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Crítica do filme O Primeiro Homem

Uma odisseia dramática e asfixiante

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Terça, 27 Novembro 2018
Fonte da imagem: Divulgação/Universal Pictures
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O fascínio do homem pelo inexplicável não vem de hoje, nem das últimas décadas. Basicamente, tudo que é ciência surgiu da curiosidade do ser humano em poder compreender o universo ao seu redor e dar um sentido à sua existência.

A curiosidade foi a força-motriz para inúmeras descobertas do homem, bem como foi o que deu propulsão à corrida espacial. E quando falamos em viagens para fora da Terra, dois nomes vêm à cabeça: Neil Armstrong e Christopher Nolan – tá, tem o Iuri Gagarin também, mas só para relembrar que “Interestelar” é sensacional.

E ainda que o russo tenha sido o primeiro a sair do planeta, foi Armstrong (estou falando de Neil, não de Louis – apesar de que os dois ficaram famosos por ver nosso mundo de um jeito maravilhoso) que ganhou a fama, principalmente pela influência da NASA e também de sua frase icônica, que repercutiu galáxia afora.

De lá para cá, a exploração espacial ganhou ainda mais notoriedade, sendo que o mundo pôde conhecer melhor a história de Neil Armstrong em 2005, quando James Hansen lançou a biografia do astronauta, conhecida como “O Primeiro Homem”. E foi baseado no livro que tivemos essa adaptação cinematográfica.

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Em suma, este é um filme que retrata um bom trecho da vida de Armstrong (Ryan Gosling), começando pela sua carreira pelo espaço aéreo terrestre, passando pela sua jornada na Agência Americana de Exploração Espacial até chegar em seu ápice: o primeiro passo na Lua.

Todavia, este não é um filme exclusivamente sobre a carreira de Armstrong, mas é também uma obra que tenta retratar a paixão do homem pelo espaço, o impacto na vida do astronauta e também a compreensão da humanidade diante da imensidão lá fora. Um filmaço que deve ganhar projeção massiva na corrida pelo Oscar.

Uma biografia além do homem

Falar sobre Armstrong é uma coisa óbvia, mas é interessante pontuar como é difícil separar o homem do contexto histórico em uma biografia. É claro que este poderia ser um longa-metragem exclusivamente da carreira do astronauta, porém a decisão de levar o script para o ambiente familiar, profissional e até mundial fez muito mais sentido, dado a importância da corrida espacial.

Assim, o roteiro precisa sair do convencional e criar uma verdadeira odisseia, que faça sentido tanto para o desenvolvimento do filme quanto para a atenção da plateia. E olha, para ser sincero, é muito bom ver que esta produção consegue resolver todos os pormenores em pouco mais de duas horas, sem deixar cansativo e ainda nos fazendo refletir sobre a imensidão de dúvidas que temos do espaço e de nós mesmos.

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A história que começa com as ambições de Armstrong não demora muito para abraçar o lado paterno do cosmonauta. Logo, muitos dos dramas pessoais dele refletem claramente em seus sonhos, deixando a película bem mais humana, uma vez que cada situação de preocupação pode representar um perigo gigantesco para uma missão que não é apenas pessoal, mas quase global se pensarmos no sentido mais amplo.

Particularmente, eu fiquei com um pé na Lua e outro na Terra com a atuação de Gosling – e talvez esta era a intenção dele. Ao mesmo tempo em que vemos algumas caras de drama meio indecisas, como se ele não soubesse bem o que está fazendo, também temos ótimas interpretações do ator em ambientes claustrofóbicos. No frigir dos ovos, me parece que ele queria dar esse tom mais humano.

A dúvida sobre Gosling aqui é se o público vai captar isso da mesma forma, numa mistura de quem está com medo, mas com sonhos grandes, ou se as pessoas vão interpretar que ele está com uma cara meio de androide, ainda herdada de Blade Runner. A parte interessante é que as pessoas não têm muita visão pré-concebida de quem era o verdadeiro Armstrong, então no fim quase que tanto faz.

Por outro lado, eu acho válido ressaltar que como a história não fica só na ambição do astronauta e dá espaço para outros personagens. A esposa de Neil (interpretada por Claire Foy) ganha atenção especial e se destaca junto a alguns parceiros de missão, garantindo outras perspectivas da biografia. Assim, talvez Ryan Gosling não foi incrível em todos os momentos, mas a Claire Foy (desculpem a piada).

Pé no chão, mas cabeça na Lua

Ainda que existam inúmeros profissionais por trás de um filme, eu diria que, em aspectos técnicos, temos quatro importantes figuras no caso de “O Primeiro Homem”: o diretor, o diretor de fotografia, o roteirista e o compositor da trilha sonora. Esses caras fazem mágica em vários momentos do filme.

A direção de Damien Chazelle (que a gente já aplaudiu em “La La Land - Cantando Estações”) é incrivelmente polida. Enquanto em sua premiada obra, o cineasta fazia os humanos dançarem em meio as estrelas, aqui ele faz os planetas dançarem enquanto os humanos tentam roubar o protagonismo.

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Os ângulos fechados nas cabines dos módulos espaciais, as cenas que evidenciam as reações do astronauta e as difíceis reproduções da nave no espaço são alguns desafios que o diretor tinha numa produção que até então ele não tinha nada similar, mas que ele tira de letra e mostra que aprendeu bem com outros cineastas. Em vários momentos, o filme é bastante angustiante e nos deixa sem ar, algo que vem a calhar.

Aproveitando seus brothers do último projeto, Chazelle chama Linus Sandgren para a parte fotográfica. Apesar de pouco tato em títulos do gênero, Sandgren prova que sabe o que faz ao entregar uma composição incrível tanto em ambiente terrestre quanto espacial. O pouso na Lua é simplesmente magistral, graças também ao trabalho desse cara.

O roteiro de Josh Singer aproveita de toda sua investigação já treinada em “Spotlight – Segredos Revelados” e “The Post – A Guerra Secreta” para esmiuçar a caminhada do homem até a Lua. Temos aqui um filme espacial, mas que não tem nada de ficção, uma vez que ele tenta ser o mais fiel possível aos fatos. O lado político do filme é excepcional e certamente nos coloca pra pensar sobre White Man on The Moon.

A missão fica completa quando o quarto homem entra a bordo. Justin Hurwitz parece completar sua orquestra iniciada em “La La Land - Cantando Estações”. A composição tem um tom forte de romance, que aqui é declaradamente entre homem e espaço. É um sopro de mistério, que ecoa (ainda que não haja propagação de som no espaço) de forma triunfal o passeio do homem por regiões inabitadas. Simplesmente genial apreciar músicas como "The Landing" e "Quarantine"!

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Talvez seja um pequeno passo para o público, mas certamente é um salto gigante para a carreira de Chazelle, que ultrapassa os limites terrestres e almeja o sonho grande na galáxia. Não me surpreenderia em nada se “O Primeiro Homem” fosse o primeiro colocado em alguns favoritismos no Oscar. Embarque nesta nave e aproveite a viagem!

Fonte das imagens: Divulgação/Universal Pictures

O Primeiro Homem

Um pequeno passo para um homem...

Diretor: Damien Chazelle

Duração: 141 min

Estreia: 18 / Out / 2018

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