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Crítica do filme IT – A Coisa

O medo toma as piores formas

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Sexta, 08 Setembro 2017
Fonte da imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures
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A mente humana é suscetível a perigos que nem sempre são reais. Desde a infância, desenvolvemos traumas e medos que, muitas vezes, são ilógicos ou inexplicáveis. É nesta fase que costumamos ter mais medo, principalmente pelo receio de encarar o desconhecido.

Se você, quando criança, via filmes de terror e não ficava com medo, é possível que você seja uma pessoa excepcional. É justamente pela facilidade em assustar garotinhos(as) juvenis, que muitas criaturas e psicopatas se aproveitam para fazer suas vítimas sem ter de elaborar planos mirabolantes.

Há séculos, a polícia de Derry, uma cidade no estado de Maine, tem relatos de crianças desaparecidas, que somem em regiões próximas ao esgoto. Todavia, sem muitas pistas, a justiça simplesmente ignora os fatos, o que deixa a população vulnerável e assustada, mas sem possibilidade de reação diante da ameaça.

É nesta situação de terror, que conhecemos Bill, um menino que pretende investigar o caso após ter seu irmão sequestrado num dia chuvoso. A cena você já conhece: o pequeno Georgie brincava com seu barquinho de papel, que inesperadamente foi parar num bueiro. Ali, ele se depara com a face do medo: um palhaço de maquiagem assustadora, olhos esbugalhados e um sorriso maléfico chamado Pennywise.

Ocorre que o sumiço deste garotinho não foi um caso isolado, mas uma das tantas ocorrências num curto espaço de tempo. Através dos infortúnios, Bill conhece outras crianças que estão em pânico e topam investigar os cantos mais obscuros da cidade para entender com o que estão lidando. Agora, eles precisam de coragem para enfrentar esta coisa que usa de artimanhas para roubar suas almas.

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Esta é a trama básica de  “IT – A Coisa”, filme baseado no best-seller homônimo de Stephen King, o qual já teve uma adaptação para TV lá na década de 1990. Os amantes do gênero de terror sabem da qualidade da obra e certamente devem estar curiosos para ver esta reimaginação do conto. Pois bem, aos curiosos, já deixo uma palavra de alegria: este filme está escabroso de assustador!

Importante notar que remakes são conteúdos que exigem muita criatividade para trazer inovação e surpresas, algo que o time liderado pelo diretor Andrés Muschietti (diretor de “Mama”) conseguiu demonstrar facilmente em várias situações. Sim, ainda há muitas referências ao filme antigo, mas as reconstruções de diálogos e sequências de horror funcionaram muito bem nesta produção.

Faça um dia maravilhoso… Mate todos!

O momento de lançamento do filme também é propício. Com a juventude aplaudindo “Stranger Things”, um longa-metragem que lida com coisas sobrenaturais e tem uma pegada retrô similar vem a calhar. A ambientação na década de 1980 possibilita explorar costumes e tecnologias datados, o que dá substância para uma abordagem simples e mais expressiva do terror em sua forma mais pura.

O filme tanto utiliza recursos vistos no longa antigo quanto apresenta ideias medonhas através de pequenas inserções. A interação entre personagens e objetos, como um projetor ou a televisão, ajuda na composição de cenas criativas. Os truques de Pennywise fazem mais sentido aqui, pois ele passa sua mensagem através de animações, o que facilita a transposição do imaginativo para o real.

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O protagonismo de jovens oprimidos e pouco populares já era conveniente nesta história, mas num momento em que o bullying é debatido com vigor, a mensagem fica ainda mais útil e clara. Aqui, os mais fracos têm o poder, mas eles precisam superar os traumas, que geralmente são reflexos da falta de atuação dos pais ou da desatenção da sociedade para os valentões que impõem medo. A escolha dos atores mirins foi acertada, sendo bem fácil se identificar com cada um deles.

Tão importante quanto tudo isso é a brilhante participação de Bill Skarsgård como Pennywise. O jovem ator pode não ser tão expressivo como Tim Curry, mas ele não tenta ser apenas uma imitação, já que entrega uma nova identidade ao personagem. O palhaço agora parece mais tímido em suas falas e movimentos corporais, porém ele tem uma série de novos truques na manga.

Beep, beep, Georgie

E não é difícil entender o motivo pelo qual os fãs de terror gostam tanto dessa história e do personagem. A verdade é que palhaços são muito misteriosos e, ainda que, no cerne, eles estejam diretamente relacionados ao humor – e consequentemente à alegria –, a maquiagem neutra esconde as nuances dos mistérios que um personagem pode guardar em seu âmago.

Não é preciso mais do que a cena no bueiro para entender como uma face pensada para arrancar gargalhadas pode se transformar num monstro devorador de almas em poucos instantes. Basta um olhar, uma franzida na testa ou uma simples articulação dos lábios para impor o medo em toda uma plateia. É claro que as situações apropriadas, em ambientes escuros, facilitam o choque visual nos espectadores, que são pegos de surpresas.

Importante perceber que “IT – A Coisa” consegue se sobressair ao seu antecessor também por conta de novas tecnologias que permitem uma mutação mais ousada do vilão. O ator Tim Curry teve de se desdobrar para inovar em cada situação no filme antigo, porém o novo longa se aproveita de efeitos gráficos para distorcer a realidade e dar sustos mais ousados.

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A tática do jump scare é usada com parcimônia e a produção se diferencia com novas táticas de suspense e terror. Os medos de cada personagem são usados de forma inteligente para mostrar novas criaturas, o que deixa a obra bem mais convincente. Mesmo que você não tenha medo de palhaços, outros monstros podem fazer seu coração parar por alguns segundos.

A sonoridade expressiva também vem a calhar. Com brilhantismo, a mixagem de som garante diálogos bem marcantes, com a voz do palhaço ecoando na cabeça das crianças, sendo que apenas o barulho da chuva já é suficiente para intensificar o medo. As canções usadas para embalar as cenas funcionam perfeitamente, ainda mais em alguns ambientes assustadores que já nos deixam tensos pelo simples ranger do assoalho.

Este é certamente o filme de terror que os fãs de Stephen King estavam esperando e que deve dar espaço para mais algumas boas adaptações. Talvez ele perca um pouco no sarcasmo diabólico para o título anterior do Pennywise, mas o resultado final é estrondosamente bem medonho. Se você já pirou com as boas ideias de “Invocação do Mal 2”, pode ter certeza que “IT – A Coisa” é uma viagem rumo ao medo que vale a pena.

Fonte das imagens: Divulgação/Warner Bros. Pictures

IT - A Coisa

Você vai flutuar também!

Diretor: Andrés Muschietti

Duração: 135 min

Estreia: 7 / Set / 2017

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