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Crítica do filme Green Book – O Guia

A graça nas estradas da desgraça

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Sexta, 25 Janeiro 2019
Fonte da imagem: Divulgação/Diamond Films
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A vida poderia ser bastante simples se o ser humano tivesse a mínima noção de como funciona a sociedade e uma boa dose de dignidade para respeitar o próximo. Todavia, a história já cansou de nos provar que a humanidade sempre funcionou com base nos mais inimagináveis atos de rivalidade, em que um homem sempre quer se impor e se mostrar superior ao seu semelhante.

O principal problema é que, na grande maioria dos casos, isso obviamente aconteceu com uma maioria esmagando, humilhando e tirando proveito de uma minoria – ou de diversos grupos em posição de oprimidos. Não é preciso ser nenhum gênio em história para saber dos tantos grupos de brancos que se aproveitaram e abusaram da mão de obra – e também do psicológico – dos negros.

Nos Estados Unidos da América, a segregação racial foi ainda mais emblemática. Algo que começou lá no período da escravidão perpetua até os dias de hoje, mas muitos períodos foram marcados de forma mais incisiva por casos históricos. Este era um panorama comum nas décadas de 1950 e 1960, época em que se passa a história de “Green Book - O Guia”.

Neste filme, acompanhamos um breve período da vida de Tony Lip (Viggo Mortensen), um segurança, de origem italiana, que ficou famoso no Bronx por seus modos ousados, algo que eventualmente chamou a atenção do Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), um pianista negro mundialmente famoso, que necessitava de um motorista para acompanhá-lo em uma turnê pelo sul estadunidense.

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Já sabendo da situação de rejeição em várias partes do país, o doutor entrega o “Livro Verde” para seu motorista parar apenas nos poucos estabelecimentos que aceitam a presença de negros. Não será uma viagem fácil para eles, mas mesmo a plateia que está de carona deve estar pronta para o desconforto, as desavenças e a sensação de desprezo pelo racismo inerente.

É o carro da lição de vida que está passando, freguesia

A pauta principal de “Green Book” é escancarada, por isso o filme faz questão de ir além do óbvio, falando sobre moral, princípios e aspectos essenciais que fazem de nós humanos. É importante perceber que, para tanto, o filme cria uma inversão de papéis, estranhada pelos personagens que cruzam pela dupla e não conseguem conceber a possibilidade de um homem branco ser motorista de um negro.

Apesar do estranhamento por terceiros, os dois protagonistas tratam o tema de forma bem direta e se apresentam abertos ao não ignorar que existem inúmeras questões que separam seus mundos. Num claro duelo de personalidade, que retrata um homem simples e outro culto, podemos ver as diferenças de importância dada a determinadas ações e situações; e ais aqui um trunfo do filme.

Para conseguir dar vasão a tantas pautas, em diferentes ocasiões, a obra se baseia em dois alicerces: direção e roteiro. Primeiro, eu acho importante falar do diretor Peter Farrelly, que é conhecido por ser um cara muito da comédia – principalmente por ser a mente por trás de “Debi e Lóide”. Se a ideia era abordar o tema racial de forma mais leve, a escolha do diretor claramente teve um peso importante.

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O resultado de Farrelly no comando das câmeras é primordial para o sucesso da obra, pois ele consegue colocar duas realidades distintas num mesmo quadro e ainda permite a extração de inúmeras emoções em cenas bem pontuais. Um simples enquadramento dentro do carro nos dá a oportunidade de ver o comportamento dos personagens e suas reações instantâneas a pautas como “frango frito é uma delícia”.

É através de sua visão que também somos impactados com a presença de palco do Dr. Don Shirley e a admiração visível que Tony Vallelonga tem por seu empregador. Não é preciso uma linha de fala, apenas o olhar nos mostra a dinâmica entre eles, bem como a atmosfera venenosa de uma sociedade canalha. Há cenas engraçadas, dramáticas e frustrantes durante essa viagem que tem um destino bem claro.

Atropelando o racismo com bom humor

Para conseguir levar a mensagem com clareza e sem apelar para o velho drama, o trio por trás do script de “Green Book” – o que inclui o dedo de Nick Vallelonga, filho de Tony Lip, que tem conhecimento de causa por ter vivenciado parte da história pessoalmente – usa de inúmeros diálogos para dar dinamismo ao relacionamento empregatício e, posteriormente, de amizade entre os protagonistas.

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O resultado são cenas engraçadíssimas que usam de situações corriqueiras para mostrar as diferenças de percepção de mundo entre os dois. Parte da graça está no jeito característico e avacalhado de Tony Lip, que não levava desaforo para o carro e lidava com as situações da forma mais direta possível – nem que isso resultasse em alguns bate bocas ou em uns bons cruzados de direita na cara da polícia.

Importante mencionar que parte da diversão nessa longa estrada se deve às ótimas atuações de Viggo Mortensen e Mahershala Ali, que entram no personagem de tal jeito que somos totalmente transportados para essa realidade. Mortensen encara uma transformação física e de comportamento bastante impressionante, com um sotaque completamente alheio à sua persona e algumas reações inusitadas.

Da mesma forma, o ganhador do Oscar, Mahershala Ali, nos presenteia com uma performance incrível novamente, encarnando as dificuldades de quem convive em ambientes de opressão e precisa baixar sua cabeça para uma sociedade moldada no preconceito. Apesar de ter sua participação no lado engraçado da história, é Ali que dá o drama e nos faz perceber o peso de cada situação.

Seja com trocadilhos infames, ideias absurdas, discussões sem propósito ou uma simples parada no KFC, “Green Book” consegue levar boas risadas à plateia, sem deixar de lado o importante debate sobre o racismo da época que, muitas vezes, se propaga na atualidade. Um filme necessário e importante para o mundo. Sejamos mais humanos e amáveis, pois a vida só tem graça se compartilhada com nossos semelhantes!

Fonte das imagens: Divulgação/Diamond Films

Green Book - O Guia

Guia rodoviário para sobreviver ao racismo

Diretor: Peter Farrelly

Duração: 130 min

Estreia: 10 / Jan / 2019

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