Crítica do filme 12 Horas para Sobreviver

Violência é uma escolha?

por
Lu Belin

12 de Outubro de 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Universal Pictures

E se, de alguma forma, um país inteiro concordasse em não cometer crimes de qualquer ordem durante 364 dias do ano para, em uma única data, poderem extravasar todo o seu ódio e seus instintos violentos e realizar toda e qualquer atividade criminosa - inclusive assassinato - sem serem punidos.

Esse é o princípio básico da trilogia "Uma Noite de Crime", que se encerra neste ano com o lançamento de "12 Horas para Sobreviver - O Ano da Eleição". Décadas antes, os novos "founding fathers" dos Estados Unidos decidem que esta é a brilhante solução para a acabar com a criminalidade na grande nação norte-americana.

Na noite do expurgo, você pode eliminar toda e qualquer pessoa que encontre, invadir casas, destruir patrimônios públicos e privados, machucar, torturar, estuprar ou matar. Tudo é permitido.

Bem, esse tema é explorado nos dois primeiros temas da franquia.Em "Uma Noite de Crime", acompanhamos a noito do expurgo sob o ponto de vista de uma família que está em casa e se vê vulnerável. Em "Uma Noite de Crime: Anarquia", os protagonistas ficam presos para fora de casa, na rua, e precisam se proteger dos malucos que saem às ruas para realizarem seu papel social de assassinos - inclusive o sargento Barnes (Frank Grillo), que sai para expurgar e acaba quase expurgado.

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Era óbvio que toda essa liberação ia dar merda. Uma verdadeira indústria do crime e novas formas de exploração começam a surgir. Empresas de segurança passam a enriquecer e a explorar seus clientes na noite do crime, seguradoras aumentam os preços na noite do expurgo, turistas de todos os lugares do mundo visitam os States somente para expurgar, num verdadeiro mercado turismo de assassinato (se no Brasil a gente tem até mesmo turismo de favela, por que nos surpreeder com isso?).

Nem todo mundo está contente com esse cenário e algumas almas com um pouco de  noção começam atividades ilegais para ajudar pessoas que são as mais atingidas pelo expurgo: pessoas pobres, que não têm como se proteger, grupos minoritários e vítimas de crimes de ódio que são as mais visadas como alvo.

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É nesse  contexto que a candidata à presidência Charlie Roan (Elizabeth Mitchell) começa a ganhar espaço, justamente tendo como grande proposta a eliminação completa da noite do expurgo.

O problema é que isso ameaça muita gente, e a senadora e candidata logicamente se torna um alvo disputado para a noite do expurgo. Quem vai protegê-la? O nosso querido sargento Barnes, que é convenientemente seu chefe da segurança.

Isso não é um treinamento

Conveniência é inclusive a palavra de ordem no filme, que decepcionantemente encontra saídas um tanto previsíveis e foge um pouco da linha dos anteriores. Quando uma falha no plano de segurança da senadora para a noite de crime coloca Barnes e Roan na rua em pleno expurgo, ambos acabam se encontrando repetidamente em situações sem saída.

E aí são salvos ou resgatados de formas tão improváveis que você até fica esperando o Liam Neeson dar as caras. É assim que entram também em cena os outros personagens importantes do filme, o comerciante Joe (Mykelti Williamson), seu funcionário imigrante mexicano Marcos (Joseph Julian Soria) e a black mamba ex-deliquente e atual ativista antiexpurgo Laney Rucker (Betty Gabriel).

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Assim como nos dois primeiros filmes, o grande ponto do roteiro é levar os protagonistas com vida até a manhã seguinte. Nesse caminho, "12 Horas para Sobreviver" explora o terror de uma vítima das noites de expurgo e o lado mais doentio e assustador da humanidade. Dessa vez, no entanto, com uma pegada um tanto "Sucker Punch" e mais teatral, mostrando lados mais ritualísticos dados à noite.

Terror constante

Na maior parte do tempo, o longa-metragem mantém um rítmo acelerado de fuga e perseguição e gente doida matando muito, embora eu tenha achado essa parte dos fatores inesperados mais forte nos filmes anteriores.

Dessa vez, os inimigos na maior parte são bem conhecidos e não meros estranhos, e as motivações são majoritariamente políticas (vou voltar a esse ponto em breve).

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Assim para manter um ritmo intenso e para criar uma atmosfera de medo e tensão, o principal fator usado pelo diretor é a trilha sonora, já que o roteiro acaba levando para momentos um pouco mais reflexivos e menos momentos na loucuragem.

O uso da teatralidade que comentei ali atrás também ajuda muito, assim como os movimentos de câmera, a câmera lenta e ouso de alguns excessos também são essenciais nesse sentido.

Elenco Lado B

"12 Horas para Sobreviver" não traz no elenco grandes estrelas de cinema nem nomes muito conhecidos. A maior parte é composta por artistas desconhecidos ou vistos brevemente em algumas produções hollywoodianas.

Sem dúvida, os destaques vão para os protagonistas Elizabeth Mitchell, conhecida pelas séries Lost e Revolution, e Frank Grillo, de "A Hora Mais Escura", que também fez ponta nos filmes da saga Capitão América.

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Não são atuaçoes fenomenais - eu particularmente acho que a Elizabeth Mitchell tem a mesma expressão em todos os papéis -, mas também ninguém deixa muito a desejar. São as essências dos personagens que não ajudam muito, já que todos são bastante clichês.

De maneira geral, não apenas as atitudes e o destino de cada um dos personagens, mas o filme todo é super previsível. Durante uma cena, você imagina "agora isso é que vai acontecer" e de fato ela acontece, porque o roteiro não sai daquela linha arroz-com-feijão de filmes que trazem essa mesma pegada.

Muito potencial, pouco esforço

Particularmente, gosto muito da franquia "Uma Noite de Crime" e enxergo um super potencial no plot desta sequência. Há uma infinidade de coisas que se pode explorar dentro desse universo e acho ótima a evolução da história escolhida pela produção: partindo de uma situação caseira, expandindo para as ruas e depois chegando a uma esfera política e global.

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Especialmente porque isso conduz o espectador a refletir um pouco sobre a própria natureza do ser humano e sobre nossas estruturas sociais de combate ao crime. Permitir a violência, ainda que por apenas uma noite, não seria uma forma de reduzir a criminalidade, mas sim de, de certa forma, "autorizar" a eliminação de populações que não teriam como se defender.

Será que ter uma noite em que tudo é liberado não incentivaria ainda mais a violência?

Será que existe, de fato, alguma forma de eliminar ou reduzir o comportamento violento entre os homens? A trilogia "Uma Noite de Crime" tem os recursos para despertar esse tipo de reflexão, mas infelizmente se concentra mais no andamento das cenas de ação do que nessa parte.

E último filme especialmente fica muito superficial, com o uso de tantos clichês, cenas convenientes e desdobramentos previsíveis. Ainda assim, vale a visita ao cinema, e especialmente o final do filme nos coloca em uma posiçaõ de reflexão que merece a atenção.

Fonte das imagens: Divulgação/Universal Pictures

12 Horas Para Sobreviver - O Ano da Eleição

Alguém ousou enfrentar o absurdo da noite dedicada ao crime

Diretor: James DeMonaco
Duração: 105 min
Estreia: 6 / Out / 2016

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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