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Crítica do filme A Conexão Francesa

Justiça incisiva num filme realista

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Segunda, 29 de Agosto de 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Imovision
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A cada obra europeia que chega aqui, temos mais uma oportunidade de admirar um cinema feito com paixão, muito mais real e ligado a grandes histórias. Não é por acaso que, de uns tempos para cá, esses filmes figuram em tantas premiações.

Este é também o caso de “A Conexão Francesa”, filme dirigido por Cédric Jimenez e com Jean Dujardin (ganhador do Oscar por sua interpretação em “O Artista”) no papel principal.

A história de “A Conexão Francesa” é baseada em fatos, os quais acompanham a chegada do juiz Pierre Michel (Dujardin) em Marselha, onde ele foi encarregado de desmembrar uma articulada quadrilha de traficantes.

O grupo de criminosos é comandado por Gartan Zampa (Gilles Lellouche), o qual expandiu os negócios para fora da cidade e faz transações até mesmo com italianos que comandam as vendas nos Estados Unidos. Com tal amplitude de atuação, esse esquema ficou conhecido como a Conexão Francesa, sendo este o principal alvo, pelo qual o juiz Michel ficou obcecado.

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Com forte dose de ação, adrenalina constante e uma trama recheada de reviravoltas, “A Conexão Francesa” não apenas consegue ser fiel à realidade com um roteiro bem complexo, como também nos entrega uma retratação dos fatos com alto nível de qualidade na execução. É um filme que mostra a ousadia do cinema francês e deixa a plateia intrigada.

Tramoia de dar nó na cabeça

A sinopse de “A Conexão Francesa” é bastante inteligível, já que ressalta apenas a importância de dois personagens na história. Todavia, a longa época de violência que serve de base para o roteiro teve uma gangue de grandes criminosos, os quais são transportados juntos para a telona, com o objetivo claro de ressaltar o excelente trabalho do juiz, bem como o poder de Zampa.

Como você deve imaginar, como em qualquer círculo de transgressores, a corja que obedece ao rei do crime não se restringe apenas aos bandidos e foras da lei que trabalham no tráfico. A história aqui aborda a influência no comando da polícia, nos grandes estabelecimentos, nas ruas, na política e por aí vai. O longa retrata justamente essas conversas e relações em todos os âmbitos.

As minúcias exigem uma boa dose de atenção, ainda mais que a trama usa de artimanhas para esconder o jogo 

O espectador é levado a acompanhar a história dos dois lados, observando tanto a investigação de Michel quanto as sujeiras de Zampa. Acontece que são muitos nomes e atividades em paralelo, o que acaba começando a confundir a plateia. A similaridade entre personagens, bem como o uso de apelidos (usados no crime) e nomes (referenciados pela justiça) também deixa o desenrolar um bocadinho complexo.

Veja bem, a história de “A Conexão Frances” não tem falhas, mas as minúcias acabam exigindo uma boa dose de atenção. Felizmente, a trama usa de artimanhas para esconder o jogo, de modo que algumas surpresas sempre ficam no cano do revólver, só esperando para pegar o público de surpresa. O roteiro segue de maneira intensa, com reviravoltas que nos deixam boquiabertos com a violência e o tamanho do círculo criminoso.

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A veracidade dos fatos também chama a atenção, já que, segundo a reportagem do site Short List, o filme foi todo montado com a ajuda da filha de Zampa, a qual presenciou vários acontecimentos de camarote. A familiaridade do diretor Cédric Jimenez com sua cidade natal também é um fator que ajudou, já que ele cresceu nessas ruas e acompanhou as histórias na televisão.

Bang-bang à la francesa

A produção do filme “A Conexão Francesa” é algo que chama a atenção. O filme é livre de firulas, indo sempre direto ao ponto. A primeira cena já mostra o ritmo, com um tiroteio em plena luz do dia e uma violência retratada de perto, o que incrementa a realidade pretendida e choca a plateia com as ações dos criminosos.

A direção acerta nesse ponto, pois a câmera sempre está ali para mostrar a brutalidade de perto. Outra coisa importante é que não tem nada de quadros estáticos aqui, já que o diretor acompanha os personagens para todo lado. A movimentação ajuda a passar a sensação de tensão e, ao contrário do que vemos em outros títulos de ação, não impede de entender toda a circulação nos campos de combate.

A violência retratada de perto incrementa a realidade e choca a plateia com as ações dos criminosos

Uma característica importante é que o filme não fica de floreios com efeitos especiais, então não espere câmeras lentas ou balas voando perto das lentes. Isso é perfeitamente cabível para um filme datado, já que seria difícil conciliar a modernidade desses recursos com a época da trama. Aliás, falando nisso, a construção de cenários e cenas é caprichada, de modo que somos transportados para o passado com detalhes.

A fotografia colabora ao colocar o espectador no meio da trama. As belas paisagens da França garantem um charme para os confrontos entre a lei e o crime. Já os ambientes internos são adequados tanto para retratar residências da época quanto para enaltecer o luxo de Zampa – em locais que destoam de forma gritante do restante.

O trabalho na trilha, na edição e na mixagem de som se mostra coerente com a proposta, ao colocar  canções francesas da época para embalar as cenas e sons realistas que casam com as imagens. O resultado é excelente, com barulhos de tiros convincentes e uma combinação ótima entre diálogos e música de fundo. Destaque para “This Bitter Earth”, que entrega uma sequência emocionante.

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No meio de tudo isso, temos um elenco competente que entrega ótima performance. Os holofotes ficam, claro, sobre Dujardin, que se mostra eloquente e articulado ao encarar toda a bandidagem, a ponto de colocar sua família em risco, e Lellouche, ator que transpassa medo e respeito para a telona. O restante do elenco complementa bem, em diálogos persuasivos e que agregam à história.

O conjunto da obra é excelente, de modo que somos convencidos dos perigos da época e do heroísmo de um homem que teve a coragem de encarar o rei do crime de Marselha. “A Conexão Francesa” é um filme dramático, intenso e elegante. Uma excelente pedida para conhecer mais uma obra francesa e um pouco de história.

Fonte das imagens: Divulgação/Imovision

A Conexão Francesa

Exibido no festival de Toronto, levou 1,5 milhão de franceses aos cinemas.

Diretor: Cédric Jimenez

Duração: 135 min

Estreia: 24 / Mar / 2016

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