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Crítica do filme Maria e João: O Conto das Bruxas

O Terror toma conta da Fantasia

por
Fábio Jordão

20 de Fevereiro de 2020
Fonte da imagem: Divulgação/Imagem Filmes
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Há muitas formas de contar uma mesma história e nem sempre os fatos serão os mesmos – ainda mais quando há uma subjetividade conforme a narrativa e o protagonismo. No caso de contos clássicos como “João e Maria”, você já conhece a versão tradicional, que é contado a todas as crianças, mas, quando a gente fala em audiovisual, sempre há espaço para uma pitada de inovação.

Agora, se a ideia é levar um conto desses a sério, temos de combinar que uma simples história de duas crianças perdidas na floresta não tem muita substância. Assim, para focar num público mais adulto, é preciso mais do que contar com ideias rasas e a inocência da plateia. Então, em vez de continuar com velhas ideias (ou apenas dar armas aos protagonistas), esta nova pegada visa um lado mais sombrio.

Primeiro, temos uma mudança drástica no tom, que deixa de lado a fantasia e passa a ser um retrato mais realista. Além disso, essa nova adaptação (se é que pode ser chamada assim, já que ela foge bastante do trivial) altera muito a sequência da história ao mudar o protagonismo. Aqui, Maria é a irmã mais velha e toma as decisões, de modo que isso justifica também a alteração no título do filme.

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O enredo segue uma premissa similar, mas há uma contextualização mais elaborada. Durante um período de escassez, Maria (Sophia Lillis) e seu irmão mais novo, João (Sammy Leakey), saem de casa para buscar comida e abrigo. No caminho, eles encontram cenas e situações inusitadas, inclusive se deparam com uma casa que pode ser sua salvação ou sua perdição.

E se você quer saber se o filme é bom, mas não quer spoilers ou detalhes da produção, o que posso dizer é que “Maria e João: O Conto das Bruxas” consegue manter um clima de tensão intenso, ao mesmo tempo em que impressiona visualmente. Não se trata de um filme muito assustador, então não espere demônios saltando na tela, porém ele é bem misterioso e leva a gente numa jornada perigosa pela imaginação.

Os mistérios da floresta

No todo, a história de “Maria e João” é muito distinta da habitual, mas há vários elementos que obviamente vão fazer alguma conexão com o imaginário do público que já tem uma noção de cenário e possíveis situações de apuros que os protagonistas enfrentarão nesta jornada na busca pela sobrevivência.

Poderíamos nos perguntar como a diferença de abordagem no roteiro poderia criar um impacto tão distinto, mas no fundo não se trata de uma história totalmente assustadora. O ponto é que essa nova adaptação abusa de detalhes simples, mas que são muito funcionais num projeto que visa passar uma sensação amedrontadora.

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Em vez de simplesmente “jogar” criaturas bizarras na tela, o script Rob Hayes opta por uma construção lenta, que usa muitos recursos de suspense para ampliar o medo infligido aos personagens, que, naturalmente, é repassado à plateia. Um barulho no meio da noite, um vulto entre as árvores, uma oportunidade fácil que cria dúvidas.

A cada instante, o roteiro do filme brinca com diferentes perigos deste mundo perigosos e assustador, ainda mais para dois protagonistas tão jovens. E, aos poucos, o filme vai construindo a sensação de perigo e transformando um ambiente que poderia ser alegre em algo insano e sem muito direcionamento. Tudo pode acontecer, ainda mais quando a sanidade está em jogo.

Uma floresta encantadoramente terrível

Para dar essa amplitude do terror inusitado, o filme dirigido por Oz Perkins (que já fez o filme de terror “O Último Capítulo” na Netflix) abusa de algumas cenas astutas. As câmeras posicionadas estrategicamente para deixar o ambiente mais imersivo, a fotografia pensada para usar silhuetas como gatilhos ao imaginário e os cenários amplamente hostis são convidativos para esse clima de tensão.

E para quem gosta de filmes do gênero, “Maria e João: O Conto das Bruxas” se revela um projeto muito charmoso, pois ele aposta na ambiguidade, ao mesmo tempo em que se mostra muito honesto em sua proposta. Às vezes, uma coisa que parece algo não é necessariamente o que você pensa, porém, o filme não faz muitas afirmações, deixando o público imaginar os possíveis – e terríveis – desdobramentos da história.

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Curiosamente, mesmo sendo mais voltada ao suspense e terror, esta é uma obra que não aposta no trivial, de modo que temos algumas cenas claramente criadas para deixar o filme mais bonito. Luzes impossíveis no meio da floresta, um colorido que cria um ambiente mais confortável para as trevas, efeitos competentes e uma trilha sonora eletrônica caprichada (que mais parece sair de Blade Runner) criam uma dualidade.

E é nesse mundo incrivelmente polido, que acompanhamos a história principal, que nem sempre é a prioridade. O roteiro trabalha muito com a atmosfera, mas não faz questão de dar muitos detalhes sobre o universo dessa nova versão do conto. Isso é obviamente um deslize e pode decepcionar os fãs mais fervorosos que tenham expectativas de ver um filme inusitado. Então, mantenha a calma.

A parte boa é que temos duas ótimas atrizes no jogo de gato e rato: Sophia Lillis e Alice Krige. Ótimas atuações, maquiagem e figurino de acordo com a ambientação, e diálogos que vão dando liberdade para as duas estrelas brilharem neste jogo perverso. Particularmente, eu achei muito bom o rumo proposto pelo roteirista, mas eu sei que nem todo o público enxergará a graça em meio à neblina de dúvidas.

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O que dá para concluir é que “Maria e João: O Conto das Bruxas” bebe da fonte de alguns filmes de terror recentes (como “A Bruxa”), não que ele tente plagiar, mas há uma inspiração evidente, bem como tenta criar sua identidade ao trazer referências artísticas de outras obras distintas (como “Mandy”). Um projeto audacioso, que talvez não seja o mais incrível que poderíamos imaginar, mas que agrada no todo e abre as portas para grandes sonhos de terror.

Fonte das imagens: Divulgação/Imagem Filmes

Maria e João: O conto das Bruxas

Um conto de fadas... e demônios

Diretor: Oz Perkins
Duração: 87 min
Estreia: 20 / Fev / 2020

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