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Crítica do filme Psicopata Americano

Atuação matadora de Christian Bale!

por
Levi Merenciano

04 de Fevereiro de 2021
Fonte da imagem: Divulgação/Lions Gate Entertainment

Há 20 anos, o filme “Psicopata Americano” (American Psycho, de 2000) nos apresentava em definitivo Christian Bale, ator ainda pouco conhecido que foi escalado para protagonista no lugar de Leonardo DiCaprio.

Gostaria de saber o motivo da preferência por Bale? Indicado inicialmente para protagonista de American Psycho, DiCaprio fora preterido pela diretora Mary Harron, em virtude do seu target, após Titanic (de 1997), ser muito voltado para garotas adolescentes. Assim, Bale foi a primeira opção de Harron.

Ninguém pôde imaginar que Christian Bale, apesar dos papéis nos anos seguintes, em Equilibrium (2002), The Machinist (2004) e Batman Begins (2005), já havia feito um papel brilhante, senão o seu melhor papel, na pele de Patrick Bateman, nesta adaptação da obra homônima de Bret Easton Ellis, American Psycho, romance de 1991.

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O Café com Filme já apresentou uma crítica de “Regras da Atração”, filme baseado em outro romance homônimo de Ellis e que, inclusive, se passa no mesmo universo de American Psycho, uma vez que retrata a vida universitária do irmão de Patrick Bateman, chamado Sean Bateman, e interpretado pelo inesquecível bom moço James Van Der Beek. A controvérsia nasceu, por Van Der Beek ser o bonzinho Dawson, da série “Dawson’s Creek” (iniciada em 1998) e em “The Rules of Attraction” ser um controverso “vampiro emocional”, como ele diz no filme: “an emotional vampire”.

Crítica social da vida dos Yuppies

De volta a Christian Bale, a crítica em torno dele ressalta a sua incrível versatilidade e suas qualidades no cinema, sobretudo em “O Operário” (papel o qual Christian Bale atua pesando pouco mais de 50kg, pois tinha que passar por um sujeito com insônia grave; imaginem que o peso aceitável de Bale, com 183 cm de altura, seria em torno de 75kg).

No decorrer de sua carreira, Bale alterna entre papéis mais sérios, depressivos, sisudos ou heroicos, em direção a essa atuação controversa e brilhante de American Psycho, na pele do Yuppie de Wall Street e lunático Patrick Bateman. A partir da adaptação do livro homônimo de Bret Easton Ellis, Harron produz uma ironia ou uma crítica social em torno da vida dos Yuppies, jovens executivos de sucesso de Wall Street, que viviam de forma hedonista, consumista e fútil nos anos 1980

Bateman é retratado no filme basicamente se drogando, alugando VHS pornô, passando por caridoso social, surtando pela reserva do melhor restaurante, cometendo crimes (na mente ou na realidade, pois o charme da obra está na construção da ambiguidade), enfim, traindo sua namorada Evelyn, interpretada por Reese Whiterspoon, e odiando no íntimo seus amigos, dentre eles, Paul Allen, interpretado por Jared Leto. Aliás, o elenco de American Psycho é um show à parte: Willem Dafoe, Justin Theroux, Josh Lucas, Chloe Sevigny, entre outros.

Para além de Wall Street: ironia, terror e hedonismo

Em uma direção que me conquistou ao ver o filme, Harron opta por produzir o filme em duas camadas de signos, ou seja, há caminhos para a compreensão de assassinatos reais executados por Patrick Bateman, bem como uma outra construção argumentativa em direção mais metafórica. Nesta, os signos relativos ao ciclo de mortes, defuntos e execuções representam apenas uma mente enlouquecida na essência ou no plano da ilusão, mas que aparentemente não cometeu crime, tendo em vista que Bateman escondia um caderninho com desenhos macabros de mortes, o qual fora encontrado por sua secretária.

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Em suma, predominam cenas realistas de assassinatos cometidos por Bateman de diferentes pessoas do seu círculo social, desde mendigos e prostitutas a colegas de trabalho. Toda sua vida, enfim, é rodeada por signos que manifestam o tema da futilidade e do consumismo, por exemplo, em voz off, ele narra o que pensa sobre a cor ou a superfície do cartão de visitas do colega de trabalho, que produziu um cartão com muito mais gosto estético.

Os detalhes em “Psicopata Americano” são frívolos, isto é, o papel tem uma superfície mais delicada e com um tom de cor mais adequado, em que a aparência dos signos de sua profissão (seu traje, walkman, gravata, loção de banho, reservas nos melhores restaurantes, etc.) vão nessa mesma direção, pois configuram sua posição social de Yuppie.

A sua pseudo-noiva, Evelyn, o critica quando diz que seu emprego se deve a uma indicação do pai e que ele o odiava (“l don't see why you just don't quit” / Não entendo por que você não abandona essa vida), ao que ele responde: “I need to fit in”. Essa expressão equivale a encaixar-se socialmente ou a se conformar às regras sociais vigentes por aquela elite executiva de Wall Street, a qual vivia somente de aparências.

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Para finalizar, a versatilidade de Bale em “Psicopata Americano” confirma-se nas gradações de humor, nos acessos de raiva explosiva ou mais contida, na malícia em parecer alguém superior em muitos momentos e, em outros, parecer um animalzinho assustado a correr de um inimigo que não existe. Filme recomendadíssimo, por mostrar como era a vida dos Yuppies, por tecer uma trama em torno dos signos da futilidade consumista e social e por revelar essa pérola do cinema, que mistura violência, sátira, humor e crítica social.

Confira essa crítica também em vídeo:

Fonte das imagens: Divulgação/Lions Gate Entertainment

Psicopata Americano

Minha máscara de sanidade está prestes a cair

Diretor: Mary Harron
Duração: 102 min
Estreia: 22 / Dez / 2000

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Levi Merenciano

Se eu fosse 10% do Ryan Gosling, tava bom! Levi Henrique Merenciano é linguista e semioticista, aficionado por cinema e games. É dono do canal Cinessemiótica, página especializada em indicação de filmes cults, documentários e lançamentos.

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