Crítica do filme Agnus Dei

Uma história que finalmente foi contada

por
Lu Belin

25 de Julho de 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Mares Filmes
Tema 🌞 🌚
Tempo 🕐 7 min

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Prepare-se, vamos falar sobre coisa séria. Então se você está pensando em ver “Agnus Dei” achando que é um filme tranquilo, dê meia volta e vá comprar seu ingresso para “As Caça-Fantasmas”. Mas aviso desde já que é um filme belíssimo, sensível e com uma temática que urge em ser discutida.

Com o título original de “Les Innocentes” [Os Inocentes], o longa dirigido por Anne Fontaine (Coco Antes de Chanel) chega ao Brasil como “Agnus Dei”, latim para “Cordeiro de Deus” – uma expressão religiosa que faz referência ao sacrifício divino de morrer pelos filhos humanos.

Filmado na Polônia e na França, o filme se passa um vilarejo polonês em dezembro de 1945 e mostra a jovem médica francesa Mathilde Beaulieu (Lou de Laâge) durante uma missão da Cruz Vermelha de tratar sobreviventes franceses antes de serem repatriados.

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Durante um dia de trabalho, ela encontra uma freira polonesa em busca de ajuda e concorda em ir ao convento onde trinta freiras Beneditinas vivem afastadas do mundo exterior.

Um adendo cabível aqui: para quem não sabe, esta irmandade é formada por freiras da Ordem de São Bento, que entre os votos de castidade e pobreza, também se comprometem com a clausura, ou seja, salvo exceções determinadas pela própria igreja, elas normalmente não saíam de dentro do ambiente dos conventos. Daí a surpresa em encontrar uma freira beneditina no espaço de atendimento da Cruz Vermelha.

Bem, sabendo disso, sigamos. Já no convento, Mathilde descobre que a emergência que ela precisa atender é nada mais, nadamenos que um parto. E que não apenas uma das irmãs está grávida, mas sete delas carregam bebês. Conforme a trama se desenrola, Matilde descobre que esses bebês foram gerados por violência sexual cometida por soldados russos durante o período da Segunda Guerra Mundial.

Um sacrifício forçado

“Nossa, que absurdo, que assunto delicado pra se tratar num filme”. Delicadíssimo, se estupro, em si, já é um tema polêmico, estupro de freiras então é algo inimaginável. Mas veja bem, “Agnus Dei” é inspirado em fatos reais. Ou seja, mais do que falar sobre isso, mulheres reais viveram isso. E durante muito tempo a história negou.

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Admitamos, guerra e violência sexual são duas coisas que em geral andam juntas, desde os primórdios da humanidade. Em muitas batalhas, mulheres foram o incentivo pré-batalha e o prêmio dos vencedores depois das mesmas. Estuprar as mães, esposas e filhas dos opositores sempre foi uma forma de humilhar os homens do outro lado. Não importa o período, é um risco ao qual as mulheres sempre são expostas. A novidade aqui é invadir um lugar sacro e maculá-lo com violência – e violência do pior tipo.

E “Agnus Dei” consegue contar a história de apenas um dos conventos em que isso aconteceu de uma forma sensível e muito realista, sem de fato mostrar as violências acontecendo, sem perpetuar a humilhação, mas mostrar apenas a dor que fica entre as mulheres depois que ela passa.

Conflitos

O vazio, a impotência, a sensação de injustiça são apenas algumas das feridas cutucadas neste longa-metragem. O roteiro de “Agnus Dei” vai mais longe e atira direto no coração da igreja, escancarando alguns conflitos gerados pela fé e pela falta de questionamento a alguns princípios propagados e defendidos pela igreja.

Somos levados a repensar aspectos como a culpabilização das vítimas de violência sexual, a vergonha e o julgamento a que são expostas, e revitimização que acontece quando mulheres que sofreram violência precisam encarar seus agressores e a sociedade.

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E se você pensa que tudo isso ficou pra trás quando derrubaram o Muro de Berlin, vou apenas lembrá-los daquela polêmica pesquisa divulgada em 2014 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que dizia que 58% dos brasileiros acreditam que a mulher que sofre violência sexual de alguma forma pediu por isso e também tem uma parcela de culpa.

Prova de que esse silenciamento e culpabilização se prolongaram e ainda acontecem é que foi só no final da década de 80 que o silêncio foi se quebrando e as primeiras pesquisadoras começaram a quebrar o sigilo e falar um pouco mais sobre isso.

Uma história bem contada

Convenhamos, essa é uma história que merece ser bem contada. Precisamos saber mais sobre o drama vivido por essas mulheres e sobre a coragem de outras como a médica Madeleine Jeanne Marie Pauliac, que inspirou a personagem Mathilde Beaulieu, bem como a das freiras que romperam com o silêncio.

A fascinação da diretora (e uma das roteiristas) Anne Fontaine pelo tema levou a cineasta e investir um bom tempo em pesquisa e em mergulhar fundo no assunto. E ela acertou muito.

“Agnus Dei” é belíssimo e muito tocante. Desperta todos aqueles sentimentos que ouvir uma história de estupro real consegue nos trazer. Para tanto, os créditos vão especialmente para dois aspectos muito bem coordenados no longa: a trilha sonora linda e emocionante e a fotografia do filme.

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Embalados por alguns sons que transitam entre o sacro e o silêncio, somos conduzidos pelas cores sombrias, escuras e sem cor da fé. A fotografia do filme realmente transmite todo o cinza que cerca esse período da história da humanidade.

Conjunto que é coroado pelas boas atuações de um elenco majoritariamente feminino – com exceção de coadjuvantes que são bem secundários e um personagem bastante desnecessário, que parece ter sido inserido na trama para oferecer um alívio cômico, mas que no fim só ficou ali perdido como um peso inconveniente (quem nunca teve um desses na vida, né, amores?).

Com exceção desse pequeno desvio – e do nome do filme, que talvez não tenha sido o melhor caso de tradução de título da história – “Agnus Dei” é um filme que precisa ser visto. É uma história que merecia ser contada e que passou muito tempo nos porões dos arquivos da igreja.

*Atualização: Originalmente, falávamos na crítica que os bebês das irmãs beneditinas haviam sido gerados por violência sexual cometida por soldados russos e alemães. Corrigimos o conteúdo, uma vez que, embora existam relatos históricos de estupros cometidos pelos soldados alemães durante a Segunda Guerra Mundial, o filme "Agnus Dei" não menciona o exército desta nacionalidade, conforme apontou o leitor André, em seu comentário.

 Conforme a trama se desenrola, Matilde descobre que esses bebês foram gerados por violência sexual cometida por soldados russos e alemães durante o período da Segunda Guerra Mundial.

Fonte das imagens: Divulgação/Mares Filmes

Agnus Dei

Um comovente relato de um triste episódio da história

Diretor: Anne Fontaine
Duração: 100 min
Estreia: 28 / jul / 2016
Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.