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Crítica do filme Climax

Lindo Sonho Delirante

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Quinta, 07 de Fevereiro de 2019
Fonte da imagem: Divulgação/Imovision
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Hey, hey, que onda, que festa de arromba! Acabo de sair do cinema, após a sessão de “Climax”, e admito que o diretor argentino Gaspar Noé conseguiu me surpreender novamente. O cara tem talento para criar não apenas obras cinematográficas, mas experiências que usam a sala de cinema como um portal para outra dimensão. Pode parecer papo de drogadito, mas acompanhe o texto que você vai entender.

As criações dele não são para todos, então se você é do tipo que só gosta de “Velozes e Furiosos”, talvez as maluquices de Noé — isso até daria um nome legal para um filme — não vão fazer sua cabeça. Antes, em “LOVE”, o cineasta fez de tudo para transmitir as mais ousadas sensações sobre o amor e suas ramificações. E vou dizer viu... rendeu umas cenas incríveis e mágicas.

Em “Clímax”, eu acho que seria justo dizer que está rolando a maior festa rave nos cinemas do Brasil. Aqui, você é o convidado de camarote para a pista de dança e, parafraseando o saudosista jornalista Luiz Carlos Alborghetti, vai correr: maconha, cocaína, ecstasy, a sua filha pode ser LSD, é... lança-perfume, éter, boleta, a sua filha pode ser assassinada, o seu filho também pode ser assassinado.

Esse seria um resumo bem raso de “Climax”, mas o filme tem mais do que uma vaga ideia de uma festa com muita música eletrônica. Por trás dessa ideia, o roteiro parte da reunião de jovens dançarinos, que estão em sua última noite de ensaio antes de um espetáculo. Eles vão até uma escola vazia para treinar os passos de dança e, na sequência, fazem ali mesmo uma festa regada a bons drinks.

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O que poderia dar errada num ambiente com bebidas liberadas, danças sensuais, música no volume máximo e muita libertinagem? Infelizmente, se você leu a sinopse ou viu o trailer, você já tem ideia do rumo da história, mas isso não impede que a experiência geral seja incrivelmente proveitosa. Vale embarcar de olhos fechados e curtir essa vibe, porque o rolê só acaba quando as galinhas começam a cantar, mas até lá tem muito chão.

Festa estranha com gente esquisita

Quando eu sai da sala de cinema, ainda atônito com tudo que eu vi, fiquei pensando como essa história poderia ser contado de inúmeras formas, mas como o jeito ímpar de Gaspar Noé deixou o rumo da coisa bem inusitado. E não se trata apenas de uma abordagem diferente na direção ou de um toque mágico no roteiro, mas de toda a montagem de “Climax” que faz a gente ficar admirado com a visão do cara.

Não se trata de uma pegada inédita, mas o storytelling amparado por um pontapé do “after party” com direito aos créditos já no começo do longa-metragem (o que vem a calhar hoje em dia, já que todo o filme é composto por cenas pós-créditos) e as cenas de entrevista que mais parecem um documentário deixam as coisas bem interessantes. Só essa pequena introdução já nos basta para ter uma ideia do elenco e de como as coisas podem tomar um rumo inesperado.

A primeira cena do filme já basta para Noé se provar como um cineasta ousado, mas ele não se contenta com pouco e vai além num plano-sequência que exige não apenas a maestria no comando da lente, mas também uma atuação perfeita do elenco, que precisa estar perfeitamente sincronizado com a música, o andar da câmera e a iluminação — um passo errado e tudo deve ser recomeçado do zero. O elenco é cheio de dançarinos, mas pra quem se importa com nomes, tem a Sofia Boutella no papel principal — eu até achei desnecessário protagonista, mas funciona bem.

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Sério, é de ficar boquiaberto com a sincronia e a ousadia. Ok, parte do sucesso é da edição, mas o bruto da coisa está na gravação mesmo. E não bastasse a realização de uma cena dessas, os caras vão lá e fazem várias, para deixar a gente embasbacado. Vale mencionar que parte da hipinose se dá pelas coreografias ousadas, que são possíveis graças às dançarinas (e dançarinos) muito competentes, mas também pelo conjunto da obra. E tudo sempre mantendo o ritmo para a gente não sossegar na cadeira.

Eu não to legal, eu não aguento mais birita

É legal perceber como o rumo da história progride junto ao da direção, num claro paralelo com as noites intensas da juventude nas baladas. O resultado não poderia ser diferente do que aquilo que vemos numa discoteca, mas com proporções exageradas. Só que o mais interessante é saber que tudo isso é baseado em fatos, o que deixa a gente chocado com algumas situações apresentadas.

Tudo começa incrivelmente bem, a diversão vai aumentando progressivamente, algumas coisas começam a ficar esquisitas e, do nada, estamos no meio da noite com tudo girando. A parte divertida aqui é justamente essa visão do diretor, que não mostra a câmera como um elemento a parte, mas que tenta simular o efeito que o espectador tem nesse tipo de situação, como se fôssemos a quarta pessoa do ambiente.

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O difícil é que a plateia geralmente está sóbria quando vai ao cinema, então a experiência é um tanto incômoda e até confusa. A partir de um determinado momento, já não entendemos mais nada e só ficamos enjoados com a câmera girando. E “Climax” faz questão de ser bem provocativo, intenso e ousado, como toda boa arte.

Incessante no ritmo e ousado na câmera, Gaspar Noé se mostra um verdadeiro mago da sétima arte

Ele tem cenas fortes — mas eu fiquei até impressionado de não ter nada tão safado como em “LOVE” — e certamente vai causar desconforto, até pelos inúmeros rodopios e cores extravagantes. Enfim, não importa o quanto eu descreva, só dá para entender ao ver o resultado final. No fim da festa, esse filme se resume a um curto áudio que eu já decorei de tanto ouvir no WhatsApp:

Nós jovaga as cachaça dentro de umas outras cachaça que misturava com umas outras cachaça e tiro e diabaredo e foguete e pinga e cerveja e vodka e puta e sovaqueira, que fedia, e nós tudo louco e cigarro e droga e maconhado e carro nas valeta e Uooouuu... Aquele dia lá os boi andava de ré perto de nós, meu pai amado.

Este é um filme para ficar impressionado, animar com músicas incríveis, dar boas risadas (sim, acredite que tem bons diálogos e cenas para isso), sentir a tensão da loucura e incomodar muito. Enfim, se você é do tipo que curte 128 batimentos por minuto, que adora a vibe da noite, que não perde um bom rolê cheio de gente louca e que busca novas visões no cinema, certamente “Climax” é o filme para você.

Fonte das imagens: Divulgação/Imovision

Climax

"Bad trip"

Diretor: Gaspar Noé

Duração: 96 min

Estreia: 31 / Jan / 2019

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