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Crítica do filme O Caseiro

Suspense com aspirações sobrenaturais

Lu Belin

por
Lu Belin

Quinta, 23 Junho 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Nexus 7
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Bruno Garcia é Davi, um professor de psicologia que ficou famoso por desmistificar um caso de aparições sobrenaturais usando a psicanálise. Afastado da prática clínica e dedicado à sala de aula, ele é abordado pela estudante Renata, que precisa de ajuda para compreender fenômenos estranhos que vêm acontecendo com sua família.

Com a curiosidade instigada pela história da jovem, Davi decide viajar à cidade natal dela para investigar as ocorrências. Essa é a base do roteiro do suspense brasileiro “O Caseiro”, dirigido por Julio Santi e escrito pelo diretor em parceria com João Segall.

O filme faz parte de um gênero pouco explorado no cinema nacional que chega ao grande público, mas que é bastante vivo na cena independente, e explora um universo de suspense que transita entre o terror e o sobrenatural. Isso porque, quando chega à propriedade onde vêm acontecendo os tais fenômenos estranhos, o protagonista vai aos poucos descobrindo fatos do passado da família e do sítio, entre eles a história de um antigo caseiro que ali vivia e que cometeu suicídio. 

Logo que chega ao local, Davi é apresentado ao pai de Renata, Rubens, e às demais moradoras da casa – as meninas Lili, Julia e Gabi, além da tia Nora, que ajuda na criação das filhas de Rubens, desde a morte da mãe. Aos poucos, ele vai descobrindo detalhes do passado da família e da propriedade que vão ficando cada vez mais escabrosos.

Um roteiro bem pouco brasileiro

Não fosse pelos atores falando em português, o longa “O Caseiro” talvez passasse por um filme estrangeiro, já que segue uma estrutura de narrativa muito próxima da historinha padrão de produções como as norte-americanas, por exemplo.

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Apesar disso, o roteiro também poderia bem ser inspirado em um dos mistérios sobrenaturais que nos atormentaram nas noites de Programa do Ratinho, com o plot de “tem algo muito estranho acontecendo aqui, quero ver quem explica”. O fato é que, para os mais versados, o roteiro pode parecer bastante óbvio. Mesmo assim, funciona bem e, no geral, é bem executado.

A trilha sonora original e brasileira ajuda, com alguns sons já consolidados em outras obras de suspense. Elevações de volume nas cenas mais tensas e o uso de silêncio para aumentar o mistério são características marcantes. Destaque para o bom uso do som ambiente e recursos sonoros de suporte, que entram pontualmente na trama, causando impacto na plateia.

A fotografia foi pensada para que o público se sinta vendo um filme norte-americano e a maior parte dos cenários não deixa evidências de que o longa se passa no Brasil. Contribuem para isso os ambientes internos, trabalhados com minuciosidade de detalhes desde a ausência de elementos que denunciam a nacionalidade do filme até a paleta de cores - que pende mais para os tons de cinza e sépia -, além das cenas externas, em que o uso de recursos como a neblina ampliam a sensação de tensão.

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Por outro lado, o longa deixa a desejar no quesito "efeitos especiais", que nem de longe possuem a mesma qualidade e atenção dedicadas à composição da arte. Mesmo que o filme não se apoie nesse aspecto, alguns desleixos decepcionam os espectadores mais preciosistas e jogam contra o clima de suspense que já havia conquistado espaço com outros elementos.

Elenco, onde os nacionais empacam

O Brasil tem uma gama enorme de atores que atuam prioritariamente no cinema, muitos deles incríveis e com talentos já mais do que comprovados. Ainda assim, as atuações deixarem bastante a desejar parece ser uma característica recorrente nos filmes nacionais.

No caso de “O Caseiro”, este é um dos pontos que pesa para que o filme decepcione um pouco. Nomes experientes como o de Leopoldo Pacheco, o Rubens, mantêm seu padrão de qualidade de atuação, mas de maneira geral são interpretações sem grandes emoções e pouco convincentes. Especialmente do ator Bruno Garcia, que talvez não tenha sido a melhor escolha para o protagonista Davi.

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A própria natureza dos diálogos e da construção das falas talvez seja o motivo pelo qual o entrosamento entre os personagens e as intrepretações não sejam tão verossímeis. O texto, que possívelmente funcionaria muito bem no inglês, acaba soando um pouco forçado no nosso idioma. É quase como se alguns trechos tivessem sido pensados em inglês.

Independente de ser um problema do elenco ou das falas, há várias sequências que ganham destaque pela atuação das crianças. Bianca Batista manda bem no papel de Julia, mas Annalara Prates arrasa muito como Lili. Ambas estão super à vontade nos papéis e conseguem representar com bastante naturalidade.

Dirigir crianças não deve ser lá muito fácil, convenhamos, então palmas para o diretor, que conseguiu conduzir muito bem as pequenotas. Julio Santi, inclusive, faz um belo trabalho de maneira geral. Com apenas dois trabalhos dirigidos até então – o longa “O Circo da Noite” e o curta “Bathtub Policy” –, é um nome que é bom guardar na memória, acho que vamos ouvir muito sobre ele no futuro.

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É sempre muito bacana ver jovens talentos despontando no cenário nacional e fugindo um pouco daquele gênero que ninguém aguenta mais representando o Brasil nas telonas. “O Caseiro” é um grande passo nesse sentido: é um filme que chega aos principais cinemas do país levando algo de diferente do que estamos acostumados e representando muito bem o nome do país.

E este é o outro motivo pelo qual vale a pena ver “O Caseiro”, além do fato de ser um bom filme: para valorizar e incentivar essa mudança na cultura cinematográfica brasileira e mostrar que filmes de outros gêneros além da comédia escrachada e sem graça também podem conquistar o grande público. Se não valorizarmos o que é nosso e é bom, quem vai?

Fonte das imagens: Divulgação/Nexus 7

O Caseiro

Ele não acredita mais em nada

Diretor: Julio Santi
Duração: 103 min
Estreia: 23 / Jun / 2016

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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