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Crítica do filme Elle

Apenas um olhar não é suficiente

Lu Belin

por
Lu Belin

Segunda, 19 de Dezembro de 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Sony Pictures
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Isabelle Huppert é uma das atrizes francesas que mais conseguiram alcançar projeção internacional. Conhecida por produções como “Um amor em Paris” e “Dior e Eu”, ela chegou novamente às telonas brasileiras com o filme “Elle”, que vem gerando um burburinho por sua temática delicada e pela atuação brilhante da própria.

Escolhido para representar a França na seleção do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Elle” conta a história da executiva Michele, empresária à frente de uma grande empresa de entretenimento.

Brutalmente atacada em sua própria sala de estar, Michele resolve encobrir os rastros da invasão e não contar a ninguém que foi estuprada, tentando dar seguimento à sua vida como se nada tivesse acontecido.

Mas esse é apenas o ponto de partida para a loucura que é esse filme. Tanta coisa acontece que eu vou chamar um reforço para me ajudar nessa crítica, que vai ser colaborativa com o Fábio Jordan.

Desgraceira pouca é bobagem

É complicado esse lance de vender um filme. Geralmente, o pessoal que monta os trailers tem a difícil missão de encaixar algumas peças do quebra-cabeça que entreguem algumas pistas do que será desenvolvido no longa-metragem, mas que não revelem o todo — afinal, o público deve ir ao cinema descobrir o restante.

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Aí está um pequeno desafio para “Elle”. Ele é divulgado como um filme que trata sobre um de tantos casos de violência sexual. Contudo, na telona, o roteiro tenta mostrar todas as nuances de uma mulher que teve uma vida bastante conturbada (em uma escala talvez mais densa do que a bagunça de “Aquarius”, mas muito melhor organizada e conexa aqui). 

Embora traga também algumas similaridades na premissa e no roteiro com "O Silêncio do Céu", o desenrolar da trama é completamente diferente. A construção da personagem é deveras interessante. Todavia, há uma falta de coerência entre a proposta e a execução.

O filme poderia dar exemplo de como há um mundo de coisas que podem influenciar o psicológico de uma mulher após uma barbaridade sem tamanho, mas ele falha ao incluir fatores que não têm ligação direta com a pauta principal.

Assim como qualquer ser humano, Michele é uma mulher que guarda segredos sobre seu passado, o que dá substância para a personagem. O resgate de algumas memórias é válido para ampliar as dificuldades do presente, porém é preciso ponderar que a conexão de tudo não se dá da melhor forma possível.

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Além disso, vários fatos atuais, que contextualizam a vida da personagem e de sua família, são pouco pertinentes ao tema central do filme. Aos poucos, o espectador é levado para uma trama permeada de temáticas, as quais seriam todas válidas dentro de abordagens separadas, mas que aqui acabam adicionando ruído à mensagem principal.

Uma forma bizarra de lidar com o problema

A emoção não é uma constante aqui, ainda mais com as relações complexas e pouco tradicionais apresentadas. A empatia com a personagem se dá em raros momentos, mas a guinada nos temas leva a plateia para outro rumo, em que mais existe um estranhamento pela fuga do convencional e também pelo reforçamento de estereótipos.

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O filme tenta desconstruir vários temas simultaneamente, porém o atropelo no script e a tentativa de empurrar tudo goela abaixo soa mais como uma presunção, em que há algo genial e relevante ao público, do que uma sugestão de debates que podem ter relevância. É como visar a desconstrução, sem ter argumentos convincentes para tanto.

Apesar de certa bagunça na parte argumentativa, há organização na produção. As cenas dramáticas causam impacto e deixam a plateia apreensiva, algo reforçado em momentos pela ação brutal e a ausência de trilha sonora. Não que o filme seja todo assim, afinal, há sim momentos de suspense devidamente acompanhados de músicas coerentes.

A fotografia é marcante e acentuada com cenas em ambientes fechados. O rumo predominante em locais com baixa iluminação deixa o espectador enclausurado e tenso para as próximas sequências. 

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O andamento do filme é bom: durante a maior parte do tempo a fluência das cenas é boa, mas pode ficar bem sofrida no final do filme, quando a produção entra naquele ritmo “ofertas de fim de ano” em que parece que o roteirista David Birke e o diretor Paul Verhoeven quer nos dizer o tempo todo “e não é só isso”, “e mais isso”, “e assistindo agora você ganha mais isso”.

Apesar da salada mista que é o filme, vale a pena assistir até mesmo para conhecer e discutir, pois se trata de um daqueles longa-metragens que te fazem sair da sala ansiando pela problematização. 

Há que se ter um pouco de cuidado, claro, pois "Elle" pode reforçar alguns estereótipos e prestar alguns desserviços para questões como a do próprio estupro. Com essa ressalva - a de assistir com um olhar crítico - fica aí a nossa recomendação de ver e de voltar aqui discutir com a gente sobre o que você achou.

Fonte das imagens: Divulgação/Sony Pictures

Elle

Ela resolveu entrar num jogo de gato e rato para rastrear o cretino que a violentou

Diretor: Paul Verhoeven

Duração: 130 min

Estreia: 17 / Nov / 2016

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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