídias de dinâmica diferente. O que se desenrola tranquilamente em vários capítulos do livro não funciona da mesma maneira em minutos de filme. De qualquer forma, tudo acaba se encaixando e a história segue com a mesma força e ritmo do livro.

Spielberg por Spielberg 

Em muitos sentidos o grande destaque de Jogador Nº 1 é o próprio Spielberg. Aqui temos um cartão de visitas do diretor para os “millenials” que nunca viram o mestre em ação. Fato, Spielberg esteve sim bem ocupado nos últimos vinte anos, no entanto, os últimos anos tem sido sem sombra de dúvida a sua fase mais técnica e introspectiva. Todavia, foi no ínicio da sua carreira — nos idos de 1980 e com um estilo bem diferente de cinema — que o seu nome foi alavancado na indústria, transformando-se na “marca” que é atualmente.

A atual geração nunca teve a oportunidade de ver Spielberg em seu “habitat natural”, o mais próximo disso veio em 2008 com a quarta parte da saga Indiana Jones, e mesmo assim os millenials ainda estavam saindo das fraldas. Sem entender exatamente a força que movia o escapismo do diretor, o filme caiu em um limbo geracional que acabou decretando seu “fracasso”.

Mas Spielberg é um conhecedor de cinema, e especialmente desse recôndito fantástico. Com a habilidade própria de quem redefiniu os termos do gênero, o diretor navega pelas referências pop, que ele mesmo ajudou a criar ao longo dos anos 80 e 90, ao mesmo tempo em que introduz materiais novos, próprios dos tempos modernos, criando uma colcha de retalhos sem emendas aparentes.

Street Fighter, Mad Max, Speed Racer, Esquadrão Classe A, Batman...

Não é todo dia que se vê Batman, o Xenomorfo de Aliens e Tracer de Overwatch, interagindo em um museu. Videogame, cinema, quadrinhos, música, rpg, tudo interligado e coexistindo em um universo multisensorial que absorve e atordoa o espectador.

Spielberg mostra para que veio já na sequência inicial em uma das corridas de carro mais alucinantes da história do cinema. O diretor constrói mais ação automobilística em dez minutos de filme do que todas as oito iterações de Velozes e Furiosos, e isso sem qualquer demérito para a franquia tunada, é apenas um inflexão do quão intensa é a cinemática da sequência inicial de Jogador Nº 1.

A ação é frenética e a narrativa não se perde, apesar de a história ser “infantilizada” para comportar arquétipos maniqueístas e resoluções simplistas. Mas nada disso realmente afeta o filme como um todo e a imagem de Spielberg. O garoto setentão que outrora apresentava a Nova Hollywood (ou American New Wave) agora introduz uma “Novíssima Hollywood”.

Universo expandido

Alan Silvestri tem um trabalho muito interessante na composição da trilha sonora. Assim como Spielberg ele deve criar algo que relembre toda sua carreira, evocando toda nostalgia de seus trabalhos anteriores como De Volta para o Futuro sem cair em armadilhas egocêntricas.

Usando uma combinação de trilhas oitentistas, tons evocativos de toda uma era e faixas icônicas de artistas da época, Silvestri consegue combinar os elementos para criar algo que se encaixa perfeitamente na visão do diretor, seja nos momentos mais intensos, ou nas cenas mais ternas.

O elenco também merece destaque. Ben Mendelsohn terá cada vez mais dificuldade de quebrar a imagem de vilão. Suas participações em O Cavaleiro das Trevas Ressurges e Rogue One ajudaram a criar uma imagem de antagonista frio e calculista que é consolidada com a sua versão do empresário mau-caráter Nolan Sorrento, as nuances de sua performance deixam bem claros os conflitos de ideológicos de Sorrento e Watts.

Tomb Raider, Mortal Kombat, Overwatch, Street Fight, Evil Dead...

Por falar em Wade Watts/Parzival, Tye Sheridan faz um belo trabalho na pele do arquétipo arturiano. A busca pelo “graal” digital, corre em dois planos, o mundo real e o mundo dentro do OASIS e Sheridan transmite carisma em amblos os cenários. O elenco de apoio, especialmente Mark Rylance na pele do excêntrico James Donovan Halliday, o proverbial Willy Wonka da fantástica fábrica digital também merece louvor.

Infelizmente, algumas escolhas narrativas feitas durante a adaptação do livro para as telas alterou consideravelmente a participação de Ogden Morrow, vivido no filme por Simon Pegg. As mudanças em questão resultaram em pouco tempo de tela para o inglês, cuja simples presença no filme também pode ser considerada mais uma das inúmeras referências deixadas na tela, haja vista seu “ativismo” nerd e envolvimento nas franquias Star Wars e Star Trek.

Sessão da tarde para millennials

Como no livro, o filme homenageia a cultura pop e especialmente o saudosismo dos anos 80. “Crianças” com mais de 30 anos certamente vão se deleitar não apenas com o espetáculo cinematográfico, mas com os “brindes” deixados por Spielberg e sua equipe ao longo de todo o filme. É um prazer singular ver O Gigante de Ferro lutando ao lado do RX-78-2 Gundam (Mobile Suit Gundam) enquanto, um exército povoado por Chun-Li, Lara Croft e Chucky correm para ajudar um protagonista que dispara hadoukens contra o vilão.

A "sessão da tarde” está garantida para toda uma nova geração de cinéfilos.

Não precisa muito esforço para encontrar os defeitos narrativos e até mesmo questionar a despretensiosidade da trama —  que perde muito de seu detalhamento na transição entre mídias — mas em nenhum momento essas falhas se tornam problemas.

No melhor estilo Spielberg de se fazer filmes, é seguro dizer que Jogador Nº 1 se tornará tão essencial para as novas gerações quanto “Goonies” foi para os seus predecessores. Trata-se de uma história leve e divertida que agrada sem fazer muito esforço.

Fonte das imagens: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Jogador N°1

Pronto para jogar?

Diretor: Steven Spielberg

Estreia: 29 / Mar / 2018

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