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Um exército de vozes | A importância de Audrie & Daisy
Fonte da imagem: Divulgação/Netflix

Já tem um tempo que a Netflix começou a colocar em seu catálogo alguns documentários e produções de ficção que tocam em temas delicadíssimos - de racismo e homofobia a cyberbullying e suicídio. Com o supersucesso que fez a série “13 Reasons Why”, o site de streaming ganhou ainda mais projeção nesse sentido.

Nesse tempo, minha lista de títulos para ver foi aumentando e foi só agora, meses depois de estrear no catálogo, que consegui assistir a um dos que encabeçaram esse movimento, o documentário “Audrie & Daisy”, que foi lançado em setembro do ano passado e traz o selo de produção original Netflix (a gente já falou aqui no Podcafé que nem sempre isso significa que o filme foi pensado pela produtora).

Embora carregue apenas o nome de duas adolescentes, a produção conta a história de três casos de violência contra meninas em ambientes reais e virtuais. Daisy Coleman, Paige Parkhurst e Audrie Pott. Cada uma de um jeito, elas foram submetidas a situações violentas e humilhantes, cada uma também com um desdobramento diferente.

Vocabulário do abuso

Cyberbullying - Fazer bullying com alguém em ambiente virtual
Revenge Porn - Compartilhar fotos nuas de alguém por vingança ou ciúme
Slut shaming - Fazer uma mulher sentir-se mal por seu comportamento sexual. É o que acontece, por exemplo, quando uma menina compartilha fotos nuas com alguém, e essa pessoa compartilha com terceiros. Essa prática é não apenas um crime, mas pode ter efeitos devastadores na vida de uma menina.

Focado em discutir os impactos do cyberbullying sobre a vida e as famílias das adolescentes, o documentário parte de suas histórias, focando obviamente mais em Audrie e Daisy, para expandir e discutir uma temática que não vai se esgotar tão cedo.

A dobradinha abuso sexual + slut shaming é uma desgraça que todos os anos tira a vida - ou ao menos a vontade de viver de centenas de meninas do mundo inteiro. Sim, meninas, embora também aconteça muito entre os adolescentes do gênero masculino.

Segundo a ONG SaferNet, as mulheres são as maiores vítimas dos crimes virtuais, com 65% dos casos de cyberbullying e difamação. O número de casos de revenge porn entre mulheres quadruplicou nos últimos anos. Números levantados pela Organização Mundial de Saúde e divulgados pelo site Telegraph mostram que, já em 2015, o suicídio se tornou a maior causa de morte de adolescentes do mundo.

Para Audrie, essa experiência foi fatal e foi assim que ela se tornou parte da estatística. A adolescente não aguentou a pressão de ter fotos íntimas - tiradas enquanto ela dormia e sem sua autorização - expostas e vistas por todos os colegas da escola.

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Fonte: Site Não Me Khalo

Já Daisy conseguiu encontrar apoio de outras meninas que estiveram na mesma situação quando, aos 14 anos e depois de ter sido estuprada por amigos de seu irmão, foi acusada por quase todo o corpo discente escolar de mentirosa, vadia, oportunista.

São duas situações de certa forma diferentes, mas semelhantes em sua essência, porque denotam a nossa pressa em acusar e questionar atitudes de mulheres e adolescentes do gênero feminino e de inocentar os homens.

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Em tempos de hipermidialização via redes sociais, então, o facebook se tornou uma arma poderosa para afundar ainda mais essas meninas em um mar de tristeza, humilhação e culpa, embora não possam sob nenhuma hipótese, ser consideradas culpadas pelos crimes que os outros cometeram sobre elas.

Por outro lado, “Audrie & Daisy” mostra de que forma essa mesma ferramenta virtual pode ser usado para conectar pessoas e empoderar mulheres, e como a união entre vítimas de crimes semelhantes pode fortalecer e conscientizar - ou ainda, transformar uma legião de vítimas em um exército de vozes que não se calam e não vão mais se calar diante de abusos, violência simbólica e humilhação via redes sociais.

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A premissa do documentário dirigido por Bonni Cohen e Jon Shenk, dessa forma, é justamente mostrar que, por meio da conscientização, da reflexão, do diálogo e da quebra de padrões e de discursos machistas já consolidados, é possível transformar cada vez mais a história de meninas que viveram histórias de abusos, para que sejam mais Daisys e menos Audries.

Que, antes de tudo, a gente consiga extinguir essa prática da face da Terra, mas que, até lá, seja possível pelo menos tornar suas consequências menos devastadoras.  

Fonte das imagens: Divulgação/Netflix

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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