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Crítica do filme Rainhas do Crime

Um desfavor sublime

Fábio Jordão

por
Fábio Jordão

Quinta, 08 de Agosto de 2019
Fonte da imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures
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O feminismo é uma pauta que — se não está em seu auge — está numa tendência crescente, o que tem levado a indústria cinematográfica a apelar para qualquer oportunidade de fazer uma graninha em cima do tema. Assim, a cada pouco temos um novo título que chama a atenção, seja pela pegada do empoderamento ou pela aposta em um elenco caprichado de Hollywood.

A produção da vez que apela para o comercialismo das mulheres fortes é “Rainhas do Crime”, um filme baseado em uma história em quadrinhos publicada em 2015 pela Vertigo (uma subdivisão da DC Comics). Trata-se de um título que não apenas abusa dessa temática, como ainda traz Melissa McCarthy, Tiffany Haddish e Elisabeth Moss como protagonistas.

Na história de “Rainhas do Crime”, acompanhamos três donas de casa, que residem na Nova York de 1978, mais especificamente no bairro de Hell’s Kitchen (daí o nome da HQ, inclusive). Occorre que seus maridos mafiosos são mandados para a prisão pelo FBI, de modo que elas ficam na dependência dos outros integrantes da máfia irlandesa.

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Todavia, ao perceber os problemas do bairro, elas decidem fazer um esquema diferente para conseguir uma grana para suas famílias. Assim, num plano mirabolante, elas aos poucos assumem as rédeas do grupo de criminosos, mas é claro que elas vão ter que lidar com vários marmanjos no meio do caminho, principalmente os comparsas de seus maridos.

Nadinhas no crime

Talvez a história dos quadrinhos seja diferente da que é contada no cinema, mas se formos falar apenas da adaptação para as telonas, o roteiro de “Rainhas do Crime” não tem nada de extraordinário. Na verdade, trata-se de uma simples história de máfia em que mulheres tomam o comando da parada, mas não que isso seja uma mensagem incrível do feminismo.

Na verdade, se for pensar bem em empoderamento, este filme vai até quase na contramão da pauta. Primeiro que temos esposas submissas, que nunca se impuseram e que só aproveitam uma oportunidade para fazer dinheiro, de modo que o capital parece mais importante do que a mensagem do feminismo. MAS ok, eu sei que o filme que se passa na década de 1970.

Todavia, eu acho que dá pra ver que falta muita substância para conseguir convencer o público e entregar a mensagem da melhor forma possível. Mesmo que as protagonistas tomem o controle, elas ainda dependem de outros capangas (homens, claro) e se submetem à vontade de outros homens (que você vai entender no decorrer da história).

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Aliás, é interessante pontuar que a gente está falando de uma ficção, então eu não sei qual era a dificuldade de fazer um roteiro coerente e colocar elas como poderosas, em vez de cair em clichês permeados por fofocas, histeria e vinganças baratas. A história até que tenta dar uns dribles com algumas surpresas, mas no fim acaba não convence e talvez até insulte em alguns pontos.

Mais uma produção DC

Se por um lado o roteiro de Andrea Berloff decepciona pelos clichês, a direção dela surpreende em vários aspectos. A cineasta parece beber da fonte de outros filmes da DC Comics, com cenas áreas que ousam mostrar a Nova York antiga e enquadramentos que realmente nos colocam nas ruas perigosas de Hell’s Kitchen.

Infelizmente, muitas cenas de ação acabam ficando apenas para personagens masculinos, mas aí novamente é uma cagada do roteiro. As cenas com as protagonistas passam muito mais um tom de glamour e respeito, do que de medo, algo que seria bem-vindo num filme sobre as donas da máfia.

A tonalidade geral do filme é um sépia que serve bem pra datar a película, algo que é obviamente reforçado pelo trabalho exemplar de cenário — e eu sempre fico impressionado com esse tipo de coisa, porque é muito difícil reproduzir uma Nova York antiga, mesmo com estúdios grandes — e figurino, que acompanha a transição das protagonistas.

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Não temos lá grandes efeitos especiais por se tratar de um filme mais pé no chão, mas o trabalho é competente e casa perfeitamente com a boa qualidade sonora, que combina bem os ambientes da época com trilhas icônicas. Enfim, uma típica produção DC, no melhor sentido da coisa: sombria, séria, luxuosa e convincente.

Enfim, boa direção, boas atrizes (mas que fazem só o "arroz com feijão") e boa produção, mas sem um roteiro convincente. Se você quer ver um filmão de feminismo, pode segurar os cavalos aí, porque “Rainhas do Crime” é mais uma obra na pegada de “As Viúvas”, ou seja, não é ruim no todo, mas está longe de alcançar o potencial que a gente imagina de um filme desse naipe. Minha dica: pode esperar pra ver em casa.

Fonte das imagens: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Rainhas do Crime

Lugar de mulher é ...

Diretor: Andrea Berloff

Duração: min

Estreia: 8 / Ago / 2019

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