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Crítica do filme Animais Noturnos

O lado obscuro do amor

por
Fábio Jordão

04 de Janeiro de 2017
Fonte da imagem: Divulgação/Universal Pictures
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Ah, o amor... Esse sentimento tão confuso, desejado, criticado. Ele já foi pauta de inúmeros filmes. Alguns apenas contam uma história banal, outros tentam retratar um lado mais real.

E em meio a uma enxurrada de títulos permeados por clichês, eis que surge a nova obra de Tom Ford. “Animais Noturnos” é um filme que nos mostra a face mais cruel do amor, com tom de crueldade, de vingança.

Nesta história acompanhamos um curto trecho da vida de Susan Morrow (Amy Adams), uma negociante de arte que vive em Los Angeles com seu marido Hutton Morrow (Armie Hammer).

Exuberante, esta mulher leva uma vida privilegiada, mas incompleta em vários aspectos. Contudo, sua rotina muda quando ela recebe um pacote inesperado: um livro escrito por seu ex-marido, Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), e dedicado a ela.

O que teria de tão desolador nesta publicação? Talvez, as páginas escritas por Edward sejam mais do que apenas palavras num papel. Num tom realista, Tom Ford traduz sentimentos em sequências agoniantes, recheadas de tensão e questionamentos.

É complicado...

Eu pensei um bocado para digerir este filme. Não que eu não pudesse só chegar aqui e falar de aspectos técnicos ou de como esse tal de Tom Ford é um cara que sabe o que faz. Só que o buraco é mais em baixo. É uma obra complexa, cheia de pormenores, que faz a gente refletir e fazer comparativos com nossas vidas.

Fique tranquilo, não vou comentar nada sobre a trama do filme, ao menos nada além do que tem na sinopse. Este longa-metragem deve ser apreciado totalmente no cinema, por isso vou apenas discorrer um tanto sobre o tema, que me parece o ponto principal da obra: o amor. Talvez soe um tanto filosófico, mas esse discurso me parece necessário.

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Bom, primeiramente, vamos combinar que o amor faz parte do ser humano ou ao menos é o que somos levados a acreditar — e não por acaso temos tantas obras (em diversos universos) falando sobre isso. Dedicamos muitos momentos, esforços e pensamentos para encontrar o grande amor de nossas vidas.

Nem sempre dá certo. Às vezes, ficamos desiludidos. Há diferentes tipos, intensidades, correspondências e circunstâncias nas relações. Nem sempre é como nos filmes, motivo pelo qual este ganha atenção especial, já que foge do clichê e tenta mostrar que, em alguns casos, o amor pode ser tão complexo como num filme — ou vice-versa.

Tirando a parte floreada, que é exagerada em filmes românticos, a verdade é que nem todo amor é para sempre. Nem todo amor dá certo, inclusive nem todo amor é amor. Às vezes, por um impulso incontrolável nos forçamos a acreditar que aquilo é o que queremos, mas aí, de repente, dá errado. Repensamos tudo e vemos de outros ângulos.

Em situações ambíguas, onde as dúvidas sobressaem, falamos mais do que devemos, pensamos pouco, agimos por impulso. E o futuro fica mais complicado a cada nova tentativa. Somos moldados com base nas falhas, nas derrotas, nas perdas — e também em alguns acertos.

Tom Ford assume a árdua missão de falar dos lados mais obscuros do amor, misturando tensão e romance numa trama muito complexa

Todas essas questões passam por nossas cabeças a cada nova relação, seja ela romântica ou não. E cada pessoa absorve tudo de forma diferente. E para cada nova tentativa, muitas das vezes há um término. Isso mexe com as pessoas e de formas até um tanto inesperadas. Só que lidar com tudo isso não é fácil.

O que tudo isso tem a ver com o filme? Muita coisa. E Tom Ford tenta retratar justamente todo esse caos que habita em torno do amor. Não é uma tarefa fácil, mas há aqui uma boa receita para mostrar esse lado sombrio da coisa.

Animais Noturnos” é uma obra que consegue transitar entre o suspense e o romance, pendendo até mesmo para o terror, mas um terror que existe dentro de nós mesmos. Ainda que seja uma ficção, você vai se indagar sobre questões de personalidade, confiança, fidelidade, paixão, impulso, decepção, crueldade, vingança e um pouco mais.

Intenso do começo ao fim

Poucos filmes — além da série 007 — se dão ao luxo de começar com uma abertura em grande estilo. Tom Ford, no entanto, faz questão de ser extravagante e começa derrubando os forninhos aqui. A primeira sequência do filme é recheada de ousadia e mostra que o filme vem para chocar e mostrar o que ninguém mostra.

O roteiro é bastante propício nesse sentido, uma vez que desenvolve situações bastante tensas. É interessante que o detalhamento nas sequências é algo que ajuda muito na construção da obra. Em vez de apenas lidar de forma superficial com cada situação, Tom Ford usa diálogos longos, vários ângulos, closes que enquadram as reações das pessoas.

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É claro que muito do sucesso se dá pelas excelentes atuações. Jake Gyllenhaal dá profundidade a seu personagem ao enfrentar vários dramas. Há longas tomadas que focam especificamente no rosto do ator, em que vemos o desespero, a tristeza, a angústia e a tensão tomando conta da pessoa. Fica ainda mais complicado ao pensarmos o que faríamos no lugar dele.

Amy Adams também se supera ao mostrar o vazio, o arrependimento, as dúvidas de uma personagem que se questiona sobre sua vida. Apesar de não ser uma protagonista em cenas mais tensas, a atriz se mostra muito competente ao transpassar alguns dramas apenas com o olhar e os momentos de reflexão.

E como não odiar a personalidade (e amar a atuação) de Aaron Taylor-Johnson? O sujeito encarna as nuances do desprezo, da ironia e do deboche. Com um toque incrível de realismo, Johnson se mostra mais do que capaz para dar um contraponto importante à trama. Michael Shannon também não deixa por menos e leva todo o tom de "justiça" para a telona. Com uma transformação radical, inclusive corporal, Shannon agrega muito ao elenco. É um combo perfeito de atores que criam uma teia de acontecimentos coerente e convincente.

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Outro nome que se sobressai é Abel Korzeniowski. Ele não está frente às câmeras, mas se faz presente em muitos momentos com sua majestosa trilha sonora. Os tons distorcidos de violino, as notas sequenciais que vão crescendo aos poucos e ampliando ainda mais a tensão, bem como a repetição de alguns elementos causam incômodo constante na plateia.

Por outro lado, o filme se equilibra também nos momentos de silêncio. Há várias cenas em que a música para e os atores ganham voz e vez para entregar situações ainda mais tensas e repletas de nervosismo. É impossível olhar o que está na tela e não pensar uma dezena de coisas, sobre como seria essa história com qualquer um de nós como protagonista.

A obra se completa com uma harmonia perfeita na fotografia e na edição. Com cenas em ambientes belíssimos, mas um tanto deprimentes devido ao tom sépia e o clima árido, o título deixa o espectador apreensivo e até um tanto deprimido com todas as situações. Com figurinos caprichados e montagem impecável, esta produção agrada em todos os pontos.

No fim, há muito a refletir e aplaudir. “Animais Noturnos” é simplesmente imperdível!

Fonte das imagens: Divulgação/Universal Pictures

Animais Noturnos

O amor pode ser cruel, vingativo, violento...

Diretor: Tom Ford
Duração: 115 min
Estreia: 29 / Dez / 2016

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