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Crítica do filme Tallulah

Mães são apenas pessoas

por
Lu Belin

04 de Agosto de 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Netflix
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“Você só diz isso porque ainda não chegou a hora e porque ainda não tem o seu!”

“Quando acontecer com você, você vai perceber que está preparada!”

“Um dia você vai querer. No fundo, toda mulher quer!”

“O relógio biológico vai tocar, você vai ver!”

Pisque uma vez se você, sendo mulher, já ouviu alguma dessas frases acima. Piscou, né? Conheço poucas acima dos 20 que não foram submetidas, ao menos uma vez, a um irritante questionário sobre quando pretendem ter filhos. Diga que não pretende, não, obrigada, e veja surgir dos bueiros a brigada inquisitorial das tias querendo te convencer que "nossa, nada a ver, você só diz isso porque ainda é jovem". 

Sendo homem, você dificilmente passou por isso. Nós mulheres, no entanto, sofremos essa cobrança perversa desde muito cedo. Parece que nascemos apenas em virtude da nossa capacidade reprodutiva. A sociedade precisa aceitar e começar a perceber que nem toda mulher quer ser mãe, que maternidade não é uma vocação com a qual todas nós fomos "abençoadas".

Algumas pessoas têm talento para a música, algumas para a pintura, outras para a maternidade. E assim como algumas não têm ideia do que fazer se eu soltar um violino na frente delas, outras não saberão o que fazer se você largar um bebê recém-nascido no colo e disser “te vira!”.

É asssim que começa o novo filme da Netflix, o longa-metragem “Tallulah”, roteirizado e dirigido pela americana Sian Heder e estrelado pela talentosa Ellen Page. Tallulah, ou simplesmente “Lu”, é uma jovem independente e aventureira que mora em seu furgão e não deve nada a ninguém. Ainda bem, porque, caso devesse, não teria como pagar. Completamente sem dinheiro, depois de ser abandonada pelo namorado Nico (Evan Jonigkeit), que levou consigo as poucas economias da moça, ela decide procurar pela pseudo sogra, para ver se recupera um pouco do que ele lhe roubou.

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Quando a mãe de Nico, Margo (Allison Janney, das séries The West Wing e Mom, que já tinha feito "Juno" com Ellen Page), nega ajuda, ela sai perambulando pela cidade e se vê frente a um dilema. Seus caminhos se cruzam com os de Carolyn (Tammy Blanchard), uma mãe assustada e um tanto negligente, que confunde Tallulah com a babá que ela havia chamado e pede que a jovem cuide da filha Madison por uma noite. 

Em uma decisão impulsiva ao perceber o quão descuidada e irresponsável é Carolyn, Lu decide ir embora levando a criança. Daí por diante, é óbvio que tudo vira a maior confusão. Quando percebe o sumiço da filha, a socialite entra em pânico, aciona a polícia e Nova Iorque inteira sai em busca da menina. 

Nada de especial no front

No que diz respeito aos aspectos técnicos, “Tallulah” não oferece – nem promete – nada de grandioso. É um longa-metragem bastante simples, cujo roteiro não exige grandes efeitos (ainda que o pessoal tenha conseguido ~enfiar uma cena com um efeito um tanto surreal, quem assistir vai saber do que eu estou falando) nem longos esforços em maquiagem, figurino, cenário e a coisa toda. 

Mais um original Netflix, o filme foi gravado em Nova Iorque, com algumas cenas externas nos parques e metrô da cidade, mas se passa em ambientes bem repetidos, principalmente os internos. 

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A trilha sonora também não traz nada de muito novo nem chamativo, com alguns sons originais e uma ou outra coisa comercial, mas não é nada muito envolvente ou genial. 

O elenco tem grande mérito para o produto final. A divertidíssima Allison Janney mostra que também leva jeito para o drama, enquanto a Ellen Page veste novamente a sua inseparável camisa xadrez para encarnar a confusa e um tanto estranha Tallulah. 

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Algumas participações menores são super bem-vindas, como a de Tammy Blanchard, cujo personagem é fundamental para a história, além do Spock Zachary Quinto, David Zayas e Uzo Aduba. Vale menção, claro, a participação das bebês Liliana e Evangeline Ellis, no papel da pequena Maddie, uma fofurinha de personagem. É no roteiro e na profundidade da temática, no entanto, que Tallulah se destaca mais. 

Dilemas morais x dilemas sociais 

Embora o plot seja simples, a trama tem sua complexidade e nos faz questionar algumas regras não escritas da sociedade. O quanto aceitamos o roteiro que já é pré-escrito pelo mundo ao nosso redor na hora de fazer planos e construir nossas vidas. O quanto nós mulheres já somos condicionadas desde muito cedo a pensar que é isso que queremos e que não há alternativa. Serei mãe, serei esposa e tenho que ser boa nisso, porque “toda mulher é assim”.

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Embora o trailer nos faça pensar que este filme é sobre Tallulah e sua impulsividade de resgatar/sequestrar uma criança, a verdadeira protagonista do longa-metragem é a maternidade e a perversão que é a imposição desta sobre as mulheres. 

Tallulah, Margo e Carolyn são três personagens com perfis completamente diferentes, com variados níveis de instrução educacional e social, mas que são impactadas pela maternidade, de uma forma ou de outra. E que são ou foram afetadas pela imposição de ser mãe sobre alguém. 

Sorrateiramente, o longa-metragem nos ensina sobre feminismo e sobre pontos centrais da sociedade patriarcal, questionando justamente essa obrigação. Pena que, para levantar a questão sobre a forma como as sociedades ocidentais estruturam e organizam as relações familiares, “Tallulah” tenha recorrido a retratar uma mãe que não queria ser mãe como puramente uma louca, irresponsável e inconsequente. 

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Carolyn poderia ser qualquer mulher que acabou engravidando por pura pressão social e se viu despreparada. Nem toda mulher que não quer ser mãe sai largando os filhos por aí, isso se chama irresponsabilidade. E quando é um homem que toma a mesma atitude, a cobrança não chega nem perto, admitam. 

Esse é um assunto que vai longe, e que – espero! –, a gente ainda vai ver em muitas produções nos próximos anos. Por ora, basta encerrar dizendo que, embora não seja o filme mais genial que você vai ver esse ano, “Tallulah” está aí pra nos fazer pensar que precisamos parar de exigir que toda mulher seja mãe e que o seja com perfeição. Todas nós, assim como os homens, somos apenas pessoas. 

Fonte das imagens: Divulgação/Netflix

Tallulah

Confira o trailer deste filme dirigido por Sian Heder

Diretor: Sian Heder
Duração: 111 min
Estreia: 29 / Jul / 2016

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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