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Crítica do filme Scott Pilgrim Contra o Mundo

Filme criativo, mas para poucos

por
Levi Merenciano

16 de Junho de 2021
Fonte da imagem: Divulgação/Universal Pictures

Quando a estética game mais História em Quadrinhos se unem, temos uma perfeita mistura de paradas dramáticas com aceleração narrativa intensa, referências constantes aos gibis e à produção de signos que lembram os games clássicos e de luta nos fliperamas; enfim, junte tudo isso a uma pegada completamente geek e temos "Scott Pilgrim Contra o Mundo".

A influência de Scott Pilgrim não é à toa, ela vem também da HQ homônima, lançada em 2004 e finalizada em 2010. Grande parte do Story board será produzida em cima da história da própria HQ, como já visto nas produções Sincity (2005) e 300 (2006). Assim, uma espécie de sincretismo de tendências (com a adição de signos derivados do universo gamer) é observado em Scott Pilgrim.

Perfeito mix de HQ com Games

Michael Cera conhecido pela atuação em Arrested Development (série cômica ganhadora inclusive de um Globo de Ouro), na época com 22 anos, interpreta Scott, um rapaz universitário, baixista de uma banda universitária em ascensão. Até aí nada de mais. No entanto, a narrativa começa quando ele decide namorar uma garota colegial, de 17 anos, chamada Knives Chau.

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Perturbado por um rompimento recente, ele tenta recomeçar essa relação com um tom mais ingênuo, leve. No entanto, em uma festa universitária, ao conhecer a encantadora Ramona Flowers (interpretada por Mary Elizabeth Winstead, famosa por Final Destination, no Brasil, "Premonição"), ele deverá passar por uma série de provas, incluindo enfrentar os namorados anteriores de Ramona Flowers.

É a partir desse mote que a narrativa ganha a dimensão bem-humorada e Geek que foi mencionada anteriormente, pois todo o plano de expressão da narrativa ganha contornos da linguagem de HQs e dos videogames, os quais dão sustentação para o plano de fundo das batalhas de Scott com os “exes” de Ramona Flowers.

A montagem, nesse quesito, é um show à parte, pois as conexões entre as cenas nem sempre são lógicas. O lado sarcástico e humorístico rompe as fronteiras da cinematografia, por meio de enquadramentos com ligações rápidas, dinâmicas, como se a própria expressão acelerada dialogasse com a versatilidade da linguagem dos games (nos efeitos sonoros de máquinas de fliperama, nas barrinhas de saúde dos jogos de luta, estilo Street Fighter).

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Isso também é visto na organização da linguagem das HQs e até mesmo de RPGs (os diálogos inseridos em cena, as explicações dos handicaps – níveis de saúde, vantagem e desvantagem – dos personagens e suas características sociais, físicas e emocionais, os xps, experience points ganhos nas lutas). Enfim, tudo encaixa muito bem na estética em questão.

Scott Pilgrim vs the World é um filme de nicho mesmo?

No entanto, essa qualidade parece também ser um ponto fraco para o seguimento de público que não representa o nicho a que o filme se destina. Explico. Como a linguagem no enunciado global desse filme constrói signos sobre os quais é preciso fazer a referenciação correta, nem sempre o público menos nerd ou que não pertence ao universo dos HQs e games fará a ligação desejada do que o personagem está querendo dizer ou para quais signos está querendo apontar.

Vemos o reflexo nesse sentido, pois o filme teve um investimento de 60 milhões de dólares e lucrou na casa dos 48 milhões. Acredito que o filme tenha se pagado ao longo desses dez anos do seu lançamento, pois agora faz parte de um seguimento mais cult, por isso, é constantemente referenciado quando se diz respeito aos recursos de montagem cinematográfica, em diálogo com a estética mais gamer.

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Em suma, voltando à narrativa, toda a intertextualidade com essa geração geek é expressa nas batalhas de Scott com os antigos namorados ciumentos de Ramona Flowers. Participações especiais, como as de Anna Kendrick e Chris Evans (o Capitão América), este interpretando um famoso ator de cinema e aquela interpretando uma engraçadíssima irmã literalmente onipresente, são marcantes.

A naturalidade com que a relação de Scott e Ramona vai se desenvolvendo também faz o público torcer para que o romance dê certo. Será que Scott derrotará os supostos vilões e ficará com a mocinha no final?

Scott Pilgrim Contra o Mundo apresenta um show de montagem e edição, que nos pega de surpresa

Indico este filme por ser diferente dos filmes universitários. Acredito ser tão diferente quanto "Regras da Atração", produção de 2002 que já analisei neste site.

A novidade em "Scott Pilgrim Contra o Mundo" está propriamente na edição e organização dos signos fotográficos, por vezes, tão acelerada e dinâmica, que é preciso pausar e voltar a cena. Em outros momentos, o filme desacelera e nos volta a pegar de surpresa quando faz outras montagens completamente malucas. Isso me agradou muito, mas pode desagradar o seguimento de público que prefere um tipo de filme mais convencional, com montagens menos mirabolantes.

Confira também a crítica de Scott Pilgrim Contra o Mundo em vídeo:

Fonte das imagens: Divulgação/Universal Pictures

Scott Pilgrim Contra o Mundo

Uma garota. Sete ex-namorados. Um desafio.

Diretor: Edgar Wright
Duração: 112 min
Estreia: 15 / Out / 2010

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Levi Merenciano

Se eu fosse 10% do Ryan Gosling, tava bom! Levi Henrique Merenciano é linguista e semioticista, aficionado por cinema e games. É dono do canal Cinessemiótica, página especializada em indicação de filmes cults, documentários e lançamentos.

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