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Crítica do filme O Lagosta

Mergulhado nas profundezas da bizarrice

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Segunda, 06 Março 2017
Fonte da imagem: Divulgação/Sony Pictures
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Qualquer filme que se proponha a questionar nossos moldes de sociedade merece um mínimo de atenção. Mesmo quando o roteiro pende para uma ficção pouco crível, há a possibilidade de encontrar tópicos para debate, algo que se prova verdadeiro com o indicado ao Oscar, "O Lagosta".

Na obra escrita originalmente para as telonas por Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou, somos levados para um futuro em que muitas pessoas estão fadadas à solteirice. Nesta realidade, todas devem passar um período de 45 dias em um hotel, onde têm a chance de encontrar suas caras-metades.

Todavia, no caso de não encontrar um parceiro, os solteiros são transformados em animais e levados para uma floresta. É neste ponto da história que acompanhamos a jornada de David (Colin Farrell), um homem que perdeu a esposa e foi parar nesta situação inusitada.

Já pensando no pior, com a certeza de que não encontrará o amor de sua vida e sabendo das regras complexas do hotel, ele está decidido a virar uma lagosta, pois o crustáceo vive até os 100 anos. No entanto, há uma série de pormenores que podem complicar sua estadia, incluindo a rotina de caça e os demais hóspedes, que são pra lá de esquisitos e podem interferir em seu destino.

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Parece bizarro? Sim, é mais do que bizarro. No entanto, esse prelúdio é apenas o pontapé para a trama sem pé nem cabeça, que, apesar de ter boas sacadas cômicas e algumas analogias para reflexões, se mostra pouco convencional e um tanto questionável. Não é um título para qualquer um e certamente tem alguns tropeços no desenvolvimento que podem deixar o espectador um tanto decepcionado com esse futuro alternativo.

Falta embasamento e coerência

Ainda que de forma inconsciente, você é condicionado desde pequeno a acreditar no amor, nos relacionamentos, na vida a dois e, claro, no casamento. Essa tradição - presente em várias religiões, culturas e nações - é a base para o desenvolvimento de "O Lagosta". Até aí, nada de extraodionário, já que o mundo praticamente impõe tais conceitos com a maior naturalidade e as pessoas aceitam sem problema algum, ainda que exista sempre a chance de ir na contramão.

Assim, é importante comentar que o roteiro de "O Lagosta" tem uma premissa bastante relevante, que dá espaço para dialogar características intrinsecas da sociedade. O problema mesmo é a falta de esclarecimento na forma como a ficção é conduzida, de modo que o espectador logo se vê perdido nos caminhos da floresta que rodeiam o hotel e que dão espaço para outras pautas completamente alheias ao cerne da história.

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Tão logo o filme ganha a atenção do espectador com uma boa dosagem de mistério em torno do hotel, há uma guinada no roteiro que leva o desenrolar da coisa para uma abordagem bastante diferenciada e, apesar de bem próxima do tema principal, um tanto desconexa da base da trama. Logo, o filme de um grande suspense com uma pegada dramática vira um romance com pitadas de loucura.

O roteiro basicamente desanda depois de um terço de execução e divaga em outras terras que não entregam explicações sobre esse futuro de solteirões que são obrigados a casar. É nessa ideia de continuar com reflexões vagas sobre o amor, já que elas dependem muito da interpretação do espectador, é que o "O Lagosta" não explica o básico, incluindos os porquês, comos, ondes e outros detalhes pertinentes para a ficção funcionar de forma redonda.

Perdido entre a reflexão e a ficção

Apesar de bem executado, com uma fotografia invejável, o filme peca ao entregar uma narrativa repetitiva e pouco funcional. A voz em segundo plano que apresenta a vida de David funciona para uma orientação geral, mas, depois de um tempo, se mostra impossível e até cansativa. Da mesma forma, a trilha sonora (genial em sua composição) exagerada no tom de suspense não é compatível com as cenas apresentadas.

As atuações funcionam por conta do roteiro bizarro, mas não há nada de expressivo ou chocante. A opção de mostrar a falta de sentimentos numa realidade fria impede que os atores, por mais competentes que sejam, desempenhem o seu melhor. A verdade é que dava para trocar muitos deles por cones e teríamos a mesma história. Talvez trocar o Colin Farrell por uma Lagosta até daria mais certo, diante de tanta viagem no roteiro.

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No fim, parece que "O Lagosta" tem múltiplas histórias. Ele quer contar uma única história com diferentes abordagens, quer apresentar uma ficção e deixar espaço para a reflexão, quer ser uma comédia e também um longa-metragem com muitos mistérios. Essa indecisão na abordagem soa muito bizarro, ainda mais com os problemas de coesão, que certamente deixam o espectador mais perdido do que barata tonta.

Alguns desiludidos do amor podem até encontrar aqui uma obra genial, "que finalmente acerta na ferida e mostra como a cegueira romântica pode ser o fim do mundo", mas a verdade é que, tirando os góticos suaves e grandes filósofos detentores de todo o conhecimento sobre sentimentalismo, aqueles que buscam um filme mais inteligível e menos reflexivo não vão encontrar aqui uma grande obra. Quem sabe numa próxima, quando todos formos lagostas...

Fonte das imagens: Divulgação/Sony Pictures

O Lagosta

Uma história de amor pouco convencional

Diretor: Yorgos Lanthimos
Duração: 119 min
Estreia: 26 / Fev / 2017

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