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Critica do filme O Mistério de Silver Lake

O mistério faz tudo valer a pena?

por
Carlos Augusto Ferraro

19 de Dezembro de 2020
Fonte da imagem: Divulgação/Diamond Films
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Depois do interessante, Corrente do Mal, David Robert Mitchell segue intrigando audiências com sua nova produção e mostra que tem tudo para se tornar um dos diretores “fetiche” daquele seu amigo “cinéfilo cult”. Com aspirações “Lynchnianas”, o diretor e roteirista cria um bom neo-noir em “O Mistério de Silver Lake”, que prende a atenção mesmo que deslizando em exageros surreais e a ausência de uma edição coerente.

Sem pedir desculpas pelo seu estilo, Mitchell pode até se perder dentro da própria teia conspiratória que guia a —  desnecessariamente longa — trama da película, mas ainda consegue entregar um filme envolvente que entrará no catálogo de “pérolas cult” da próxima geração de hipsters. Por sinal, a própria percepção desta afirmação como crítica ou elogio ao trabalho do diretor é justamente parte do seu apelo, e um ótimo indicador de seu estilo singular, que não pretende agradar a todos.

Enquanto Michell tenta coordenar a sua orgia metalinguística surreal, Andrew Garfield entrega uma das melhores atuações da carreira, em um movimento que desconstrói a sua imagem de gala, e se transforma em uma grande sátira a quintessencia hollywoodiana que o define, tanto como ator e personagem.

Em “O Mistério de Silver Lake”, David Robert Mitchell acerta mais do que erra, no entanto, seus defeitos prejudicam muito o desenvolvimento do filme, com um roteiro deliberadamente confuso, que mistura elegantemente elementos da cinematografia dos irmãos Coen e David Lynch, e uma edição pouco inspirada, além da longa duração, deixam o filme lento e pouco acessível, mas uma boa escolha para fãs do gênero e/ou de cinema autoral.

Qual é o mistério, velhinho?

Sam é o arquétipo hollywoodiano falido, um cara que aparentemente não trabalha, mas tenta manter a aparência com um carro estiloso, um apartamento repleto de memorabilia vintage, e um círculo de amizades povoado por pessoas com mais aporte financeiro que ele. Um dia, entre baseados, sexo casual e pequenas doses de voyeurismo, um breve flerte com a sua vizinha Sarah (Riley Keogh) acaba rendendo muito mais do que a ilusão de um romance cinematográfico. Antes mesmo que poder celebrar a conquista, Sam descobre que Sarah desapareceu durante a noite, sem qualquer indício de como ou porque.

Em meio a suas desilusões existenciais, ou como forma de reprimi-las, Sam embarca em uma missão de encontrar a “garota dos sonhos”, adentrando na proverbial toca do coelho que se esconde sob Silver Lake e a própria indústria cultural popular. Conspirações, cultos, figuras estranhas, mensagens escondidas e um assassino de animais de estimação aparecem como nós em um longo "Fio de Ariadne" que não leva até a saída do labirinto.

Sam é a epitome de uma juventude depressiva, incapaz de se identificar com qualquer coisa, que simplesmente se entrega ao destino na esperança de que o universo se alinha e que eles finalmente possam fazer parte de algo maior, mesmo que seja uma conspiração ou um culto. O Mistério de Silver Lake reúne pistas, detalhes, referências que indicam a reposta para o maior segredo do universo, ou não; como a própria vida do protagonista, nada realmente importa ou tem um significado maior.

Meus sentidos de aranha estão tilintando!

A arte do escapismo

Sem a mesma inspiração ou talento de obras como o delirante Barton Fink, o intoxicante Vício Inerente ou o onírico Cidade dos Sonhos, a viagem criativa de David Robert Mitchell celebra a liberdade narrativa apresentada pelos mestres que obviamente inspiram a sua criação, mesmo que não alcance — nem de longe — o mesmo patamar de competência. Ao juntar todas as “peças” do seu quebra-cabeças, Mitchell parece não ser capaz de encaixar elas adequadamente.

David Robert Mitchell mistura cinema de autor e de gênero em um filme inter interseccional

Somando mais acertos do que erros, “O Mistério de Silver Lake” é um filme incompleto. Mesmo que o diretor mostre bons elementos ao longo do seu desenvolvimento, ainda há muito que melhorar. Talvez pela ambição artística, ou pela simples falta de maturidade, Mitchell não demonstra a mesma habilidade que Lynch ou os irmãos Coen para lidar com um roteiro e uma história que necessariamente não leva a "lugar algum".

É fácil vislumbrar um futuro em que David Robert Mitchell e “O Mistério de Silver Lake” se transformem em itens "cult" altamente "fetichizados" por suas reflexões masturbatórias sobre o processo artístico, influencia cultural do entretenimento e o escapismo pelo extraordinário. Todavia, por enquanto, parece que as suas coisas ainda não estão maduras o suficiente.

Fonte das imagens: Divulgação/Diamond Films

O Mistério de Silver Lake

O que eles estãos escondendo?

Diretor: David Robert Mitchell
Duração: 139 min
Estreia: 19 / Nov / 2020

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