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Crítica do filme Coringa

Vilão, herói ou vítima?

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Quinta, 03 Outubro 2019
Fonte da imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures
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No próximo ano, o personagem Coringa completa 80 anos, sendo não apenas o maior vilão das histórias do Batman, mas também um dos mais importantes da DC Comics. Apesar desse longo tempo de figuração nos quadrinhos, filmes, séries, desenhos animados e games, o detentor do sorriso mais marcante das HQs nunca teve uma origem bem definida.

Já tivemos várias versões convincentes — algumas até aclamadas pelos fãs —, mas a verdade é que, tirando algumas características icônicas, não há sequer um nome definido para a pessoa por trás da maquiagem. Assim, diferente de Bruce Wayne que tem sempre a mesma história retratada nas diferentes mídias, o Palhaço segue sendo um personagem misterioso.

Foi assim que Todd Phillips e Scott Silver optaram por criar uma versão inédita do comediante. No filme “Coringa”, acompanhamos não apenas uma história inédita no cinema, mas também cheia de novidades para os fãs dos quadrinhos. A trama trata das desventuras de Arthur Fleck (que sequer existe nos gibis), um homem desprezado na já conhecida Gotham.

Assim, é perfeitamente normal haver polêmicas do porquê da existência de um filme que não usa o material de base já consagrado para adaptações cinematográficas, bem como dos motivos que levaram a Warner (nem temos referências significativas à DC Comics durante a projeção) a liberar a produção de um longa-metragem sobre um vilão.

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Alguns poderia alegar que o motivo é a moda, ainda mais após o sucesso de “Venom”, mas o que digo é que “Coringa” não é necessariamente um filme sobre quadrinhos, vilões e estopins para o surgimento de heróis. Estamos numa época em que é preciso reinventar o cinema, o que a Warner parece ter visto de antemão e, assim, optou por ir na contramão da concorrente.

De louco, todo mundo tem um pouco

Se você pensa em ver um filme com o carimbo DC Comics, nos moldes de Esquadrão Suicida ou mesmo na pegada de qualquer Batman, você pode parar por aí. O filme “Coringa” está mais para um drama do que para um filme que tenta se encaixar em uma adaptação de quadrinhos. E essa nova ideia de reinventar gêneros cinematográficos é primordial para levar novidades a um público já cansado da mesmice.

Além disso, é muito importante constatar algo de antemão: a existência de um vilão sem seu rival. Não é de todo errado pensar que o Joker não existiria sem o Batman, ainda mais que — em sua essência — ele nasceu na HQ do Homem-Morcego, mas o filme “Coringa” vem para provar que o personagem existe sem seu arquinimigo, podendo ser o protagonista de sua própria história. Afinal, apesar de ser um vilão, também estamos falando de um ser humano.

Óbvio que, da mesma forma em que há uma genialidade aqui, essa tomada de decisão tem um lado que vai contra a popularidade: a insatisfação de fãs presos às “reais” origens do Joker. É claro que essa mudança de abordagem com um tom muito mais dramático e realista tira toda a referência a um filme do gênero, mas aqui entra a velha história de que não é possível agradar gregos e troianos.

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Conservadores poderiam alegar que não se deve contar histórias sobre criminosos (e há polêmicas sobre uma possível incitação à violência aqui), mas o script do “Coringa” vai justamente na questão primordial do debate: como surgem os vilões? Assim, além de ter seu mérito por trazer um personagem icônico às telonas, o filme de Todd Philips se destaca pela ousadia em fomentar algo raro num título do gênero.

Oras, se esta é uma história de origem, é até necessário que possamos entender o processo de transformação do personagem. E eis aqui o trunfo do filme, que opta por não jogar seguro e fugir do óbvio, afinal seria fácil adaptar um conto conhecido das HQs. Então, sem dúvidas podemos classificar a obra como audaz por propor uma explicação mais humana — e menos fantasiosa.

Os vilões que criamos

Genial em sua concepção, a ideia central pode, por outro lado, ser um tanto repetitiva ou talvez até alongada para quem busca um filme mais com a cara do Coringa e menos com a cara de Arthur Fleck. Particularmente, eu mesmo achei que as coisas poderiam ter sido um tanto aceleradas ou mesmo mais unificadas para evitar a repetição de uma mesma mensagem.

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Contudo, ao mesmo tempo em que vale a crítica a tal aspecto, eu acho justíssimo ter divagações ou até repetições de determinados momentos para que a gente possa apenas desfrutar do talento exuberante de Joaquin Phoenix. Eis aqui o homem que fez tudo isso possível, afinal somente um ator muito gabaritado poderia suscitar as nuances mais sutis de um ser humano tão complexo.

E eu digo ser humano, pois o “Coringa” não é um filme que tem o personagem apenas como um apoio para determinadas cenas. O filme é totalmente focado no protagonista, de modo que não há uma sequência que se sustente sem a presença do ator. Phoenix está aqui para dar dramaticidade nos momentos mais tensos, fazer o Joker resplandecer com danças e ações performáticas e externar sua mensagem nos momentos mais intensos.

Falando em espetáculo, resta enaltecer três pilares que dão sustentação para toda a obra: fotografia, direção e trilha sonora. Primeiro que este é provavelmente o primeiro retrato mais ousado de Gotham durante o período diurno. Por não precisar focar no Batman, o filme não necessita criar situações que obriguem a execução no período noturno.

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Segundo, temos uma direção surpreendente de Todd Philips (que muita gente só conhece de “Se Beber, Não Case!”). A versatilidade do cineasta para sair de uma pegada muito cômica para encarar uma obra muito dramática surpreende, principalmente pela sua visão intimista e também pelo olhar preciso da grande Gotham. E, terceiro, que trilha é essa? A composição de Hildur Guðnadóttir (das séries “Trapped” e “Chernobyl”) é o complemento perfeito para extrair esse novo Coringa!

E olha, para ser sincero, eu passei boas horas refletindo e escrevendo esse texto, tentando ponderar prós e contras, vendo as diferentes perspectivas, que o próprio filme propõe. Contudo, não há uma conclusão simples, assim como deveria ser em qualquer obra engenhosa. Se “Coringa” nos consegue fazer pensar em tópicos como criminalidade, vilões, heróis, sociedade, política, cotidiano e afins, eu acho que ele alcança seu resultado com maestria.

Na minha opinião, o filme “Coringa” é uma obra genial justamente por ser despretensioso ao tratar de um personagem de quadrinhos, mas por ser incisivo em suas mensagens intrínsecas quanto ao nosso lado mais humano. Talvez, para alguns o tom seja até glamourizado, porém eu acho que o recado vem de forma precisa para que tantos possam enxergar a desgraça.

Fonte das imagens: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Coringa

Sorria meu bem, sorria!

Diretor: Todd Phillips

Duração: 121 min

Estreia: 3 / Out / 2019

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