Crítica do filme A Bruxa

Caindo nos sortilégios do perverso

por
Fábio Jordão

03 de Março de 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Universal Pictures

O longa-metragem “A Bruxa” está dando o que falar, com elogios vindo até do mestre Stephen King. Os boatos que sopram aos quatro ventos prenunciam que temos aqui uma obra de terror com uma pegada genuína, o que vem deixando o público curioso para conferir o filme na telona.

O roteiro centraliza em algumas temáticas recorrentes do século XVII, mais precisamente com uma abordagem atenuada sobre o fervor religioso e as diferenças de crenças da época, incluindo aqui toda a polêmica da existência de bruxas e os pactos com Lúcifer.

Na trama, o espectador é levado para uma casa à beira de uma floresta assustadora. A residência em questão é o novo lar de uma família que foi expulsa do vilarejo após uma discussão sobre fé e os conceitos da igreja.

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Neste ambiente inóspito dominado pela infertilidade, a pobreza, a miséria e a descrença começam a tomar conta dos familiares. Algo que poderia ser um novo começo acaba se tornando um pesadelo quando o bebê da família desaparece e as outras crianças começam a agir de forma estranha.

A tensão aumenta quando todos começam a suspeitar da jovem adolescente Thomasin (Anya Taylor-Joy), que estava cuidando do recém-nascido e que não sabe explicar o que aconteceu. Seria isto uma bruxaria? Um lobo teria levado o bebê? Ou a garota está escondendo algo? As opiniões ficam divididas e o espectador é convidado a entrar de cabeça na trama cheia de reviravoltas.

Floresta densa, silêncio profundo, incômodo constante

O gênero de terror me fascina muito, pois fico realmente surpreso como uma mídia pode nos deixar tão apavorados. Acontece que não há muitos filmes desse tipo que se mostrem assustadores ou de grande qualidade. Nos últimos anos, então, Hollywood foi tomada por uma onda de produções que forçam clichês e trazem roteiros furados.

Felizmente, o diretor e roteirista Robert Eggers sabia o que estava fazendo. Aliás, a chegada deste novato ao segmento é talvez uma das mais gratas surpresas. Tirando alguns curtas que assinou e outros títulos em que tomou as rédeas na parte de produção de design, o cineasta assume aqui seu primeiro grande projeto e se mostra muito competente e dedicado.

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Seguindo uma construção de fatos vagarosa e muito focada em alguns detalhes, o diretor e sua equipe conseguiram transpassar do roteiro para a telona uma experiência sinistra, de atmosfera pesada e de segredos ocultos que demoram a se desenrolar. A floresta é talvez o cenário mais importante, pois ali residem os perigos, os medos e os pecados.

Aqui, a fotografia do filme ajuda muito, pois a paleta de tons cinzas e contraste reduzido dá o tom de seriedade e aumenta o mistério intrínseco do tema principal.  O filme foca muito nesse ambiente, faz questão de deixar o espectador prestando a atenção em cada árvore, enaltecendo cada pormenor deste local assustador. Cada passo adiante é uma chance a menos de escapar de uma ameaça constante.

"A Bruxa" é um convite para cair nos deleites do inimigo, um passo a frente e você entra na cantiga, de onde não há volta; um passo atrás e você se arrisca a cair nos sortilégios do perverso, onde você nunca vai querer entrar.

Tal qual a mata, a residência começa a ser tomada pelo clima de tensão. A névoa da manhã, as noites escuras, os ambientes apertados, as plantações, os animais ao redor da casa e outros detalhes ajudam a construir a tenebrosidade da residência, que fica cada vez mais assustadora. Não sabemos o que reside nas entranhas da mata ou ao redor da casa, mas o perigo é prenunciado e toda a plateia fica em silêncio para acompanhar as artimanhas do mal.

Enquanto o público não emite um som, a respiração começa a ficar ofegante. A trilha sonora acompanha o medo refletido nos olhos fixados na telona. Com tons distorcidos, sons que incomodam os tímpanos e volume que vai aumentando gradativamente, o cérebro imagina mil coisas. O suspense construído durante a trama é o grande ponto. O filme é angustiante e tenso.

Muito religioso e cheio de artimanhas

A floresta é um convite para o terror, mas, em muitas cenas, o roteiro parece querer manter certa distância do local, pois há outra pauta ainda mais interessante: a religiosidade da família. Conforme as desgraças vão acontecendo, os personagens deixam seus sentimentos aflorarem de forma convincente, revelando seus preceitos e seus pecados.

As atuações são bem alinhadas com os papeis, nos levando a crer que estamos ali presenciando uma família em conflito e com medo do desconhecido. Nesse sentido, o elenco ajuda muito a chamar a atenção. A novata Anya Taylor-Joy, que até então só tinha feito coisas para TV, é a grande estrela do longa-metragem e desperta tanto o clima de suspense quanto o de inocência.

Kate Dickie, que você já conhece de Game of Thrones, e Ralph Ineson, que já fez dezenas de pontas em grandes filmes, também são responsáveis pelo bom desenvolvimento da trama. Além da caracterização, ambos se mostram muito empenhados, deixando a plateia irrequieta. Ineson é talvez o mais notório, já que tem papel de destaque e assusta com sua entonação macabra.

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É legal perceber que, mesmo o título do filme propondo uma coisa, temos no desenrolar uma forma completamente distinta da proposta habitual para filmes com essa pegada. A religiosidade exagerada da família é algo que ajuda a dar vida ao mito das bruxas, às crenças e aos subsequentes atos de cada um.

Durante bom tempo, os diálogos inteligentes sustentam a trama, apenas aumentando o suspense e deixando o espectador pensando em inúmeras hipóteses do que pode estar por trás dos misteriosos acontecimentos. Talvez, o grande problema para alguns seja o excesso de barulho e a pequena dosagem de bruxarias, já que o longa é cheio de truques, mas, às vezes, pode não entregar tudo que se espera. Contudo, o filme ainda se mostra instigante até o último instante.

Enfim, “A Bruxa” tem sim muito a oferecer, seja pela abordagem mais de suspense com longas cenas de tensão ou pela temática pouco retratada no cinema. Esses diferenciais são o grande trunfo do filme, o que é bom para quem busca algo novo, mas pode ser um tiro no pé do ponto de vista financeiro, já que o grande público ainda prefere filmes de terror com clichês.

Fonte das imagens: Divulgação/Universal Pictures

A Bruxa

A floresta é cheia de mistérios e perigos

Diretor: Robert Eggers
Duração: 92 min
Estreia: 3 / Mar / 2016

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