Crítica do filme Capitão Fantástico

Na contramão da convenção

por
Fábio Jordão

30 de Janeiro de 2017
Fonte da imagem: Divulgação/Universal Pictures

Desde pequenos, somos ensinados a seguir um estilo de vida, que segue uma cartilha de parâmetros bem rígidos. Você pode até pensar que sua educação fugiu do tradicional, que você é o barroco, o diferente, o inusitado.

No fundo, as chances são grandes de que você faça parte do sistema capitalista, consuma produtos industrializados, tenha o sonho de ser uma pessoa de relevância – uma consequência de muita educação e trabalho árduo –, almeje formar uma família e por aí vai...

Nesse mundo convencionado pelo materialismo, é quase impossível encontrar exemplos de famílias que conseguem fugir dos padrões. Todavia, em “Capitão Fantástico”, temos a oportunidade de conhecer Ben (Viggo Mortensen), um pai dedicado que resolveu largar a cidade grande e morar numa floresta com sua família.

Em contato com a natureza, eles levam uma vida leve, caçam sua própria comida, praticam exercícios regularmente, aprendem ofícios, estudam diversos tópicos importantes do mundo moderno e se relacionam de forma harmônica. Parece o conto perfeito de como a vida fora do capitalismo deu certo, mas tudo muda quando uma tragédia atinge a família.

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Sem opção de continuar nesta rotina, eles são forçados a deixar seu paraíso e iniciar uma jornada pelo mundo exterior. É com base nessa situação inesperada que “Capitão Fantástico” revela um mundo que desafia os conceitos de paternidade e abre espaço para a discussão sobre os ensinamentos que Ben deu a seus filhos.

Todo o poder ao povo

Debates sobre materialismo, capitalismo, consumismo e tantos outros ismos são necessários, ainda mais numa sociedade em que seguimos um plano tão linear que não dá espaço para visões alternativas. É por isso que “Capitão Fantástico” chega como uma obra que vai muito além de uma história sobre um pai que tentou ser diferentão.

É claro que o brilhante Viggo Mortensen ou demais envolvidos na produção não viraram ermitões após fazer o filme — tampouco deixaram de comprar suas roupas de luxo, se alimentar nos melhores lugares ou jogaram seus iPhones no lixo. No entanto, os envolvidos neste longa-metragem ganharam muitas alegrias ao ver o impacto desta obra nos cinemas.

O principal objetivo aqui não era pregar a maravilha que é a vida na floresta e demonstrar que o Menino Mogli — que só usava somente o necessário, já que o extraordinário era demais — seria o mais feliz dos humanos. A ideia é mostrar que há alternativa às estruturas que seguimos tão fielmente, que é possível ser alguém excepcional seguindo regras incomuns ou talvez até não seguindo regra alguma.

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Quem vê as loucuras do Capitão Fantástico e de seus pupilos logo pensa que esse tipo de “educação” só pode dar coisa errada, uma vez que a segurança, a integridade, a saúde e outros tantos fundamentos da vida são colocados em risco. Todavia, há vários contrapontos apresentados que acabam justificando essa maluquice inventada por Ben e sua esposa.

Em um mundo em que supostamente somos livres, o casal tenta seguir um estilo de vida pouco convencional, mas muito mais focado no que é realmente importante: educação. Sim, o roteiro de Matt Ross trata essencialmente disso, de como uma relação mais próxima com os filhos pode levar a uma vida plena, com muito mais sabedoria e livre de tabus.

Curiosamente, um filme que poderia ser um drama chato, focado nas reflexões, acaba sendo uma aventura bastante animada e pontuada em muitos momentos cómicos. Entretanto, conforme os pequeninos são ensinados através de várias questões humanas, corriqueiras e até da formação do indivíduo, o público toma alguns tapas na cara para rever alguns conceitos.

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Calma, “Capitão Fantástico” não é um filme ditatorial, que pretende contar uma verdade escondida da humanidade e apenas apontar os defeitos do sistema. Paralelamente às broncas, a trama se encarrega de mostrar como fugir do tradicionalismo pode ser um bocado complicado para adultos e crianças.

É nesse equilíbrio da discussão, numa trama bastante ponderada, que a obra ganha pontos adicionais, ao provar que há muito o que rever, mas que fugir da sociedade não é a solução. Não só isso, o filme faz questão de mostrar que a regra não é única, já que somos humanos e temos parâmetros distintos, ou seja, o respeito às ações de cada um deve ser preservado.

Resistir até o fim

Uma obra que trata de educação para a vida tende a ser complicada, ainda mais neste caso, que lida com assuntos que vão desde a religião, passando por política, até chegar em questões do dia a dia — como sexo, cultura e saúde. Contudo, apesar dessa carga, a trama de “Capitão Fantástico” é bastante leve, pois mescla os tópicos de forma inteligente e bem executada.

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A escolha dos locais para gravações foi muito propícia, com espaço adequado para criar uma residência e toda a estrutura de uma vida cotidiana na floresta. É claro que nem todos os cenários são de tirar o fôlego, porém é visível o capricho na fotografia ao optar por algumas paisagens propícias tanto para o desenvolvimento quanto para o embelezamento.

Algo que ajuda bastante aqui é o fator itinerante do longa, que passa por locações naturais e urbanas, numa tentativa de mostrar a adaptação dos personagens aos diferentes cenários. As belíssimas estradas, construções e composições americanas dão a base perfeita para as mais variadas aventuras da família.

E falando na trupe, que grupo mais coerente e adequado, hein?! O chefe do grupo, Viggo Mortensen, abraça de corpo e alma o espírito desbravador das convenções para levar uma atuação convincente às telonas. O resultado é bastante expressivo, com uma performance que deixa a gente se questionando se ele não teria saído de uma família desse tipo.

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Com muita boa vontade e uma parcimônia do tamanho da sua barba, ele conduz os jovens pela trama e faz o espectador se sentir parte dessa família. Repetindo um pouco do que já havíamos presenciado em “A Estrada”, Mortensen novamente mostra seu lado dramático, ao enfrentar conflitos árduos e que deixariam qualquer em um parafuso — o que apenas reforça o quanto esse cara merece um Oscar.

A família tem nomes como George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso, Charlie Shotwell e Shree Crooks. Cada um tem sua importância, ainda mais que, por estarem em diferentes fases da vida, representam vários pontos da educação do indivíduo. Não só isso, mas o elenco diversificado também é ideal para mostrar diversas personalidades e como há formas distintas de lidar com todas as questões inusitadas da vida.

O jovem MacKay é talvez um segundo alicerce para a história, já que está presente em várias cenas importantes e consegue, em sua simplicidade, arrancar boas risadas da plateia. No entanto, a extroversão de cada um aqui se faz muito relevante, ainda mais com crianças como Charlie Shotwell e Shree Crooks, que conseguem nos encantar pela inocência.

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Eu poderia argumentar vários parágrafos sobre a excelência no figurino (o que é aquele terno vermelho do Mortensen, hein?!), a trama caprichada e até improvisada em várias cenas (que mostra aí os talentos da família) e outros tantos pontos que mostram o esmero na produção, mas tudo isso só faz bastante sentido graças à mensagem linda apresentada.

Capitão Fantástico” pode não ser um título para Oscar, mas é um filme para a vida. As lições estão todas ali e só não vê quem não quer arriscar um passo distinto rumo a felicidade. Veja no cinema e vá preparado para um verdadeiro choque de cultura, educação e amor.

Fonte das imagens: Divulgação/Universal Pictures

Capitão Fantástico

Ele os preparou para tudo, exceto o mundo...

Diretor: Matt Ross
Duração: 118 min
Estreia: 1 / Dez / 2016

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