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Crítica do filme Sobre Café e Cigarros

Muita fumaça, pouco sabor

por
Fábio Jordão

10 de Agosto de 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Smokescreen Inc

O pessoal da nossa redação adora um bom café, principalmente quando combinado com um filme de qualidade — não é por acaso que o nome do site é Café com Filme.

Curiosamente, há alguns projetos cinematográficos que são pautados sobre conversas em cafeterias e que apresentam o café como um elemento central. O filme “Sobre Café e Cigarros” entra nesta restrita lista, sendo elogiado por muita gente.

Como o título sugere, o filme trata desses dois produtos viciantes, os quais são características básicas para o desenvolvimento de 11 pequenas histórias. Com direção de Jim Jarmusch, esta obra é como uma compilação de curta-metragens que não se conectam de forma alguma, exceto pelo fato de que mostram personagens consumindo cafeína e nicotina.

Todo filmado em preto e branco, os esquetes abordam diálogos diversos, que tratam desde fatos cotidianos, até discussões sobre Abbott & Costello, as invenções de Nikola Tesla, a cidade de Paris na década de 1920, rock e outros tantos assuntos. O destaque para a obra fica por conta do elenco, que se destaca com Bill Murray, Iggy Pop, Tom Waits e Roberto Benigni.

Mais cigarro do que café

Levando em conta “Sobre Café e Cigarros” é uma composição de curta-metragens, seria bastante lógico avaliar cada trecho separadamente. Todavia, o diretor conseguiu uma sintonia entre os segmentos, criando uma obra conexa. Isso também nos permite fazer comentários abrangentes, sobre as ideias abordadas no todo.

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Com roteiros bem fracos, que geralmente não chegam a lugar algum, Jarmusch apenas cria estereótipos sobre pessoas que consomem café e cigarros, mas não entrega nada de surpreendente nas histórias. A criação de um curta de quase cinco minutos sem qualquer pauta para o desenvolvimento de uma conversa chega a beirar o ridículo.

Felizmente, entre tantas conversas, há uma ou outra que resultam em alguma frase memorável, ressaltando a possibilidade de diálogos inteligentes. Os cenários ajudam nos esquetes, mas a similaridade entre eles talvez não seja tão benéfica. Há elementos muito parecidos, tanto na composição quanto na disposição dos elementos.

Talvez, o diretor não goste muito de café e não teve sua criatividade aguçada para desenvolver melhor as tramas

O uso de famosos com seus nomes verdadeiros interpretando suas respectivas personalidades de estrelas de Hollywood também não agrega à construção dos diálogos, mas apenas serve para ressaltar a falta de propósito dos curtas. Tudo parece muito encenado e pouco convincente, deixando o desenvolvimento um pouco engessado.

Além dos roteiros pouco criativos, “Sobre Café e Cigarros” ainda sofre com a falta de fidelidade à temática. A cafeína e a nicotina estão presentes em boa parte dos esquetes, mas há casos em que isso não se faz evidente ou que simplesmente o diretor trocou o café por um chá. Pior é que só tem um ou outro caso em que vemos algum debate sobre esses produtos viciantes.

Experimental e um tanto sacal

Eu adoro produções experimentais, quando elas são divulgadas como tais e entregam o fator experimental. No caso de “Sobre Café e Cigarros”, a expectativa vai muito além de um simples trabalho decorrente de aulas de audiovisual, ainda mais levando em conta o diretor que tem carreira datada lá da década de 1980 e um elenco com grandes nomes.

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Acontece que há aqui uma grande discrepância entre expectativa e resultado apresentado para o espectador. Em uma analogia simples, seria mais ou menos como ir à cafeteria para saborear um delicioso café com grãos selecionados e acabar experimentando um café fraco e até gelado.

A simplicidade na direção não é uma característica que prejudica o resultado, mas a falta de inovação entrega um café fraco ao consumidor. Câmeras estáticas com enquadramentos simples focam bastante nos personagens, sendo que há poucas inserções de cenas com visão superior para mostrar as xícaras de café. Monotonia e falta de inovação são constantes.

Aliás, considerando o fator experimental, não faria mal testar outros ângulos. Aproveitar posicionamentos de câmera com maior destaque aos elementos centrais — e não somente aos diálogos vazios — certamente deixariam o filme mais apetitoso para mostrar a importância desses dois produtos e como eles impactam os personagens.

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Se “Sobre Café e Cigarros” fosse um projeto para conclusão de uma disciplina num curso superior, o resultado seria aceitável, mas levando em conta a comercialização da obra, o resultado fica aquém do esperado, sendo perceptível até erros de continuidade. A parte de arte não é ruim, mas, no geral, este é um café sem gosto e mal preparado.

Fonte das imagens: Divulgação/Smokescreen Inc

Sobre Café e Cigarros

Confira o trailer deste filme dirigido por Jim Jarmusch

Diretor: Jim Jarmusch
Duração: 95 min

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