Crítica do filme O Diabo Branco

Terror argentino com estilo próprio

por
Fábio Jordão

09 de Agosto de 2021
Fonte da imagem: Divulgação/Pandora Filmes

Até algum tempo atrás, os grandes blockbusters de Hollywood ditavam o rumo dos filmes em boa parte do mundo, afinal, se funciona com produções americanas, as mesmas ideias podem garantir o sucesso de outros projetos independente da nacionalidade, certo?

A história nos provou que a coisa não é tão simples. O ponto é que muitos títulos americanos só explodiram em bilheterias por dois motivos: elencos famosos e uma distribuição muito bem planejada. Esse argumento fica ainda mais evidente quando pegamos o segmento de filmes de terror, que a própria Hollywood faz o caminho inverso: remakes a partir de obras estrangeiras.

Assim, é bom quando vemos cineastas independentes indo na contramão. É o caso de Ignacio Rogers, diretor e corroterista de “O Diabo Branco”, filme argentino — e parte brasileiro — que chegou nesta semana aos cinemas brasileiros. Trata-se de uma obra humilde se comparada aos padrões americanos, mas que tem seu valor pela ousadia na proposta.

Na história, acompanhamos um grupo de amigos que viaja de carro pelo interior da Argentina, com o objetivo de passar um fim de semana num local aconchegante e próximo da natureza. No entanto, eles não imaginavam que este poderia ser um passeio um tanto perigoso, algo que vão descobrir ao cruzar com um misterioso homem na pousada.

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Longe de ser uma história inovadora ou com uma execução impecável, “O Diabo Branco” se mostra muito pé no chão e não tende para os truques baratos de filmes de terror. Há aqui uma ótima ideia, que com o devido amadurecimento de roteiro e uma verba maior poderia se tornar em um projeto grandioso. Ainda assim, é um bom filme. Vamos falar mais a seguir!

Histórias que já ouvimos

Se você já morou em uma cidade do interior, tem parentes em algum vilarejo afastado ou simplesmente mora no planeta Terra, há grandes chances de você já ter ouvido histórias assustadoras sobre “visagens” ou outros bichos que peregrinam em meio à mata. A grande maioria não tem pé nem cabeça, mas o telefone sem fio sempre fez as lendas circularem.

No mundo da ficção, a coisa não é diferente, sendo que há filmes com os mais variados tipos de contos de terror. Como o próprio nome sugere, a história aqui fala de um “Diabo Branco”, algo que pode ser figurativo ou até verídico — vou deixar isso em aberto para você não ter a surpresa quando assistir ao filme.

O ponto é que “O Diabo Branco” lida com coisas macabras, que incluem pessoas esquisitas (que pode ser apenas gente mal-encarada, mas que também pode ser gente do mal), muita coisa visceral e um flerte com o inexplicável. Esse é o tipo de filme que faz a plateia ficar até o fim da projeção ficar se questionando: mas é real ou os personagens estão vendo coisas?

Fato é que a trama é simples: uma viagem para repouso, coisas assustadoras nos arredores da pousada, um povo que não é muito comunicativo, pessoas sumindo, perseguições em meio à mata e um clima de que tem muita coisa errada. Junte a isso protagonistas bem reais (ainda que sejam atores, temos personagens menos caricatos) e o isolamento no meio do nada.

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Aliás, uma pausa. Um dos jeitos mais fáceis de fazer filmes de terror atualmente é levar o rumo da história para locais em que a comunicação com o mundo externa seja quase inexistente, bem como em situações que as pessoas fiquem sem seus aparatos tecnológicos. Tudo isso amplia o senso de impotência e deixa a coisa mais medonha.

A receita acima é ideal para um terror típico de filmes recentes como “A Bruxa” ou “Hereditário”. Cada um tem suas propostas, mas todos tem vários desses elementos em comum. Não que “O Diabo Branco” tenha grande relação com alguma das obras citadas, mas talvez não esteja tão longe também. Vou deixar em aberto para você descobrir.

Terror simples, mas esforçado

O roteiro pode ser importantíssimo para um filme de mistério, mas ele talvez seja apenas metade do trabalho. Como boa parte da experiência está atrelada à execução das ideias, é preciso ter genialidade na forma de filmagem, principalmente em como aparições vão ser introduzidas em cena e como os personagens vão encarar quaisquer que sejam os perigos.

Apesar de ser um filme planejado para uma atmosfera de terror em meio à mata, há diversas cenas que ocorrem em ambientes fechados e mais “caseiros”. É nítido que essas situações foram desafiadoras, pois o filme foca muito mais na reação dos personagens e faltou coragem para colocar as criaturas mais assustadoras do filme em primeiro plano.

Além disso, não é de hoje que a floresta é um cenário convidativo para o desconhecido, assim uma trama ambientada neste tipo de local garante espaço para a criatividade. Por outro lado, este tipo de situação dificulta a parte operacional, já que é preciso ter equipamentos de ponta para filmar no escuro, bem como um capricho extra para conseguir surpreender nos sustos. 

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A verdade é que “O Diabo Branco” não pretende ser o tipo de filme que apela para técnicas de jump scare, mas que assusta pelo exagero de sangue, pelo mistério em torno da lenda e pelo desconhecido. Tudo isso existe aqui, mas talvez não de forma tão caprichada, de forma que o diretor parece até optar por cenas mais distantes para não evitar mostrar muito a maquiagem.

O elenco num todo apresenta boas interpretações e, felizmente, diferente das obras americanas, aqui temos personagens muito mais críveis, com diálogos que parecem de verdade. Não se trata de algo amador, mas de uma condução bastante inteligente, para evitar frases de efeito e coisas toscas que são comuns em filmes do gênero.

No todo, “O Diabo Branco” é um filme bom de terror, com boas ideias e trilha bem instigante. Contudo, além dos efeitos rasos e a falta de ousadia, o filme sofre com uma história pouco desenvolvida. A impressão que fica é que faltou mais explicações dessa lenda da floresta. Uma boa iniciativa do terror latino-americano, mas há espaço para futuras melhorias.

Fonte das imagens: Divulgação/Pandora Filmes

O Diabo Branco

Você pode correr, mas não pode se esconder

Diretor: Ignacio Rogers
Duração: 83 min
Estreia: 5 / Ago / 2021

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