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Crítica do filme As Sufragistas

As mulheres que mudaram nossas vidas

Lu Belin

por
Lu Belin

Sexta, 26 Fevereiro 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Universal Pictures
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Responda rápido: quem foram as responsáveis pela implantação do voto feminino no Brasil? A menos que você seja formado em História ou seja uma feminista militante, duvido que você saiba responder a essa pergunta sem procurar no Google.

A história insiste em ignorar ou, ao menos, ofuscar as mulheres que a construíram. É por isso que filmes como “As Sufragistas” são tão importantes: para nos lembrar de quem foram essas mulheres incríveis que contribuíram tanto para o alcance dos direitos que temos hoje. 

Produzido sob a direção de Sarah Gavron e com roteiro de Abi Morgan, o longa retrata os bastidores do movimento sufragista no Reino Unido a partir da história de cinco mulheres que tiveram papeis fundamentais na militância – três delas personagens ficcionais inspirados em mulheres que participaram do movimento e duas delas reais.

As Sufragistas

A protagonista é Maud Watts (Carey Mulligan), uma trabalhadora de 24 anos que praticamente nasceu dentro da lavanderia na qual atua até que os fatos do filme comecem. É nessa mesma lavanderia que ela conhece Violet Miller (Anne Marie Duff), sua principal influência sufragista, a qual a leva até Edith Ellyn (Helena Bonham Carter, a odiada Bellatrix Lestrange, de Harry Potter).

Já inserida no movimento, ela tem acesso a duas personagens que de fato existiram: Emily Wilding Davison (interpretada por Natalie Press) e Emmeline Pankhurst (participação da Meryl Streep), nomes fundamentais para a conquista do voto feminino no Reino Unido.

Elenco de peso

Pensando em qualidade técnica e produção, o ponto alto deste longa-metragem britânico é o elenco. Com tantos nomes conhecidos e admirados internacionalmente, é até difícil de acreditar que o filme tenha ficado em cartaz por tão pouco tempo e em tão poucos cinemas por aqui. 

E nem tanto pela Carrey Mulligan, que vai muito bem como protagonista, mas não é tão conhecida. Pensando mais em Helena Bonham Carter e Meryl Streep, mesmo, que são nomes que normalmente chamam bastante a atenção. 

As Sufragistas

O ponto é que todas elas, além de Brendan Gleeson (o Olho Tonto, da saga Harry Potter), no papel do Inspetor Arthur Steed, fazem um ótimo trabalho ao dar vida para as sufragistas inglesas. 

Embora não seja excepcional neste sentido, o filme tem uma boa caracterização e figurino, é bem ambientado e retrata de maneira satisfatória os espaços onde a história se desenvolve. Não são, no entanto, os aspectos técnicos que mais se destacam nessa produção. 

O roteiro é o que mais faz “As Sufragistas” valer a pena, especialmente para quem se interessa pelas causas feministas. Abi Morgan – que, por sinal, já tem no currículo trabalhos que focam em mulheres fortes, como é o caso de "A Dama de Ferro – realiza um belo trabalho de adaptação da história real das mulheres que lutaram por direitos políticos.

“We don’t want to be law breakers, we want to be law makers”

É até um pouco estranho pensar que os fatos retratados em "As Sufragistas" aconteceram nos primeiros anos do século XX. Imaginem: há pouco mais de cem anos, as mulheres não podiam opinar politicamente. Parece algo de outro mundo, né? Pensar, por exemplo, que as mulheres que iam às ruas para lutar por direitos eram consideradas arruaceiras e dramáticas e que ser sufragistas era quase um xingamento. Soa familiar, isso, feministas?

Você pode inclusive clicar aqui e conhecer um pouco mais sobre as histórias das mulheres que inspiraram as personagens do filme "As Sufragistas" e as histórias reais de Emily Wilding Davison e Emmeline Pankhurst - que foram presas 9 e 13 vezes, respectivamente, por militarem pelo direito ao voto feminino.

O fato é que o voto feminino não caiu do céu e “As Sufragistas” consegue cativar o público ao relatar todo o sofrimento e sacrifício envolvido nessa conquista. Ao contar os fatos históricos a partir do ponto de vista de Maud Watts, o longa é quase um “sair da caverna” – um sentimento bastante familiar para tantas mulheres quando se deram conta pela primeira vez que podiam se chamar de feministas.

As Sufragistas

A protagonista não é uma militante. Maud é só uma mulher que está seguindo seu pesado caminho entre uma exaustiva jornada de trabalho de muitas horas por dia, a criação do filho e o cuidado com o marido, tudo isso ganhando uma miséria e sofrendo todo tipo de abuso e assédio até mesmo em seu ambiente de trabalho. 

Em um estalar de dedos, ela percebe o quanto tudo isso está errado e algo precisa ser feito a respeito. E quando isso acontece, não há mais como voltar atrás. Assim, contar a história a partir da perspectiva dela e não focar nas disputas legais para implementação do direito ao voto, em si, é uma das grandes sacadas de “As Sufragistas”. 

O filme sofreu diversas críticas por ignorar completamente a militância das sufragistas negras, como se a luta pelo direito ao voto feminino fosse protagonizada apenas por mulheres brancas. De fato, isso é completamente ignorado, nenhuma das mulheres do elenco é negra. Culpa da produção e também da sociedade de maneira geral, que ignora a participação negra em grande parte dos relatos históricos.  

As Sufragistas

Por falar em representação, chama a atenção também a relação com a questão de classe. Os abusos, a humilhação, o assédio, o combo jornada de trabalho enorme + salários baixos e muito injustos. Tudo isso era sofrido pelas mulheres da época – e ainda é até hoje, em tantos casos. Foram essas mulheres que foram às ruas para tentar mudar a realidade, muitas vezes sacrificando sua vida pessoal, suas famílias, e é justíssimo que elas sejam reconhecidas, não apenas de classe média e da nobreza.

Para quem é mulher e feminista, é difícil assistir a este filme e não experimentar uma sequência de sentimentos de revolta, tristeza, raiva e vontade de sair espalhando o feminismo por aí. Para quem não se envolve com o feminismo, também vale a pena ver o filme para entender um pouco mais sobre a importância que teve, e ainda tem, a luta feminista por direitos políticos para as mulheres. Por isso, "As Sufragistas" é altamente recomendado!

Fonte das imagens: Divulgação/Universal Pictures

As Sufragistas

Mães, filhas, rebeldes.

Diretor: Sarah Gavron

Duração: 106 min

Estreia: 24 / Dez / 2015

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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