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Crítica do filme Sniper Americano

Eu prefiro os nossos sambistas

Gustavo Loeff Zardo

por
Gustavo Loeff Zardo

Quinta, 12 de Fevereiro de 2015
Fonte da imagem: Divulgação/
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“Temos um inimigo, mas não sabemos quem é”. Essa frase soou um tanto estranha quando ouvi, e me levou para longe da sala de cinema. E é pra lá que vou levar vocês.

Quando somo alvejados por alguém, sem saber quem é esse alguém imagino várias opções possíves, mas filtro duas que vão me ajudar a ir além: 1) estamos lutando uma guerra que não é nossa; 2) estamos sendo odiados por alguma razão que ainda não sabemos, ou preferimos não saber.

Sniper Americano, de Clint Eastwood, tem em seus primeiros 10 minutos de filme, contando os créditos iniciais, a morte de uma criança e posteriormente de uma mulher. E tem em seus dez minutos finais esse mesmo homem que matou os dois e mais 253 pessoas, sendo louvado e aplaudido por uma multidão no Texas Stadium.

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O filme conta a história de Chris Kyle (Bradley Cooper), o maior atirador de elite da história americana, durante esse período que descrevi alí em cima, desde sua morte número 1 (que foi um veadinho na floresta) até o momento final em seu enterro, quando foi morto por um ex-combatente.

Tecnicamente, o filme em si não tem nada de mais, excelentes atores, ótimas e exageradas cenas de ação, um romance aqui e ali, drama e emoção, trilha sonora de arrepiar, fotografia impecável e uma direção digna de Clint Eastwood. E só. O interessante na história toda é a filosofia que isso emprega, e é nisso que o diretor aposta também.

A repercussão do filme foi imediata ao seu lançamento. Lá fora ele saiu nos cinemas dia 18 de janeiro e no dia 20, o também premiado cineasta Micheal Moore tuitou: "Meu tio foi morto por um sniper na Segunda Guerra Mundial. Aprendemos que snipers eram covardes. Atiram pelas costas. Snipers não são heróis. E invasores são piores".

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Durante o filme surge um segundo sniper também fodão, só que do lado iraquiano, apelidado pelos americanos como Mustafa. Mustafa foi inspirado em um atirador de elite de verdade, que participou das olimpíadas como representante da Síria na modalidade de tiro ao alvo. E de fato Mustafa estava na guerra do Iraque. A história que o filme conta (que não é real) é que Chris começa uma caçada implacável para matar Mustafa, até que faz um tiro de quase 2 km e tira a vida do Sírio.

Esse trem e o post do Micheal Moore, me fizeram pensar um tantão sobre quem é o inimigo de fato. O interessante é que o filme não deixa muito claro e o público entende isso. O próprio Moore afirmou que o amor dos americanos por esse filme tem a ver com culpa. Bem, os americanos sabiam que a Al-Qaeda não tinha arma de destruição em massa, os americanos sabem que 4.400 jovens estadunidenses morreram na guerra – e dezenas de milhares de iraquianos, e isso dá uma sensação de culpa dolorosa.

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Para se ter uma ideia, no cinema em que vi o filme, ninguém comemorou a morte de Mustafa. Do meu lado, um rapazinho soltou um “merda” quando o cara morreu. Todo personagem principal do filme acaba ficando perturbado pela guerra ou morre. E não é uma celebração disso. As pessoas podem entrar no cinema pensando "Ha ha!", mas não saem dizendo "Ha ha!".

Em um primeiro olhar, parece que o filme é uma propaganda americana, como tantos outros que saem e sairão. Mas se parar e nos deixarmos ir pra esse lugar que fui, lá em cima na crítica, nos deparamos com uma história que expurga a guerra. Kyle precisa o tempo todo ficar repetindo para si “não, esse lugar vale a pena”, enquanto todos seus amigos e inclusive seu irmão insistem em “que se foda esse lugar”.

Só a titulo de curiosidade, Sniper Americano foi lançado na semana que se comemora o dia de Martin Luther King, um cara que eu considero um dos maiores americanos da história e que foi morto por um atirador de elite. Só que Martin é negro, aí não tem problema nenhum... E se o filme fosse lançado em 22 de novembro, dia da morte de Kennedy?

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O que mais dizer? É uma história americana para americanos, mas serve pra gente pensar as nossas coisas por aqui. Cantaram por aí, e eu encerro assim... Tão homem, tão bruto, tão Coca-Cola, Tão bomba atômica, tão amedrontado, tão burro, tão desesperado, Tão jeans, tão centro, tão cabeceira, tão Deus. Tão raiva, tão guerra, tanto comando e adeus.

Eu? Eu prefiro os nossos sambistas.

 

Fonte das imagens: Divulgação/

Sniper Americano

Na mira do inimigo

Diretor: Clint Eastwood

Duração: 132 min

Estreia: 19 / Fev / 2015

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Gustavo Loeff Zardo

Meu sonho é ter barba.

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