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Crítica do filme Até o Último Homem

Esperança em tempos de guerra

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Terça, 07 de Fevereiro de 2017
Fonte da imagem: Divulgação/Diamond Films
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A história nos conta que a violência é intrínseca ao ser humano. Não são poucas as obras que nos mostram os extremos desse lado animalesco do homem, em que somente ações radicais podem levar a uma resolução dos problemas.

No passado, os conflitos se mostraram inevitáveis mediante a situações insolúveis, ainda mais quando pensamos nas disputas entre grandes nações. As duas grandes guerras do século XX são provas da dificuldade que temos em dar a volta por cima usando de outros métodos.

Sim, há muitos exemplos de pessoas que questionaram esse tipo situação, mas poucos exemplos são tão marcantes quanto o do soldado Desmond Doss (Andrew Garfield), que, ao longo de sua vida, se dedicou a combater a violência e buscou uma solução inusitada em plena Segunda Guerra Mundial.

No filme “Até o Último Homem”, acompanhamos a história de Desmond, desde suas molecagens e briguinhas com seu irmão, passando pela juventude um tanto ordinária cheia de encantos, até chegar à fase adulta, quando ele resolve enfrentar um cenário pouco convidativo e seguir uma carreira com a qual sempre sonhou: medicina.

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Sob a direção de Mel Gibson, você tem a chance de presenciar na telona a incrível adaptação de uma história real, contada pela escrita de Andrew Knight e Robert Schenkkan, sobre o homem que lutou – durante a Batalha de Okinawa – contra o tradicionalismo da guerra, que não precisou empunhar uma arma para salvar vidas e que, acima de tudo, levou esperança para seu povo.

Não por acaso, “Até o Último Homem” é um dos favoritos ao Oscar em várias categorias e há ótimas razões para tanto. Se você não viu ainda, corra para o cinema, antes que outras produções passem como tanques de guerra sobre as sessões disponíveis. Todavia, antes, pegue seu café e embarque nesta crítica para saber o porquê deste filme ser tão comentado.

Muito além do patriotismo

Quem vê os trailers e materiais de divulgação de “Até o Último Homem” logo pensa que este é mais um filme para idolatrar a soberania americana no cenário de guerra. No entanto, quem julga o filme pela capa comete um grave engano, uma vez que não temos aqui uma obra tradicional sobre o tema, mas um título que vai na contramão do tradicionalismo.

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Um roteiro baseado em fatos não pode fugir da história. Os Estados Unidos participaram da guerra, foram bem-sucedidos em vários combates e, no fim, apesar de um grande prejuízo para seus habitantes e para outros tantos seres humanos, levaram os prêmios para casa. O filme não tenta esconder nada e até enfatiza conceitos dos comandantes que levavam as ordens a ferro e fogo.

A grande aposta aqui é a exaltação do herói que justamente combateu os estereótipos de guerra. Existe um patriotismo nisso, claro, mas não se trata de um ritual velado, o que acaba surtindo como uma história muito mais interessante ao público. A vida de Desmond Doss é o ponto principal do filme, sendo contada em detalhes e de um jeito extrovertido.

O ambiente familiar de Desmond é importante para a trama, já que serve de pano de fundo para a formação de caráter do rapaz. Aqui, entra em cena a atuação competente de Hugo Weaving, que interpreta o pai do garoto e se mostra um homem de convicções que, por ter sido um soldado na guerra, influencia muito na criação dos filhos.

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O filme até segue um script bem linear, porém algumas cenas inicias já vão cavando o terreno para o pior. Ainda que a grande maioria do roteiro não coloque a plateia em meio aos bombardeios e conflitos pesados no Japão, o espectador já está ciente de que, a qualquer momento, será levado de volta para os campos de pesadelo de Desmond e de seus companheiros.

A abordagem, ainda que bastante superficial, do outro lado do combate – dos japoneses, no caso – também merece ser destacada, já que mostra o empenho da obra em retratar o lado humano (e sempre ignorado) desses acontecimentos históricos.

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Aliás, fica outra reflexão proposta no filme: os cidadãos, como o próprio Desmond, são incentivados desde pequenos a lutar na guerra por seu país, como se o sacrifício (de uma vida comum) por uma causa — que o indivíduo não concorda com o propósito — fosse algo nobre. Aí entra aquela questão sobre quem começou o conflito e até que ponto o cidadão deve estar na linha de frente para resolver a situação.

Ideais que valem a dedicação

Depois de duas horas e pouco sentado na cadeira, é impossível sair da sala sem ficar de queixo caído com várias coisas. Primeiro, temos a mensagem bastante diferente do filme, que contradiz o convencional de Hollywood. Depois, há todo um elenco competente, com nomes como Sam Worthington, Luke Bracey, Teresa Palmer e Vince Vaughn, liderados por Andrew Garfield em uma atuação fenomenal.

Sério! Sabe aquele papel tosco de Peter Parker (vulgo Homem-Aranha) de Garfield? Então, esqueça essa coisa sem graça e vá de mente aberta para conhecer um ator completamente diferente. A começar pelas cenas românticas na juventude, já dá para ter ideia de que não estamos tratando da mesma pessoa. O jovem está muito mais desenvolto e pronto para encarar novos desafios.

Conforme a história avança em direção ao cenário inóspito da guerra, vemos uma transformação radical de Andrew Garfield, que, tal qual faz com seus companheiros de combate, carrega o filme nas costas. Em cada frase, feição e movimento do cara, vemos um esforço sobrenatural para personificar um homem que fez a diferença e deu seu máximo pelo próximo.

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Em cenas que mereciam a medalha de honra, a trilha sonora de Rupert Gregson-Williams dá o tom adequado para a guerra. As músicas caprichadas no violino intensificam o drama para as perdas durante os combates, assim como retratam momentos de tensão com precisão. Sequências em câmera lenta são orquestradas com sons profundos e deixam a plateia impressionada com a força de vontade do protagonista.

A fotografia não tem nada de muito especial, pois a câmera se concentra em registrar cenas fechadas, muitas das quais são tomadas por soldados, outras tantas que apenas retratam áreas encobertas pela fumaça proveniente dos canhões. Há um cuidado na escolha dos ambientes e capricho na composição para dar realismo, mas não espere uma obra de tirar o fôlego nesse sentido.

Claro, não dá para menosprezar a parte de produção. Engana-se quem vê o filme pronto e acha que retratar a guerra é moleza. A composição de um cenário com destroços, armadilhas, esconderijos, cadáveres e soldados em linha de ação toma tempo considerável no planejamento; agora imagine montar tudo, instalar câmeras e rodar as cenas para evidenciar os grandes feitos dos protagonistas.

E não basta apenas gravar, juntar tudo e salvar o arquivo em MP4. A montagem de um filme desse naipe exige paciência, já que qualquer erro de sincronia entre os figurantes, mudança de câmera incoerente ou mesmo uma falha de um objeto em segundo plano pode estragar toda uma sequência. O making-of (acima) dá uma ideia do trabalho para rodar o filme.

Tem muita gente que simplesmente não gosta de filmes de guerra, às vezes, pelo simples motivo de não concordar com o tema ou não ver graça nas batalhas. Contudo, é preciso enfatizar que “Até o Último Homem” não é apenas um filme sobre isso. Ele vai além do retrato tradicional, mostra o lado mais humano da coisa e emociona pela convicção de alguém que foi na contramão da violência. Espetacular!

Fonte das imagens: Divulgação/Diamond Films

Até o Último Homem

"Por favor, Deus, me ajude a salvar mais um"

Diretor: Mel Gibson

Duração: 139 min

Estreia: 26 / Jan / 2017

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