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Critica do filme Operação Overlord

Os terrores da guerra

Carlos Augusto Ferraro

por
Carlos Augusto Ferraro

Domingo, 11 Novembro 2018
Fonte da imagem: Divulgação/Paramount Pictures
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O grande feito de Operação Overlord é não apresentar grandes erros. Misturando gêneros e narrativas o filme faz um trabalho competente sem se sobressair em nenhum lado. O título — que por muito tempo foi dado como atrelado a franquia Cloverfield, muito provavelmente por conta do envolvimento de J.J. Abrams na produção — é comandado pelo novato Julius Avery, que faz um belo trabalho de câmera e entrega algumas cenas interessantes, mesmo que a soma total de seu trabalho não seja impressionante.

Combinando elementos de bons filmes de guerra com bons thrillers sobrenaturais, Operação Overlord apresenta uma mescla dinâmica que podem até não se destacar separadamente, mas que acabam trabalhando muito bem como um todo. A ação e o medo são bem dosados e mesmo com alguns escorregões na direção e no roteiro, Julius Avery e a dupla Billy Ray e Mark L. Smith, entregam um filme ágil e envolvente.

A inserção do elemento sobrenatural traz outro nível de terror ao já caótico cenário da Segunda Guerra Mundial. Fãs de videogames certamente reconhecerão elementos de Wolfenstein 3D, mas esse conceito não é nenhuma novidade, haja vista os elementos de “misticismo nazi” em filmes como Indiana Jones e Horror em Alto Mar, sem contar o anime Hellsing e os quadrinhos de Hellboy. O que Operação Overlord faz com muita habilidade é navegar entre os gêneros sem causar muitas marolas.

As causas ocultas da presente guerra

Antes mesmo das forças aliadas desembarcarem nas praias da Normandia, no que seria o evento estratégico decisivo da Segunda Guerra Mundial, uma missão de suporte já acontecia em plena madrugada. Para garantir o sucesso da operação Aliada, era necessário destruir uma estação de comunicação do Eixo instalada na pequena vila francesa de Cielblanc. Assim os paraquedistas da 101ª Divisão Aerotransportada são enviados para penetrar as linhas alemãs horas antes do Dia D, preparando o terreno do que seria o início do fim da Segunda Grande Guerra.

O que os soldados não sabem é que além de aparato de comunicação, a vila de Cielblanc também esconde um segredo nazista ainda mais perigoso. Antes de chegar ao solo o esquadrão já sofre as primeiras baixas. Abatidos antes de alcançar seu objetivo, os poucos soldados devem se organizar rapidamente para tentar cumprir a missão, caso contrário toda a ofensiva pode falhar.

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Entre os sobreviventes temos o bastião moral Boyce (Jovan Adepo) e o endurecido Ford (Wyatt Russell) — Russell e Adepo entregam atuações muito boas e evidenciam a dualidade moral da guerra e quais os limites em um cenário tão aterrador. Independente de eventuais questionamentos históricos, é poderosa a mensagem de se colocar um soldado negro em uma posição de destaque dentro do filme — mesmo que na realidade a segregação racial também evidenciasse dentro do próprio exército estadunidense.

Depois de encontrarem outros soldados do pelotão, Tibbet (John Magaro) e Chase (Iain De Caestecker), o grupo segue com a missão rumo a Cielblanc. Lá acabam esbarrando com Chloe (Mathilde Ollivier) uma jovem francesa presa no meio do conflito. Fazendo o necessário para sobreviver a guerra enquanto cuida de sua tia — vítima dos nazistas em seus experimentos profanos — e de seu irmão menor Paul (o carismático garotinho Gianny Taufer).

Mas até onde o grupo está disposto a ir para completar a missão? Os custos morais podem ser altos demais e não se trata do tipo de economia que permite parcelamentos. Se a guerra em si é uma oposição moral ao pensamento nazifascista, a emulação de suas táticas e comportamentos para derrotá-los já desqualificaria a vitória. Os terrores de Overlord podem ser de origem fantasiosa, mas a metáfora — por mais cafona que seja — ressona muito alto especialmente hoje em dia. 

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Triangulação tática

O primeiro ato inteiro é um filme de guerra como poucos. Começando com uma sequência na qual conhecemos nossos protagonistas conforme se preparam para saltar de paraquedas atrás das linhas inimigas. A tensão é tangível e a ação ganha corpo com o uso muito habilidoso de efeitos especiais e mixagem de som. O caos do cenário nos remete diretamente a sequência inicial do excelente O Resgate do Soldado Ryan.

A dupla Billy Ray e Mark L. Smith aposta nos clichês dos filmes de guerra para contextualizar toda a ação e os personagens, o próprio uso de um pelotão da famosa 101ª Divisão Aerotransportada — a mesma que protagoniza a minissérie Irmãos de Guerra (Band of Brothers) — é uma forma de criar um passado sem perder tempo dentro do filme. O que pode soar como demérito acaba funcionado, pois o espectador sabe exatamente o que esperar de cada personagem sem se apoiar em uma grande construção das personalidades, assim temos o oficial endurecido pela guerra, o jovem idealista, o piadista ítalo-americano e assim por diante.

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Se no primeiro ato o foco é na ação militar, literalmente, a segunda parte desvia mais para o suspense. A marcha dos soldados atrás das linhas inimigas carregava uma tensão própria da guerra, no entanto, a introdução de um elemento de mistério cria uma nova camada de medo. Os sustos (aqueles tradicionais jump scares) estão presentes e bem utilizados. Sem abusar do recurso Julius Avery consegue desestabilizar o espectador com pulos na poltrona.

Por fim, no terceiro ato a ação retorna com tudo, equilibrando todos os elementos e entregando momentos intensos —  mesmo que regados a diálogos fracos e melodramáticos, com direito a discurso do vilão e herói gritando frase de efeito. Mesmo com a narrativa sofrendo um pouco na parte final, especialmente por não saber dosar os frontes — as ações se desenrolaram em dois lugares, nas ruas do vilarejo francês e o interior do laboratório nazista — o diretor faz um trabalho competente e ainda entrega um empolgante plano sequencia pelos corredores labirínticos do reduto fascista, no que é certamente um dos pontos altos do filme inteiro.

Ao vencedor as batatas!

Operação Overlord pode não ser o melhor filme de guerra que você já viu, e sequer é o melhor filme de terror do ano. Entretanto, o filme consegue entregar uma mistura bem equilibrada entre os dois gêneros apresentando um filme que consegue agradar aos fãs de ambos os estilos.

O elenco de jovens talentos entrega atuações convincentes, mesmo quando os diálogos são reduzidos a trocas melodramáticas. Fica o destaque para o trio principal, Jovan Adepo (Um Limite Entre Nós), Wyatt Russell (filho dos veteranos Kurt Russell e Goldie Hawn) e a novata Mathilde Ollivier (que de estrar o novo projeto de Joe Carnahan com Mel Gibson, Frank Grillo e Naomi Watts).

Embrulhado em um belo pacote, Operação Overlord entrega um presente para os fãs de “filmes B”

Nos quesitos técnicos o filme é um sucesso quase que absoluto. A sequência inicial, com a queda do avião e o salto de paraquedas já evidencia todo o empenho da equipe de efeitos especiais e mixagem de som. A maquiagem também é outro destaque, com a nojeira rolando solta (o bom e velho gore) o filme entrega visuais bem trabalhados e monstros dignos de um bom filme de zumbi.

Entre mortos e feridos é fácil reconhecer a vitória de Operação Overlord. O resultado final pode não surpreender, mas não há como negar as vitórias ao longo do caminho. Boas atuações, uma direção inteligente e um roteiro que mistura bem os gêneros fazem de Operação Overlord uma das boas surpresas do ano.

Fonte das imagens: Divulgação/Paramount Pictures

Operação Overlord

Horrores da guerra

Diretor: Julius Avery

Duração: 109 min

Estreia: 8 / Nov / 2018

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