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Crítica de Estrelas Além do Tempo

Não é porque uso saias, é porque uso óculos

Lu Belin

por
Lu Belin

Sexta, 27 Janeiro 2017
Fonte da imagem: Divulgação/20th Century Fox
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Talvez a palavra reconhecimento seja a que melhor define o atual momento do cinema. Neste ano, finalmente temos um equilíbrio maior de candidatos negros ao Oscar em diversas categorias, assim como uma participação maior de mulheres protagonistas em diversos filmes, entre outras demonstrações de uma lenta (e um tanto forçada) tomada de consciência. 

Meio no tranco, o cinema vem ajudando a reconhecer grandes talentos ocultos ou conquistas históricas que só foram possíveis por conta do esforço e da contribuição de pessoas negras.

É claro que não se trata apenas de raça - faz parte desse movimento também uma série de longa-metragens dedicados a contar os backstages de avanços com participação de mulheres de todas as cores e raças, de pessoas LGBTT, de muçulmanos, de orientais, de latinos dentro dos cenários norteamericanos, entre tantos outros. 

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O mais novo longa-metragem biográfico distribuído pela Fox Films no Brasil, “Estrelas Além do Tempo”, chega para engrossar esse caldo que conta com lançamentos recentes como “Raça”, “Rainha de Katwe”, “O Jogo da Imitação”, “Histórias Cruzadas”, “Selma”, e, em breve, “Loving” e “Um Limite Entre Nós”, entre tantos outros.

Talvez a palavra reconhecimento seja a que melhor define o atual momento do cinema

Em “Estrelas Além do Tempo, nós temos as trajetórias de três pessoas que são duplamente marginalizadas em um tempo não muito distante - as décadas de 50 e 60 -, por serem mulheres e por serem negras. 

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Katherine G. Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson são três “computadoras” que trabalham para a NASA, realizando tarefas como refazer e checar as contas dos engenheiros e cientistas homens, para confirmar a exatidão dos cálculos, antes do nascimento dos computadores eletrônicos  - o nome, inclusive, veio daí. Na produção dirigida por Theodore Melfi, elas são vividas por Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe, respectivamente. 

Com roteiro adaptado por Alison Schroeder, Ted Melfi, Lori Lakin Hutcherson, o filme é um retrato histórico de uma época construída por “figuras escondidas”, como sugere o nome original do longa - Hidden Figures, das quais aos poucos vamos tomando conhecimento.

Preciso e divertido

Ambientado na década de 60, “Estrelas Além do Tempo” se concentra em apresentar com bastante cuidado a rotina da NASA na época. Em termos de cenários e figurinos, o longa é atencioso para os detalhes - como, por exemplo, o fato de que mulheres que trabalhavam para a NASA na época não podiam utilizar acessórios muito chamativos, no máximo um colar de pérolas.

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A paleta de cores é muito fiel à década, com tons vivos que já direcionam ao que seria o colorido dos anos 70, e as estampas… ah, as estampas, os vestidos, os papéis de parede. Tudo muito cheio de alegria e cor.

As roupas e acessórios das protagonistas são de tirar o fôlego, especialmente as de Taraji P. Hanson, que é quem recebe mais destaque na trama. Por falar em Taraji (que mulher!), ela é um dos pontos fortes do filme. Sua atuação, ao mesmo tempo desastrada a um ponto que beira ao cômico e triste que beira a tragédia, nos leva pela mão pela história de Katherine Johnson com sensibilidade, no maior estilo “rindo da desgraça alheia”.

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Além das protagonistas, outras participações que merecem destaque são as de Kevin Costner, Jim Parsons (que no filme é um Sheldon melhoradinho), Mahershala Ali e Kirsten Dunst, grandes nomes do cinema que fazem também um bom trabalho no filme e contribuem para um cast redondinho.

Dando o braço a torcer

O grande trunfo de “Estrelas Além do Tempo” é fazer o cidadão padrão homem branco hétero ter que admitir que foi preciso um grupo de mulheres e negras - que muitos consideravam inferiores a eles - para resolver uma série de problemas que eles não foram capazes de solucionar sozinhos. 

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Mostrar que, ao contrário do que aprendemos na escola, a história não foi construída unicamente por esses sujeitos e, por outro lado, mostrar os pouquíssimos que se posicionaram contra essa cultura opressiva e omissora do talento das minorias. 

O roteiro de “Estrelas Além do Tempo consegue passar essa mensagem de uma forma muito clara  por meio de pequenas coisas: como o fato de a protagonista precisar andar quase um quilômetro para ir ao banheiro porque no setor onde ela estava atualmente alocada, uma área que até então nenhuma mulher negra havia pisado, a não ser para servir o café, não havia banheiros para “colored ladies”. Ou seja, mesmo havendo banheiro feminino, ela não poderia utilizar. 

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É revoltante pensar que isso tudo aconteceu tão pouco tempo atrás - 50 anos! - e que era tão natural uma pessoa negra ser proibida de sequer beber da mesma garrafa de café que os colegas de trabalho.

Em “Estrelas Além do Tempo, tudo isso é tratado de forma a mostrar a perspectiva das protagonistas com um toque de bom humor, o que torna o filme um pouco mais leve, apesar da temática tão densa. Para mim, não ficou a impresão de que o longa brinca com assunto sério, muito pelo contrário. Nos faz rir do opressor, não do oprimido (mas eu gostaria de ouvir também a opinião de pessoas negras, pois é muito fácil pra mim, mulher branca, dizer isso).

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O que fica do filme, no entanto, é essa lição de buscar saber quem é que ajudou a moldar a história e ficou de fora dos livros, quem foram os negros, os imigrantes, as mulheres, os estrangeiros que estavam ali, sem quem não teríamos conquistas como a chegada do homem ao espaço, e que nos foram escondidos. 

E, se você já está de saco cheio desse  movimento... bem, eu sugiro que você faça uma assinatura do Oldflix, meu bem, porque esconder esses talentos é coisa do passado. 

Fonte das imagens: Divulgação/20th Century Fox

Estrelas Além do Tempo

Três mulheres ultrapassaram barreiras de gênero e raça para inspirar gerações

Diretor: Ted Melfi
Duração: 139 min
Estreia: 2 / Mar / 2017

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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