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Crítica do filme Crimes Obscuros

Vislumbres da verdade

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Domingo, 10 Março 2019
Fonte da imagem: Divulgação/Cinecolor Films Brasil
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Filmes investigativos são tomados por clichês, sejam eles embutidos como parte dos acontecimentos na história ou através de aspectos inerentes aos personagens. As pessoas não costumam tecer comentários negativos a tais detalhes, uma vez que, muitas vezes, essas facilidades são apenas superficiais perante o elenco ou mesmo ao glamour de uma produção hollywoodiana.

Essas trivialidades são cansativas, ainda mais quando em excesso, pois evidenciam os fins comerciais da produção. O resultado em muitos dos filmes do gênero é algo “comum”, ao que já estamos habituados, mas que não condiz com a realidade. Particularmente, eu acho cretina a insistência em detetives que são brilhantes ao ponto de ver uma única pista e solucionar até a árvore genealógica do assassino — e olha que sou fã de Sherlock Holmes, mas me refiro, obviamente, à versão dos livros.

Entre tantas apostas em lugar-comum, temos algumas que são pontos fora da curva, como é o caso de “Crimes Obscuros”. Longe de ser uma obra genial de suspense, a película estrelada pelo comediante Jim Carrey (sim, ele também tem obras sérias em seu currículo; e esta é uma das boas)  chega como um alento por se arriscar num abismo experimental, ainda que existam considerações ao roteiro.

Inspirado em um artigo do New Yorker — de David Grann (que se inspirou em eventos reais) —, o filme “Crimes Obscuros” acompanha a jornada investigativa do policial Tadek (Jim Carrey), que busca pistas para resolver o caso de um assassinato arquivado. Curiosamente, a ocorrência dada como inconclusiva anos antes tem semelhanças com um livro de escritor polonês (Marton Csokas).

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A grande dificuldade é ligar o assassinato a uma publicação, sendo algo ainda mais complicado quando as pistas já estão frias. Assim, o investigador segue uma trilha perigosa, que envolve até a namorada (Charlotte Gainsbourg) do escritor. No todo, um filme misterioso, que joga principalmente com a carta da inexperiência do detetive, algo que deixa o ritmo mais lento, mas que torna a história convincente.

Na contramão de Hollywood

Apesar de trazer um ator bem americano (que amamos por “Debi & Loide”), o filme “Crimes Obscuros” só tem Jim Carrey de comum, pois o restante da produção se afasta dos padrões da indústria. É importante pontuar isso antes de tudo, pois este não é um “filme do Jim Carrey”, então nem perca dinheiro se você quer ver um filme de comédia como “O Todo Poderoso” — isso evita que você passe raiva e comentários sem noção na sala de cinema.

Bom, além do deslocamento do ator, narrativa e ritmo devem causar estranheza para o grande público. Mesmo quem está acostumado com outros filmes de suspense pode tomar um choque ao ver que este não é um título como “Seven - Os Sete Crimes Capitais” ou “Zodíaco” — até porque o filme de forma alguma dá essa impressão. O ponto é que estamos tratando de uma produção bem europeia, então é uma dinâmica bem alheia aos estereótipos hollywoodianos.

É interessante notar que essa abordagem diferenciada se dá de forma estrutural, então não se trata de uma história fraca ou de uma direção bizarra, mas de uma montagem mais crua. Dessa forma, temos mais respiros entre as ações dos personagens, algo que deixa o ritmo mais pausado e até mais realista. Em vez de termos um gênio no papel principal divagando sobre tudo, seguimos um viés mais falho e, assim, mais convincente.

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Parte da estruturação diferenciada também se dá aos diálogos mais crus e mais críveis, com poucas frases de efeito (tirando as citações do personagem que é um escritor). Muita coisa se passa através dos olhares, do respiro, das reações. Isso aliado ao nível raso de ação torna o filme mais lento, porém ainda muito interessante. Para fechar o pacote, temos uma trilha sonora sombria, que condiz com a confusão dos fatos, mas que foge do padrão.

Protagonismo embebido em enigma

Quem acompanha a vida dos famosos sabe que Jim Carrey teve em um longo hiato em sua carreira de ator e resolveu se dedicar a outras artes, como a pintura. De qualquer forma, quem só viu as comédias talvez estranhe esse ator sério e centrado, que não esboça um sorriso  e que tem um olhar profundo. Não que seja um universo novo para ele, já que temos aí “Número 23” com um Jim Carrey mais sombrio e inusitado.

Curiosamente, através dos últimos documentários e vídeos do ator, podemos ver que ele está numa fase mais reflexiva, algo que parece se misturar com o personagem do filme. Ainda que exista aqui uma clara gama de características próprias do policial, o comportamento de Carrey no decorrer do roteiro é bem caricato e nos faz pensar se ele não trouxe um pouco de seu longo período reflexivo para incorporar ao modus operandi do detetive.

Claro, simplesmente jogar Jim Carrey num filme sem propósito não teria qualquer propósito, então o que temos aqui é uma boa combinação de construção de personagem e de escolha de protagonista. O detetive é o fio condutor do filme, então cerca de 90% do filme depende única e exclusivamente da história do policial que busca se destacar na força policial e, consequentemente, da capacidade interpretativa do ator.

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Assim, é impossível dissociar qualquer sucesso do filme da presença de Carrey. Um simples olhar vazio para a tela já nos deixa encucado com o que ele pode estar tramando e orquestra perfeitamente com a história que ruma vagarosamente. O personagem tem lá suas inúmeras falhas, mas se trata de algo que agrega à trama, que tenta não apenas desenvolver a investigação, mas retratar uma região e seus subtemas, como: sexo, violência e machismo.

No mais, eu acho que temos aqui um filme bem construído, com uma fotografia caprichada, uma direção coerente (com ótimos enquadramentos) e um elenco de suporte fenomenal. Se você viu o trailer de “Crimes Obscuros” e ficou intrigado, é bem possível que o filme tenha algumas surpresas que valem o seu ingresso, mas fica o alerta para não esperar uma produção trivial.

Fonte das imagens: Divulgação/Cinecolor Films Brasil

Crimes Obscuros

É preciso uma mente perturbada para solucionar um crime perverso

Diretor: Alexandros Avranas

Duração: 92 min

Estreia: 28 / Fev / 2019

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