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Crítica do filme Aquarius

Tão bagunçado quanto a política brasileira

Lu Belin

por
Lu Belin

Sexta, 09 Setembro 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Vitrine Filmes
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Desde que foi anunciado, "Aquarius" vem nos intrigando. Que filme nacional é esse que, mesmo sem ser uma comédia pastelão, vem lotando salas no Brasil todo e ganhando destaque em eventos internacionais de cinema? Qual é a história deste produto cultural que se tornou uma verdadeira bandeira da resistência política em um momento importantíssimo da história do país?

Finalmente fomos conferir essa novidade do cinema nacional. Confesso, não é fácil deixar um tantinho de lado os posicionamentos políticos e pensar em "Aquarius" apenas como um filme, sem levar em consideração todo o contexto polêmico que o cerca. Tentarei. Vem comigo?

Com direção e roteiro de Kleber Mendonça Filho, o longa-metragem conta a história da escritora e jornalista Clara (Sônia Braga), moradora do famigerado condomínio "Aquarius", na praia da Boa Viagem, em Recife. Contextualização necessária: essa praia se tornou um reduto da classe alta e média-alta na capital pernambucana, que vem criando um histórico de despejo de famílias inteiras, justificado pela "expansão", crescimento e remodelagem da cidade.

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Clara vive neste apartamento desde a década de 70, ali criou seus filhos, escreveu seus livros, lutou contra uma doença, viu a vida passar. Acontece que, quando tudo está encaminhado para uma aposentadoria tranquila, chega o caminhão do progresso atropelando tudo: a construtora Bonfim quer a todo custo comprar o apartamento de Clara, último remanescente habitado no prédio, para construir mais um condomínio de alto padrão.

Conflitos, conflitos por todos os lados

Apesar de se vender como um filme sobre a situação de Clara e seu condomínio e sobre as relações de poder que se mostram quando uma grande incorporadora vem com tudo pra cima de uma moradora, "Aquarius" é sobre muito mais do que isso.

O filme é um verdadeiro retrato de uma mulher de 60 anos e seus conflitos. Conflitos de classe, conflitos de geração, conflitos internos, conflitos femininos e feministas, conflitos familiares.

A disputa para continuar no apartamento que lhe é tão caro é, na verdade, o pano de fundo para que conheçamos as reflexões de Clara sobre a superação de sua doença, seu envelhecimento e redescobertas emocionais e sexuais, sua relação com a família e os filhos.

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Por conta disso, em termos de estrutura, o ponto chave do filme é também seu Calcanhar de Aquiles: o roteiro muito recheado e ambicioso é bem intencionado, pois todas as questões que o roteirista tenta trabalhar são importantíssimas. No entanto, por conta disso o filme acaba ficando denso demais e um tanto cansativo – e não apenas por ser muito longo.

"Aquarius" é um verdadeiro retrato de uma mulher de 60 anos e seus conflitos

São inseridos diversos personagens dispensáveis e várias cenas compridas que não acrescentam muito à história, que parecem ter sido inseridas para explicar certos pormenores da história, e isso não contribui de uma forma muito positiva. O filme poderia encolher uma meia hora sem perder conteúdo, apenas inserindo respostas para essas perguntas em outros contextos.

Passado e presente

Dividido em três atos, “Aquarius” começa no ano de 1979 e tem seus primeiros minutos contatos em cenas da época que são esteticamente muito bem feitas. Extremamente cuidadosa com o figurino e ambientação histórica, a direção é atenciosa com as roupas, calçados, detalhes de decoração. Tudo é muito caprichado na composição, apesar de algumas falhas de montagem que aparecem nas cenas que se passam atualmente.

Já a trilha sonora do filme é um verdadeiro deleite – um plus se você for apreciador de sons da década de 70, tanto de MPB quanto de clássicos internacionais. Durante toda a duração do longa-metragem, a música tem uma presença quase que materializada, já que a protagonista também tem uma forte relação com o universo musical.

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As canções ajudam a marcar o temo do filme, embalam algumas das cenas e até mesmo contribuem para a solução de determinados conflitos da história. Assim, a trilha sonora funciona quase como um personagem coadjuvante, muito mais do que um mero recurso técnico da produção.

Menção honrosa para Sonia Braga, que faz um trabalho maravilhoso. Enquanto o restante do elenco passa com atuações discretas, a atriz chama a atenção e diva completamente no papel de Clara. Desfila leve e solta como se Clara fosse ela em todas as cenas, desde as mais tranquilas em que dá um despretensioso mergulho na praia, até as mais intensas ou mais quentes.

Muitos retratos

O trabalho de Kléber Mendonça Filho faz um belo retrato de uma cidade dividida, da desigualdade social que tão fortemente marca a cidade de Recife – e o Brasil, por extensão. Mas não apenas isso, "Aquarius" faz um primoroso retrato da vida de uma mulher de meia idade, suas descobertas (e redescobertas), as dúvidas, a soltura de algumas amaRras, o surgimento de outras.

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O problema é que, para resolver tudo isso, Kléber precisaria de muito mais tempo e muito mais espaço. A história da Clara, observada por todos estes ângulos que ele aborda no filme, bem poderia ser contada em uma série ou minissérie. Relatada em um filme, se tornam quase duas horas e meia que passam arrastadas graças às cenas longas de diálogos e reflexões, algumas bastante cansativas.

“Aquarius” é um filme importante, que aborda uma série de questões que precisam ser urgentemente discutidas. Não é à toa que vem levando aos cinemas um público acima do normal para produções nacionais.

Um grande auê por um produto que não entrega tudo aquilo que promete

É uma pena que seja a chamada “pregação para convertidos”, uma vez que a maioria das salas são lotadas por quem já sabe do que o filme se trata – tanto que não são poucos os relatos de sessões encerradas por sonoros gritos de “Fora Temer”.

Para atingir o grande público, talvez seria uma boa ideia enxugar um pouco a história, cortar alguns personagens e algumas cenas, encurtar outras e priorizar algumas das discussões. Se vale a pena prestigiar o longa-metragem? Sem dúvida. Se o público brasileiro já financia tanta produção fraca, por que não pagar pra conhecer uma história mais aprofundada?

No entanto, temos aqui um caso de um grande auê por um produto que não entrega tudo aquilo que promete. "Aquarius" é mais bandeira política do que uma grande obra de arte. Não é genial, é apenas um filme bem intencionado, mas que carece de alguns ajustes.

Fonte das imagens: Divulgação/Vitrine Filmes

Aquarius

Conflitos diversos estampados em um drama residencial

Diretor: Kleber Mendonça Filho

Duração: 142 min

Estreia: 2 / Set / 2016

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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