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Crítica do filme O Silêncio do Céu

“Quem cala, consente” ganha um novo sentido

Lu Belin

por
Lu Belin

Sexta, 23 Setembro 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Vitrine Filmes
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Assistir a uma cena de estupro é e sempre será algo perturbador, especialmente se você é colocado na posição de quem sofre esse tipo de agressão. E é exatamente isso que o longa-metragem “O Silêncio do Céu” faz com o público logo em sua cena inicial.

No filme dirigido por Marco Dutra com roteiro de Sergio Bizzio, Carolina Dieckmann dá vida a Diana, uma estilista brasileira que vive no Uruguai com a família: o marido Mario (Leonardo Sbaraglia) e os filhos Nina e Julián. 

Recém reunidos depois de um ano separados, eles vivem um momento de reestruturação. No entanto, essa reconstrução é interrompida brutalmente quando Diana sofre violência sexual dentro da sua própria casa. Uma violência que é escancarada sob todos os ângulos, uma vez que o filme retrata a cena com diversas perspectivas.

Como acontece com grande parte das vítimas de violência sexual, Diana fica em choque e sua reação é o silêncio. Assustada, envergonhada e intimidada, ela esconde o fato do marido e dos filhos, guardando segredo. 

Diana não é exceção. Uma pesquisa divulgada pela Via Lilás em junho deste ano mostrou que mais de 70% das mulheres vítimas de violência não denunciam o agressor nem reportam o crime. Por quê elas não denunciam? Aqui vão algumas razões:

Um em cada três brasileiros acredita que a mulher tem culpa em casos de estupro, de acordo com pesquisa divulgada pelo Datafolha nesta semana.

Em 72% dos casos de violência, o agressor é alguém próximo da vítima: companheiro, marido, pai, amigo.

A atriz Luiza Brunet, de 54 anos, denunciou o ex-companheiro, o empresário Lírio Albino Parisotto, de 62 anos, de agressão e abuso doméstico. Ele continua livre até hoje e acusa a mulher de ter inventado e aumentado o caso.

Em fevereiro, a cantora Kesha denunciou os abusos que vinha sofrendo há anos por parte do marido, o produtor musical Dr. Luke. Ela não apenas teve sua causa ignorada pela justiça como foi obrigada a continuar trabalhando com ele pelo contrato que tinha com a Sony.

No ano passado, 35 mulheres estamparam a capa da revista Rolling Stone acusando o humorista Bill Cosby de cometer violência sexual. Embora tenha sido preso preventivamente e acusado formalmente, o ator saiu da prisão sob fiança e continua em liberdade, aguardando um julgamento que provavelmente não vai sair.

Esses casos não são os únicos, claro. Mas, se a impunidade e a repetição da violência se evidenciam em casos que ganham projeção, eu faço um convite a que você apenas imagine o que acontece no anonimato. 

O ponto é que Mario, cuja principal característica pessoal é o medo que ele sente de tudo, estava chegando em casa no momento do ataque e presenciou tudo, sem coragem para se mexer e impedir o estupro. 

A partir disso, o casal embarca em uma jornada de medo e silêncio em que ambos precisam entender e lidar como que vem acontecendo. 

Medo e silêncio

Diferente do que se imagina, “O Silêncio do Céu” não é apenas sobre o ato de violência em si. E, embora tenha muito de suspense, o longa-metragem aborda uma série de questões relacionadas ao trauma e às consequências deste tipo de situação para a vida das pessoas envolvidas. 

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Um pouco decepcionante, embora contribua e muito com o sucesso da narrativa do filme, é que a perspectiva da personagem Diana é muito menos trabalhada do que a de Mário, que acaba sendo o protagonista muito mais ativo.

Por conta disso, talvez, é que a personagem – e a atuação – de Carolina tenha ficado um tanto apagada. A opção por trocar a nacionalidade da protagonista, que no livro que deu origem à história não é brasileira, justificou muito bem o espanhol um tanto atrapalhado da atriz, mas achei que não foi a melhor performance dela, que já emocionou um país inteiro em papeis como o da novela Laços de Família, quando ainda era bem mais jovem.

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O talento do elenco é, por sinal, um grande ponto positivo do filme. Atores coadjuvantes como Chino Darín e Mirella Pascual, além do menino Dylan Cortes, arrasam em seus papeis, mostrando um trabalho competente e contribuindo com o bom resultado final.

Mesmo no caso da protagonista, não é que a performance da atriz não seja satisfatória, longe disso. Apenas esperava uma Carolina um tanto mais madura e até mesmo mais expressiva, dada a profundidade do papel, e que a mulher que sofreu a violência tivesse mais protagonismo na história. 

Na evolução da história, acompanhamos o silêncio pouco a pouco tomando forma, enquanto o relacionamento e a vida dos protagonistas vão se deformando.

Se por um lado, esse ponto é um pouco problemático, no sentido de que é quase como se o filme calasse mais uma vez a mulher que sofre a violência (é recorrente que apenas o homem tenha voz), por outro, a excelente execução técnica do longa-metragem faz com que justamente a perspectiva se torne um aspecto central e positivo - tanto do roteiro quanto do produto final. 

Podemos acompanhar de perto e intensamente a agonia e o medo dos personagens. Vemos e sentimos o que Diana está sentindo junto com ela, mas tudo pelo olhar sensível e íntimo de Mário. 

Precisamos falar sobre Mário

Talvez você conheça esse ator de impressionantes 46 anos (e carinha de 35) por filmes como “Relatos Selvagens”, uma das melhores produções latinoamericanas recentes, onde ele interpreta o arrogante motorista de um carro de luxo que entra na briga com um singelo caminhoneiro. 

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Uma das grandes estrelas do cinema portenho, Sbaraglia tem um currículo que conta com 80 produções, entre filmes e séries para TV. Essa fama toda em seu país de origem não é à toa. Em “O Silêncio do Céu”, o artista parece crescer, tamanha é a qualidade de sua atuação. Hora um pai amoroso, hora um homem em pânico, hora misterioso, ele traz uma grande carga de verossimilhança para o seu personagem, que é, de fato, tão dúbio.

Seus medos, seja na narração, seja na atuação, parecem ganhar forma à medida que o protagonista vai se desenvolvendo. A manerira como a narrativa se constrói, com Mário em silêncio enquanto ouvimos sua voz ao fundo, faz com que o espectador se sinta dentro da cabeça do personagem, o que torna o filme ainda mais instigante.

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Acompanhamos muito de perto o conflito do homem que se cala quando vê sua esposa fragilizada. Se cala tanto, que o silêncio é quase um personagem, é concreto. Na evolução da história, acompanhamos o silêncio pouco a pouco tomando forma, enquanto o relacionamento e a vida dos protagonistas vão se deformando.

Calar-se, quando se trata de violência, também é uma forma conivente de violentar.

É por isso que, em “O Silêncio do Céu”, a ausência de fala e de voz é um elemento tão central. É usado tanto entre os personagens, quanto na composição e montagem de filme. A opção por não utilizar trilha sonora contribui para a construção da história, mas também para a construção de algumas das melhores cenas do filme. 

Terminamos o longa-metragem perplexos e quietos. Não importa como o filme se encerraria. É um assunto que nos intimida, nos inquieta e nos cala, ao mesmo tempo. 

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E todos os aspectos técnicos ajudam muito. A fotografia do filme e a iluminação utilizada, com jogo de sombras e de luz, os ângulos de filmagem e a perspectiva, os enquadramentos, tudo contribui para formar um relato muito completo de um caso que tem como objetivo nos fazer pensar sobre a violência – e o faz muito bem.

Se você se sensibiliza com questões de gênero e de violência contra a mulher, faça sua parte e vá aos cinemas para ver “O Silêncio do Céu”. Agora, se você faz parte dos 37% dos brasileiros que acha que a mulher tem culpa por sofrer estupro, neste caso assistir esse filme se torna uma verdadeira obrigação, para que você entenda por que é que as mulheres se calam e por que é que elas definitivamente não têm culpa em casos como este. 

Fonte das imagens: Divulgação/Vitrine Filmes

O Silêncio do Céu

Quando o silêncio diz mais do que qualquer palavra

Diretor: Marco Dutra
Duração: 102 min
Estreia: 22 / Set / 2016

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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