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O cinema branco de cada dia e a resistência da mulher negra
Fonte da imagem: Divulgação/Reprodução/ Arquivo Pessoal
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*Texto: Felipa Pinheiro, especial para o Café com Filme

O cinema nacional sofre historicamente com a falta de pluralidade em suas produções de maior circulação e não reflete a realidade da maioria da população brasileira. O estudo inédito da Agência Nacional do Cinema (ANCINE) sobre diversidade e gênero baseado na distribuição de longas metragens em cinemas comerciais de 2016 revela o motivo: a direção dos filmes é branca e masculina.

De 142 filmes analisados, 75,4% foram dirigidos por homens brancos. Enquanto, apenas 2,1% por homens negros e 19,7% por mulheres e desta porcentagem NENHUMA mulher é negra. Todas são brancas. O estudo revela ainda que, das obras que foram incentivadas por recursos públicos geridos pela ANCINE em 2016, 100% foram dirigidas por pessoas brancas, assim como 98% dos roteiros.

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Com estes dados, a Agência, após abrir o edital de concurso para Cinema 2018, lançado em março deste ano — que destina R$ 100 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual a projetos de longas-metragens independentes — adotou as cotas de gênero e raça na seleção dos projetos inscritos no edital.

Ao menos 35% dos valores investidos nos projetos selecionados deverão ser dirigidos por mulheres, incluindo mulheres transexuais, e pelo menos 10% desses valores serão reservados a diretoras(es) negras(os) e indígenas. As inscrições vão até o dia 3 de maio de 2018. Veja o edital completo aqui.

A primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil

A única função técnica no cinema que aparece mulheres negras na pesquisa da ANCINE é a de produção executiva. Mas, a porcentagem de apenas 1%, ainda é dividida com mulheres brancas. Isto faz lembrar a história da primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil, a Adélia Sampaio.

Adélia iniciou sua carreira no final da década de 1960. Foi continuísta, maquiadora, câmera, montadora e produtora, passou por quase todas as funções dentro de um set de cinema, em mais de 70 produções, até chegar à direção.

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Irreverente, inaugurou a temática lésbica no cinema brasileiro na década de 1980 com o seu primeiro longa, o “Amor Maldito” (1984). Considerado a crônica da lesbofobia nacional, o longa é baseado em fatos reais ocorridos no Rio de Janeiro sobre a relação entre a jovem executiva Fernanda Maia (Monique Lafond) e a ex-miss, filha de um pastor evangélico, Sueli Oliveira (Wilma Dias), que acaba se suicidando. Apontada como culpada pela morte de sua companheira, Fernanda é levada aos tribunais e massacrada pelos valores machistas e moralistas da sociedade.

A Embrafilme — a estatal brasileira produtora e distribuidora de filmes da época — classificou o tema como absurdo e não ofereceu financiamento para o filme. Sem recursos financeiros, o longa foi realizado a partir da colaboração entre a equipe de elenco e de produção com apenas uma ajuda de custo.

Como o cinema nacional dos anos 1980 era dominado pela pornochanchada e nenhum cinema paulista aceitou exibir o longa, Adélia teve que ceder e divulgar o longa como um filme pornográfico para chegar ao público.

As meninas mulheres da pele preta no cinema contemporâneo

Camila de Moraes

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Após 34 anos da estreia do filme de Adélia, a diretora Camila de Moraes está fazendo história com o lançamento neste ano do segundo longa dirigido por uma mulher negra no cinema brasileiro. O documentário denominado “O Caso do Homem Errado” conquistou o prêmio de melhor longa-metragem pelo voto popular no 9º Festival Internacional de Cine Latino, Uruguayo y Brasileiro e denuncia o genocídio preto com a história do operário negro Júlio César de Melo Pinto, que foi executado por policiais militares, ao ser confundido com assaltantes de um supermercado em Porto Alegre.

Assim como Adélia, Camila também teve problemas para financiar o filme até conseguir apoio da produtora Cinema Praça de Filmes, de Porto Alegre. A cineasta, além do longa, produziu o documentário chamado “Mãe de Gay”, que ganhou dois Galgos de Ouro no Festival Universitário de Gramado de 2008 e em 2016 dirigiu o curta-documentário “A Escrita do Seu Corpo”, que participou de diversos festivais pelo país.

Juliana Vicente

juliana vicente foto reprodução bea01Juliana é produtora e diretora de cinema e fundadora da Preta Portê Filmes. Com uma carreira consolidada, seu trabalho vem ganhando público e reconhecimento através de premiações em diversos festivais de cinema. Entre eles, a produção do “Filme para Poeta Cego” (2012), que participou do International Film Festival of Rotterdam — 2013 e recebeu mais de 50 prêmios, e a direção do curta “Cores e Botas” (2010) (Festival Iberoamericano de Huelva — 2011 e Festival de Havana — 2010).

Recentemente, a cineasta em parceria com o canal Futura lançou a série “Afronta” (2017). A série está disponível online com 26 episódios sobre artistas, empreendedores e produtores culturais negros. Nomes como Rincon Sapiência, Tássia Reis, Karol Conka e Liniker fazem parte da série.

Renata Martins

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Diretora e roteirista premiada, Renata tem muito a contribuir com o cinema brasileiro. Entre suas grandes produções, está a direção do curta “Aquém das nuvens” (2010), que foi exibido em mais de dez países e premiado no Festival Unasur na Argentina e no concurso TALTV — Televisão da América Latina em 2014; e o roteiro da série “Pedro & Bianca”, ganhadora do Emmy Internacional Kids Awards 2013, na categoria Melhor Série InfantoJuvenil, e do Prix Jeunesse Iberoamericano 2013 e Internacional em 2014 na categoria “ficção para o público de 12 a 15 anos”.

Em 2015, lançou em conjunto com a cineasta Joyce Prado a primeira temporada da web serie “Empoderadas”, que traz histórias de mulheres negras em diferentes áreas de atuação. Um dos episódios mais vistos da série e que viralizou no ano de 2015 foi o da rapper MC Soffia. Com apenas 11 anos, a menina compõe músicas que trazem poesia, ritmo, cultura e um respeito por suas raízes. Conforme sua fala no vídeo, através da sua música “quer que outras crianças sejam livres”.

Viviane Ferreira

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A cineasta baiana, que vive atualmente na capital paulista, é uma das fundadoras da Associação Paulista dos Profissionais do Audiovisual Negro (Apan) e dirigiu o curta “O Dia de Jerusa” (2014), que fez parte da programação do Festival de Cannes de 2014.

O curta ficcional, que traz a temática da solidão na velhice e as raízes afro e baianas, emociona pelo encontro entre duas mulheres negras, de diferentes gerações. Silva, a moça que faz pesquisa sobre de uma marca de sabão em pó não sabia o que a tarde de trabalho ia lhe render: a história de uma mulher negra de 77 anos que tem muito a ensinar.

Yasmin Thayná

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O nome Yasmin Thayná vem ganhando cada vez mais força. A estudante de comunicação de 23 anos, desde os 16, escreve, dirige e participa de produções audiovisuais. Dentre suas produções, está o curta “Kbela, o filme” (2015), que traz às telas a experiência sobre ser mulher e tornar-se negra e foi premiado em festivais como o 5º Festival Curta Brasília e o 2º MOV Festival Int. de Cinema Universitário de Pernambuco e exibido no International Film Festival Rotterdam — IFFR.

A diretora carioca também criou a “Afroflix”, uma plataforma colaborativa online que divulga filmes produzidos, dirigidos ou protagonizados por negros. No site, você pode conferir mais trabalhos de Yasmin, como o curta “Batalhas” e também de diversos talentos do cinema brasileiro.

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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