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Crítica do filme O Orfanato

Atmosfera de terror ou terror de atmosfera?

por
Levi Merenciano

17 de Dezembro de 2020
Fonte da imagem: Divulgação/Wild Bunch
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El Orfanato” (The Orphanage, 2007) é um dos poucos filmes que nos faz lembrar o momento plot twist do clássico “O Sexto Sentido”. Veja como a ótima parceria do diretor J. A. Bayona com a coprodução de Guillermo del Toro é capaz de concretizar em termos de suspense, quando se trata de terror de atmosfera, com pitadas Hithcockianas e captação de som envolvente.

Sabe aquele frio na espinha que temos ao assistir o clássico “O Sexto Sentido”? Pois é, com “O Orfanato” (título em português), acredito que temos um efeito tão ou mais surpreendente nos segmentos finais (sim, apesar de o andamento assustador nos prender, vocês podem criar expectativa para o final, pois, a mim, agradou muito quando me dei conta sobre a descoberta de Laura, a protagonista do filme).

Com produção executiva de Guillermo del Toro (que havia recentemente dirigido “O Labirinto do Fauno”, Pan’s labyrinth, 2006), e com direção de J. A. Bayona, a produção consegue misturar muito bem uma atmosfera de thriller (com muita tensão a todo momento, o que é difícil de se manter em filmes do gênero), trabalhar com jump scares bem pontuados, que acontecem em momentos certos e, para fechar, um som ambiente que nos faz pensar estarmos em um mundo de sonhos (pois tem uma reverberação estranha, em eco, imersiva).

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Em geral, o filme produz uma atmosfera que passa pelo crivo da protagonista e dessas mesmas impressões se vale para produzir um misto de signos complexos, como realidade e ilusão, loucura e paranormalidade, junto a traumas e a uma gratidão que a protagonista vai respeitar, mas a respeito da qual não saberemos se chegará a seus desígnios.

Loucura sob um viés ambíguo

A temática da gratidão, de cara, nos faz simpatizar com a protagonista. Laura foi criada em um orfanato para crianças deficientes. Ao crescer e se casar, ela e seu marido, o médico Carlos, resolvem adotar uma criança soropositiva, Simón. Para completar o desejo de Laura, compram uma mansão, que foi o mesmo casarão em que Laura fora educada.

Lá, fazem uma festa especial para Simón, convidam a vizinhança para que conheçam o lar de Laura, com vagas para crianças especiais (lembrem-se que o sonho de Laura envolvia a gratidão pelo local), e, a partir da festa, coisas estranhas acontecem, sobretudo o sumiço de Simón nos segmentos iniciais (não é spoiler, é bem no começo), que fará ligação com fatos passados acontecidos no orfanato.

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Com poucos personagens (além dos três citados, há mais três personagens paranormais e uma psicóloga - aliás, fato curioso: entre eles está Edgar Vivar, o Seu Barriga do Chaves), a trama alterna entre a localidade da casa e uma praia próxima, com foco em uma caverna sinistra, próxima à enseada, lugar que dá início ao mistério da trama.

A partir disso, o terror de “O Orfanato” será elaborado a começar pelo passado dessa casa, que se constrói de momentos os quais Laura lembra aos pedaços, em que aos poucos vai remendando um quebra-cabeça mental. A sua aparente confusão mental é revelada à medida que se revela a sua infância no local, pois ela sempre teve que tomar psicotrópicos (no filme, percebemos aos poucos que ela teve problemas mentais, e essa ambiguidade entre estar sã ou revivendo algo do passado reflete-se na maneira com que lida com o marido e com o sumiço do filho.

Um terror normal, paranormal ou além do normal?

Enfim, os dois locais onde se passa a maioria da história (na casa e nas cavernas à beira-mar) constroem também a temática da paranormalidade, tendo em vista que o thriller nos faz ficar divididos entre a realidade, a aparição de seres estranhos e a loucura, até os momentos finais.

Embora a paranormalidade seja parte da temática principal, a ambiguidade que separa a sanidade da loucura perpassa o plot desse filme, uma vez que não sabemos se vivemos a loucura de um personagem, se a insanidade apossou-se de todos ou se há uma maldição no local (em um dos momentos, até a ciência psicológica e a crença paranormal entram em conflito para averiguar o que se passa de fato naquela casa, um antigo orfanato misterioso para crianças especiais).

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O Rotten Tomatoes concede 87% em média tanto pela crítica quanto pelo público (concordo com o Rotten, pois eu concederia entre 8 e 8,5). O site IMDB, sempre mais exigente, concede 7,4, também uma ótima nota a esse tipo de filme, que mistura terror, atmosfera e um excelente drama sobre a compreensão da loucura e de si próprio.

O mérito desse filme está na construção da atmosfera de tensão, semelhante aos primeiros filmes de M. Night Shyamalan, sobretudo “O Sexto Sentido”, pois os sustos são dosados e a construção da tensão mantém-se em todos os segmentos. Que bela contribuição fez Guillermo del Toro na coprodução executiva desse filme, aliás, pouco visto a quem pergunto, por isso, sempre gosto de indicá-lo, pois é um filme além do normal, que faz bela contribuição ao cinema do subgênero terror de atmosfera.

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Fonte das imagens: Divulgação/Wild Bunch

O Orfanato

Um conto de amor, uma história de terror

Diretor: J.A. Bayona
Duração: 105 min
Estreia: 7 / Mar / 2008

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Levi Merenciano

Se eu fosse 10% do Ryan Gosling, tava bom! Levi Henrique Merenciano é linguista e semioticista, aficionado por cinema e games. É dono do canal Cinessemiótica, página especializada em indicação de filmes cults, documentários e lançamentos.

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