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Crítica Era Uma Vez em... Hollywood

O melhor filme de Quentin Tarantino?

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Terça, 20 de Agosto de 2019
Fonte da imagem: Divulgação/Sony Pictures
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Este texto NÃO contém spoilers para que você possa ter a melhor experiência durante o filme.

Quando falamos em diretores icônicos, não há dúvida de que Quentin Tarantino se destaca em inúmeros rankings, ainda mais tratando dos cineastas mais marcantes das últimas décadas — bom, pelo menos na minha lista, eu acho que ele deve ficar facilmente no Top 5. E se a ideia é pensar no jeito de criar e contar histórias, então Tarantino certamente se destaca por ser um cara de ideias pra lá de inusitadas.

Sempre focado no lado mais absurdo, sanguinário e até sádico do ser humano, Tarantino criou um portfólio que se destaca pelo exagero, seja dos personagens, das situações ou da execução mesmo. Se pegarmos os filmes dele, nenhum tem um viés muito realista, mas é justamente o apelo para o surreal que cria essa conexão com o público. E aí temos inúmeras marcas registradas dele em suas películas.

Ok, talvez você já viu todos os filmes dele ou quem sabe um punhado, mas com tantos títulos de vingança, sarcasmo, perseguição, ação (às vezes, com um bocado de faroeste), o que teria de novidade no filme “Era Uma Vez em... Hollywood”? Oras, se você prestar atenção ao título, a dica fica bem clara: por que não uma pitada disso tudo e uma adição da fantástica fábrica de realidades chamada Hollywood?

Sim, você entendeu direito, este é um filme que se passa nos estúdios de Hollywood, na Los Angeles de 1969. Aqui, acompanhamos as aventuras — nos sets de gravação e na carreira — do astro de TV Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e de seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt). Os dois têm de lidar com as mudanças constantes da indústria, o que inclui novos desafios nos papéis de Dalton, e também com as bizarrices da região.

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Essa sinopse provavelmente não diz muito, mas esse é o objetivo. É sempre melhor ver as surpresas na telona. E, SIM, você precisa ver o filme no cinema! Agora, para a outra dúvida: este é o melhor filme de Quentin Tarantino? Essa resposta vai depender de quem avalia, mas, na minha opinião, sim esse é o melhor DE Tarantino, mas não DO Tarantino. Ele não é o mais inovador em história e direção, mas é o que mais tem traços do diretor.

Sabe qual é a minha impressão? Com tanto hype, o cineasta resolveu fazer um filme bem numa pegada exibicionista — até indo na contramão do preciosismo de “Os Oito Odiados”. Aí o resultado é um punhado de coisa genial, mas que não necessariamente agregam para contar a história. O filme que tem suas quase três horas é um deleite para ver DiCaprio e Pitt esbanjando atuação, mas a história mesmo podia ser contada em menos de duas horas.

Isso é um problema? Bom, depende de quem está vendo. Eu achei o filme maravilhoso em cada segundo, porque cada divagação dá um charme a mais e abre espaço para gente curtir toda a genialidade do cara, que adora mostrar seus hobbies na telona (seja vinhetas dos filmes da década de 1960, seja trechos de faroestes, seja a galera hippie da época). Só que para quem gosta de algo mais direto ao ponto, boa parte do filme pode parecer enrolação.

Hollywood como você nunca viu

Você pode ser um grande cinéfilo, ter visto milhares de filmes que tentam retratar a rotina nos bastidores de Hollywood, mas é bem improvável (ou talvez quase impossível) que você já tenha visto algo próximo da visão que Tarantino tem da indústria dos anos 1960. E o motivo para esse ineditismo é bastante óbvio: cada idealizador pode partir para uma abordagem completamente distinta para retratar um mesmo cenário.

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Uma coisa bem legal é que num projeto tão amplo (pois apesar de ser longo, o filme não foca tanto nos detalhes, mas no número de variáveis para contar a história) podemos ter uma ideia bem variada de um mesmo universo. Assim, Tarantino aproveita os dois fios condutores (que são os protagonistas) para mostrar alguns dos tantos profissionais dos estúdios, até dando uma pequena aula das tarefas e peculiaridades, e também dos tipos bizarros da cidade.

É claro que a escolha dos filmes fictícios que existem dentro de “Era Uma Vez em... Hollywood” só podia ser títulos de faroeste — afinal, estamos falando do cara que fez “Django Livre” e “Os Oito Odiados”. E é legal ver que o diretor se preocupou em mostrar tanto versões finalizadas da época quanto os bastidores mesmo, incluindo as rotinas mais simples dos atores da época, com seus desafios até para decorar falas.

Ok, tudo isso pode parecer detalhista, mas pode ficar tranquilo que você não terá uma cena de dez minutos com uma carruagem vindo de longa distância até parar em frente à câmera. Todavia, é interessante colocar que os detalhes aqui são usados de forma mais pontuais e para acrescentar algo à história dos protagonistas. E, aliás, vale pontuar que os personagens fictícios até têm inspirações reais, mas há uma boa dose de invenção aqui.

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Claro, para dar coerência para toda essa ficção, Tarantino retrata uma Hollywood nos mínimos detalhes, numa produção que leva em conta figurino, carros, mansões, lojas e também os figurantes. Tudo é planejado com uma minúcia para garantir que o espectador mergulhe nesse conto de fodas (mesmo que não seja um filme com essa pegada, as ideias do cara são inegavelmente fodas).

É bom ser o Rei!

Como eu já disse, a ideia de “Era Uma Vez em... Hollywood” parece ser uma produção única e exclusivamente para criar um mundo imaginário de Tarantino em sua cidade favorita. Foi ali que o cara teve suas maiores realizações, então é óbvio que ele queira mostrar um pouco do todo que o fez se apaixonar pelo mundo do cinema. Assim, as quase três horas de película são quase que totalmente dedicadas a dar essa degustação ao público.

E, nessa altura do campeonato, Quentin Tarantino pouco se importa se os críticos ou o público não vão gostar de algo, pois ele já tem seu espaço para pintar e bordar como quiser, ainda mais num filme que é totalmente idealizado por ele. Mesmo com algumas ressalvas, é inegável que o cineasta tem muita coisa a mostrar, ainda que tenha várias cenas que o público possa julgar como irrelevante, o homem prefere trabalhar a sua maneira.

Se em outros verões, o diretor já teve suas divagações para criar clima de tensão através de enormes diálogos (quem não lembra daquela cena tensa de “Bastardos Inglórios” com o general fumando seu cachimbo?), aqui ele prefere dar espaço até mesmo para tarefas como o retrato de um cachorro ansioso por sua refeição ou uma atriz admirando sua própria performance no cinema. Tudo isso pode representar pouco no fim da jornada, mas a construção é tão charmosa, que a gente só admira toda essa paixão de Tarantino.

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A influência do cineasta para atrair Leonardo DiCaprio e Brad Pitt para um mesmo filme é sensacional. Sério, os dois dominam o filme como se tivessem dando um passeio no parque. É um combo de experiência tão bem acertado, que toda cena vira mágica e a gente fica só admirando os dois se exibindo nos sets de filmagem. Não que os demais atores e atrizes não façam ótimos papéis, mas é inevitável não tecer elogios para a dupla.

E aliás, também é interessante pensar na complexidade desse filme, que por ser um longa-metragem realmente longo, ele teve um trabalho muito maior de produção, ainda mais por contar com outros pequenos filmes inseridos na trama. No fim, parece que a gente tá vendo vários cases e demos que Tarantino tinha guardado na gaveta e tem espaço até para brincadeiras comerciais e participações especiais como a de Bruce Lee (que até gerou polêmica, mas isso não vem ao caso aqui).

E meus amigos, sabe aquele ditado de que “o melhor ficou guardado para o final”? Então, se você tiver paciência, curtir sua pipoca e apenas aproveitar toda essa ficção nos mínimos detalhes, certamente o senhor Tarantino vai se encarregar de entregar sua recompensa da melhor forma possível! O fim da película é algo impagável de bom, então, fique tranquilo, pois você vai sair do cinema bem satisfeito com essa dose tarantinesca.

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Por fim, mas não menos importante, eu acho totalmente válido você conferir “Era Uma Vez em... Hollywood” no cinema, pois — além da direção com maestria — essa talvez seja a penúltima chance de curtir uma obra inédita do cineasta, que já declarou pensar na aposentadoria após o décimo filme (que deve ser o próximo Jornada nas Estrelas). Bom espetáculo para todos!

Fonte das imagens: Divulgação/Sony Pictures

Era Uma Vez Em... Hollywood

Vida de ator famoso não é fácil...

Diretor: Quentin Tarantino

Estreia: 15 / Ago / 2019

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