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Crítica do filme Escape Room

A armadilha do argumento frágil

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Quinta, 07 Fevereiro 2019
Fonte da imagem: Divulgação/Sony Pictures
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Eu não sei vocês, mas eu odeio essa moda de escape room que se instaurou no Brasil nos últimos anos.  Ok, minha experiência foi afetada negativamente por trancas mal construídas que impediram o avanço no jogo, mas isso já me bastou para eu sentir uma raiva descomunal — e quem me conhece sabe que é difícil me tirar do sério, mas eu simplesmente tenho ódio mortal de qualquer brincadeira que tente me fazer passar por burro ou incompetente. Bom, ao menos, quando eu embarquei nessa idiotice, eu não paguei nada para passar raiva, pois esta foi a única sensação que eu tive num ambiente desses.

Bom, dito isso, você já sabe que minha opinião sobre o filme “Escape Room” pode ser levemente afetada por tal situação, mas, por outro lado, eu admito que sempre gostei dos jogos virtuais (e que funcionam apropriadamente!), tentando fazer o jogador levar sua inteligência ao limite. Além disso,acho que vale mencionar que eu adoro filmes como “Jogos Mortais”, então minha expectativa para este filme estava até bem elevada quando eu vi o trailer pela primeira vez. Era um misto de empolgação com uma ideia legal, porém com um pé atrás devido aos exageros já conhecidos em filmes do tipo.

Para minha surpresa, o resultado de “Escape Room” foi bem diferente da minha única experiência com o conceito na vida real, pois além de ter desafios bem planejados, o filme trouxe níveis de emoções que a gente não espera ver em uma brincadeira. É claro que para ter essa dose extra de diversão, os jogadores no filme têm um prêmio bem considerável: 10 mil dólares. Além disso, o espectador descobre aos poucos que eles estão em momentos complicados de suas respectivas vidas, então uma oportunidade dessas pode ser a salvação — literalmente!

Basta alguns minutos na primeira sala para os personagens perceberem que não estão participando de um mero jogo, mas de um desafio que pode colocar suas vidas em risco. Apesar de não ser uma situação tão agressiva como as do Jigsaw em “Jogos Mortais”, os participantes dessa gincana correm o risco de estar nas mãos de um lunático, com a exceção de que aqui, supostamente, eles têm alguma chance. Resta saber se eles vão resolver os quebra-cabeças antes de o tempo acabar e se eles vão encontrar a saída mesmo deste local inóspito.

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Ok, Fábio, a premissa é boa, mas o resultado é legal? Bom, filmes de terror que colocam as pessoas em situação de vida ou morte tendem a ser convidativos por induzirem a plateia a imaginar como seria estar no lugar de um dos personagens, afinal sempre gostamos de testar nossos limites, isso faz parte do ser humano. Nesse sentido, os desafios propostos, os cenários impossíveis, as cenas de extremo perigo e a direção bem expressiva deixam o filme emocionante e bem apelativo, mas a fórmula repetida muitas vezes pode ser cansativa.

Tenso e intenso na mesma proporção

Se tem uma coisa que eu tenho de bater palma é para os puzzles propostos pelo filme, já que este é o primordial do longa-metragem. Sem desafios dificultosos, toda a ideia do filme cairia por água abaixo, mas os roteiristas até tiveram boas ideias nesse sentido — ainda que eu colocaria os acertos na conta de Maria Melnik (que escreveu episódios de “Deuses Americanos”), uma vez que Bragi F. Schut assinou “Caça às Bruxas”, que é um filme bem fraco.

Toda a ideia de um prédio com várias salas de desafios interconectadas, ambientes com diferentes propostas de armadilha, os jogos que usam e abusam dos cinco sentidos e até mesmo a quebra de lógica — como a cena do trailer que mostra uma sala com a gravidade alterada — fazem o filme ganhar vários pontos na gincana da inovação. E uma coisa muito boa é que, diferente de “Jogos Mortais”, a ideia em “Escape Room” não é forçar os personagens a tomarem ações extremas de amputar membros do corpo ou matar outros participantes, pois todos estão com o mesmo problema e a ação coletiva é importante.

E aqui vale pontuar que o roteiro se diferencia de outros tantos filmes de terror, pois não temos pessoas burras participando do jogo. Em outros tantos filmes, os espectadores ficam dando dicas para que os personagens evitem de cair nos mesmo clichês, algo que não acontece neste filme, pois os participantes foram escolhidos a dedo para tentar realmente ganhar o jogo. Não seria lógico colocar sujeitos estúpidos num mesmo local, pois eles não passariam da primeira sala, então a ideia de trabalho em conjunto fica ainda melhor com a presença de convidados ilustres.

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Aliado ao bom roteiro, temos uma direção impressionante de Adam Robitel (de “Sobrenatural: A Última Chave”). É de ficar impressionado como Robitel consegue fazer cenários pequenos virarem labirintos gigantes, mas ainda apertados para deixar os personagens sufocados — parece uma contradição, mas é algo possível num filme desse tipo. As brincadeiras com tantos perigos e elementos nos ambientes garantem surpresas também, pois nunca estamos esperando pelo pior, já que a câmera sempre tenta desviar nosso foco do mais importante. Uma boa ideia para nos colocar junto no jogo.

Caindo na própria armadilha

Bem-sucedido até determinado ponto, o filme “Escape Room” ganha a confiança do público durante seus quase 100 minutos de duração, sendo uma boa pedida para distrair com suas brincadeiras perigosas, que como eu disse valem a atenção da plateia e certamente fica ainda mais agradável com um pacote grande de pipoca.

Contudo, eu fico bem triste ao ver que certamente é um título que pode decepcionar no final da gincana, uma vez que o roteiro leva um tombo gigantesco. Toda a construção inteligente acaba sendo desconsiderada com a ousadia dos escritores que quiseram levar a brincadeira longe demais; e aí o filme dá a volta e fica tosco sem necessidade.

O problema de filmes que tentam ser muito espertos — e que, consequentemente, deixam brechas para argumentações esdruxulas — é que o “feitiço acaba virando contra o feiticeiro”, afinal boa parte do público já é mestre em filmes de terror, então não adianta driblar os clichês e entregar um final mais ou menos. Não é preciso eu dar detalhes aqui, porém se você quer muito ver o filme, já vá sabendo que a saída do labirinto pode dar num grande outdoor de decepção.

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Apesar dos pesares, ainda afirmo que “Escape Room” é uma boa pedida para os fãs do gênero. Não é o melhor filme do tipo “jogos mortais", mas há boas ideias aqui, que aproveitam bem as histórias dos personagens (que são interpretados por atores até competentes em boa parte do tempo) e há desafios que divertem. E certamente a experiência  com este filme é bem melhor do que a que eu tive com o jogo na vida real, então pelo menos você não vai passar raiva. Boa sorte e bom filme!

Fonte das imagens: Divulgação/Sony Pictures

Escape Room

Ache as pistas ou morra

Diretor: Adam Robitel

Duração: 99 min

Estreia: 7 / Fev / 2019

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