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Crítica do filme A Cura

Ironicamente, um filme doente

por
Mike Ale

21 de Fevereiro de 2017
Fonte da imagem: Divulgação/20th Century Studios

Do versátil diretor Gore Verbinski (“O Chamado”, “Piratas do Caribe”, “Rango” e, um dos meus filmes preferidos da sessão da tarde, “Um Ratinho Encrenqueiro”) surge: “A Cura”. Um thriller que mistura terror, ação, mistério, gore, fantasia e enguias, claro.

O filme começa com o jovem e bem sucedido Lockhart (Dane DeHaan) indo para uma clínica na Suíça atrás de um figurão de sua empresa por motivos corporativos. Acontece que a clínica é cheia de estranhezas e nada ortodoxa, com pessoas estranhas internadas e pessoas mais estranhas ainda no corpo clínico local.

O (im)paciente Lockhart, desconfortável com o lugar, só quer cumprir sua simples missão e voltar para casa. Mas um acidente acontece… E ele se vê forçado a ficar na clínica… E é aí que as coisas começam a ficar estranhas (Música de suspense se intensifica). 

A beleza da depressão com uma pitada de climão

Bom, antes de mais nada, vamos destacar um ponto muito positivo do filme: sua estética. A beleza das imagens é algo que gera uma estranha satisfação em quase todas as cenas. Todos os elementos em cena são muito bem pincelados, como se fossem feitas por um Wes Anderson em depressão.

A paleta da fotografia é toda desenhada para dar um ar terrivelmente melancólico e doente… Afinal, nada é mais terrível do que uma parede de hospital velho, não é mesmo? Dá para sentir bem a sensação que o filme quer te passar. Isso ele faz com maestria. 

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Outro ponto positivo é a atmosfera de suspense criada já no início. A vila próxima à clínica é bisonha e cheia daqueles aldeões introvertidos que só ficam espiando as coisas pelos cantos da janela, a clínica em sí é um castelão bem à la Frankenstein.

Os pacientes do hospital, logo de cara, se mostram meio abobados e estranhamente hospitaleiros e rola toda uma conversa sobre o passado do castelo e sobre um terrível acidente que assombra o lugar há mais de 200 anos (Música de terror se intensifica). 

E se tem uma palavra para definir esse filme é: aflição. O filme te deixa aflito o tempo todo! Seja por cenas claustrofóbicas e silenciosas, seja por cenas barulhentas e vertiginosas ou até mesmo o ranger da muleta do personagem principal. Ou seja, é difícil ficar indiferente em certos momentos e se você tem nervos fracos (como eu) vai tapar os olhos em algumas cenas mais hardcores.

Amarras muito frouxas

Quando disse, lá no título, que A Cura é doente, a doença está no roteiro que é muito irregular e cheio de amarras e remendos, como se o filme lutasse para existir e se manter de pé. O esforço do roteirista Justin Haythe em manter tudo coeso é visível, e isso é algo ruim. Claramente ele tinha um ótimo final na cabeça, mas teve que preencher o restante do filme com idas e vindas e sub-tramas, muitas vezes descartáveis, para conseguir chegar ao final que tanto queria.

Outra falha é que ele não te deixa esquecer nunca dos elementos que são (ou vão ser) importantes para o desfecho da história. O que deixa tudo muito óbvio. O filme tem umas safadezas de nuances muito indiscretas. Como se um rinoceronte tivesse dançando balé em uma loja de porcelana. Mas aí o rinoceronte te olha, dá uma piscadela e fala “xiu, não conte pra ninguém”. 

O paciente diz: “Doutor, dói quando eu escrevo esse roteiro”.

O médico responde: “Bom, então pare de escrever!”

Personagens agem de acordo com a necessidade de solucionar problemas do roteiro defeituoso, o que os deixa sem força e com um clássico problema do cinema moderno: se tornam incrivelmente intocáveis e inabaláveis. Se o personagem leva uma surra, tudo bem. Logo ele está pronto para tomar outra. Se o personagem precisa dar uma surra em alguém. Tudo bem, ele vai lá e dá uma surra em quem quer que seja. Se o personagem precisa de algo para solucionar algo, essa coisa aparece para ele do nada. 

E o terceiro ato é o mais problemático de todos. É nele que todas as respostas são jogadas e reveladas, e você já sabia de todas ou quase todas elas… Aí você fica tipo “A lá, eu sabia disso aí já!”, mas você se sente meio burro mesmo assim, ou você se sente o Sherlock Holmes do cinema — das duas uma. O problema é que eles entregam o final no decorrer das insistências do filme.

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O que faltou foi sutileza. Dar ao espectador um pouco de crédito para degustar o mistério e desenvolver suas próprias teorias no decorrer da trama. Faltou um pouco de maturidade e coragem para que os personagens pudessem trilhar uma linha narrativa mais linear, sem tantos solavancos e anticlímax. Ou isso ou eu estou sendo muito chato.

Deus, como é longo…

Com o perdão do trocadilho, o filme se passa em uma clínica, mas você é que vai ter que ser paciente. A primeira hora é tranquila. O filme vai te levando para lugares muito curiosos e você se entrega.

Acontece que ele começa a abusar da sua paciência... E ele nunca mais para de fazer isso. São 146 longos minutos e o terceiro ato não ajuda muito. Esse talvez seja o maior erro do filme. Deixar que as pessoas cansadas e fazer elas parem de se perguntar “como vai acabar?” para se perguntar “quando vai acabar!?”

“Doutor, isso significa que o filme é bom e eu é que sou burro? - Significa.”

É, calma. O filme entrega temas muito complexos, analogias e críticas à vida pós-moderna. O que deixa muito aberto para impressões e interpretações individuais acerca da trama, dos personagens e dos conflitos.

E tem vários momentos que você se questiona se o que está acontecendo está realmente acontecendo ou se é tudo uma ilusão ou se é tudo fruto da cabeça doente do personagem (o que é algo muito legal, pois ele está mesmo doente? Ele está são? Quem pode afirmar que está são? Estamos presos em um mundo que não criamos?).

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Então, não é um filme fácil de ler. Ele leva um certo tempo e exige uma certa dedicação (e um pouco de força de vontade). Resumindo: É um filme fácil de odiar. Mas que merece uma chance para ser assistido e analisado para você poder tirar as suas próprias conclusões. Prove pro seu amiguinho que ele está errado. Mas sem brigas. 

Enfim, não recomendo A Cura para hipocondríacos, claustrofóbicos, pessoas com medo de dentistas e no geral, pessoas que se entediam fácil. Agora, se você curte filmes bizarros que brincam com a psique e, em certos momentos, exageram no gore e nas cenas de tortura, o filme foi feito pra você.

E se no caso persistirem esses sintomas, o médico deverá ser consultado. 

Fonte das imagens: Divulgação/20th Century Studios

A Cura (2017)

Toda cura milagrosa pode ser uma ilusão

Diretor: Gore Verbinski
Duração: 146 min
Estreia: 16 / Fev / 2017

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Mike Ale

Leitor de gibis e fã do Rick Moranis

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