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Crítica do filme O Escaravelho do Diabo

Muita nostalgia e poucas surpresas

Lu Belin

por
Lu Belin

Sexta, 22 Abril 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Downtown Filmes
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A Coleção Vaga-Lume tem o mérito de ter despertado o interesse de toda uma geração pela literatura. Por isso, quando a Downtown Filmes anunciou a adaptação para o cinema de um dos títulos mais clássicos da Coleção, O Escaravelho do Diabo, de Lucia Machado de Almeida, uma legião de fãs de literatura infanto-juvenil de suspense ficou alvoroçada. 

Dirigido por Carlo Milani, o longa conta a história do menino Alberto (Thiago Rosseti), que presencia o desenrolar de uma série de assassinatos na pacata cidade de Vale das Flores. Tudo começa quando Hugo (Cirillo Luna), irmão do protagonista, recebe por correio uma caixa contendo um escaravelho. O inseto acaba sendo o prenúncio do assassinato do rapaz, que tem em comum com as próximas vítimas a cor do cabelo: ruivo. 

Os crimes passam a ser investigados pelo delegado Pimentel (Marcos Caruso), um veterano excêntrico da polícia da cidade, com uma abordagem curiosa e uma personalidade bastante característica. 

Boa composição, atuações fracas

O primeiro ponto que chama a atenção em O Escaravelho do Diabo é o casting – e é aí também que está o principal erro. O jovem Thiago Rosseti (da novela Carrossel), está bem longe de ser a escolha ideal para o papel de Alberto. Além de bastante novo, não parece casar bem com o personagem e deixa bastante a desejar na qualidade de atuação. 

O Escaravelho do Diabo

Marcos Caruso vai bem na pele do Delegado Pimentel e a grande surpresa é Bruna Cavalieri, no papel da ruivinha Raquel Marcos, amiga de Alberto. Apesar de ser também muito jovem, a atriz-mirim desenvolve muito bem a personagem e demonstra um talento que poderá levá-la muito longe na carreira. 

Para além destes três personagens mais importantes, o longa traz nomes de pouca projeção e atuações bem regulares e pouco marcantes. A isso se soma uma trilha sonora que beira o óbvio, com evoluções de som para marcar os momentos de tensão, e algumas boas surpresas – várias músicas brasileiras, por exemplo, foram escolhidas para compor a trilha. 

Apesar disso, o filme é dirigido de forma bastante aceitável e traz alguns recursos bem aproveitados. Utilizam-se, por exemplo, gráficos que dialogam com a história e com o imaginário dos personagens. Isso foge um pouco da construção padrão das produções brasileiras e diversifica a narrativa de um jeito bem interessante. 

A fotografia do filme também é bonita, com boas locações e cenários simpáticos, coloridos e bem brasileiros, o que confere uma identidade única à produção.

Adaptações sem sentido

Levar uma obra literária querida pelo público para outra plataforma, como o cinema, é sempre um desafio com chances de terminar com a clássica crítica: “ah, mas o livro é muito melhor que o filme”. É muito difícil corresponder à imagem que o leitor construiu no próprio imaginário, então desagradar o público fã do texto original é um risco que se corre. 

Particularmente, acredito que são plataformas diferentes com características e linguagens específicas e que uma mesma história pode ter resultados satisfatórios com as devidas adaptações para cada uma delas. No entanto, no caso de “O Escaravelho do Diabo”, alguns ajustes feitos à história original não apenas não fazem sentido como trazem algumas complicações para o roteiro. 

O Escaravelho do Diabo

A primeira delas é a idade dos personagens, especialmente do protagonista, que foi rejuvenescido. Enquanto no livro Alberto é um estudante de medicina, no filme ele é apenas um adolescente em idade escolar. Embora pareça uma mudança leve, ela confere à história um ar que circula entre Chiquititas e Carrossel, e não o suspense envolvente do texto de Lucia Machado de Almeida. 

Atualizar a história para que se passe no momento atual também é algo que não agrega nada à produção. Ao incorporar tecnologias como telefones celulares, tablets e diálogos via chamada de vídeo, o longa parece passar por uma tentativa de modernização de uma história que não condiz com alguns aspectos essenciais ao bom andamento do roteiro: o uso de arquivos de papel pelo vendedor de antiguidades, o envio de materiais via correio, entre outros. 

Ao longo do filme, várias outras pequenas mudanças são percebidas – como o nome da cidade de Vista Alegre, no livro, para Vila das Flores, por exemplo. Embora não prejudiquem a história, também não se justificam.

Potencial pouco aproveitado

Li O Escaravelho do Diabo quando estava no ensino fundamental, aos 13 anos. No auge da adolescência e fã de obras de ação, suspense e mistério que era, me empolguei muito com a história instigante – tanto que devorei o livrinho da Coleção Vagalume em uma tarde. E aí é muito difícil não se decepcionar um pouco com a forma como o filme foi conduzido.

O Escaravelho do Diabo

Nostalgias à parte, convenhamos que o plot do longa tem bastante potencial. No entanto, esse potencial não foi muito bem utilizado e o resultado é um filme com aquela ambientação um pouco Malhação, um pouco novela das nove, com uma pitadinha de humor Zorra Total. 

Com uma ou outra exceção, nas quais atrai a atenção para as cenas de suspense ou desperta o riso do público, O Escaravelho do Diabo é uma sequência de cenas óbvias e pouco surpreendentes, intercaladas com alguns momentos de humor sem graça e atitudes nonsense dos personagens. 

Até mesmo o vilão, que tem um background interessante e que poderia proporcionar um ótimo desfecho para a história, é explorado de uma forma que apaga todo o seu potencial.

Para quem é fã do livro, vale a pena ver o longa – nem que seja pra resgatar um pouco o carinho pela Coleção Vaga-Lume e relembrar essa história que marcou a adolescência do início dos anos 2000. Para quem não guarda essa relação de nostalgia, O Escaravelho do Diabo até distrai, mas sem grandes surpresas.

Fonte das imagens: Divulgação/Downtown Filmes

O Escaravelho do Diabo

Phanaeus ensifer

Diretor: Carlo Milani
Duração: 102 min
Estreia: 14 / Abr / 2016

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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