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Crítica do filme Um Estado de Liberdade

Quanto custa ser livre?

Lu Belin

por
Lu Belin

Segunda, 12 Junho 2017
Fonte da imagem: Divulgação/Paris Filmes
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Escrito e dirigido pelo premiado diretor Gary Ross e estrelado pelos vencedores do Oscar Matthew McConaughey e Mahershala Ali, “Um Estado de Liberdade” é uma das recentes estreias da Netflix que merece a sua atenção.

Um drama de ação ambientado durante a Guerra Civil norte-americana, o longa-metragem é baseado em uma impressionante história real, a do agricultor Newt Knight (McConaughey) que, depois de desertar de uma guerra que não considerava sua, se transformou em um verdadeiro líder rebelde contra a Confederação.

Durante seu processo de fuga, Newt é levado ao pântano que fica às margens do povoado em que mora, onde se reúne a um pequeno grupo de escravos foragidos - entre os quais está Moses (Ali), com quem ele rapidamente cria um laço de amizade.

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É da cumplicidade e mútua compreensão entre os dois que surgem também as primeiras faíscas que levam à luta dos desertores na tentativa de criar a República Livre de Jones.

Ninguém deve empobrecer para enriquecer outro homem

Mas bem, comecemos pelo começo. Durante a Guerra Civil norte-americana, enquanto os homens foram à guerra, as mulheres ficaram cuidando das casas, das plantações, dos filhos menores - já que os maiores foram para a guerra junto com os pais.

Isso gerou um estado de vulnerabilidade, no qual criaram-se certas instituições responsáveis por coletar taxas de 10% dos bens e da renda das famílias para financiar o combate. Acontece que os fiscais resposáveis por coletar esse dinheiro simplesmente levavam muito mais do que a quantidade que “deveriam”, agindo muito mais como saqueadores do que como agentes do governo. Esse tipo de abuso gerou uma onda de revolta que foi fundamental para a revolta geral contra os confederados e contra o Estado.

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A luta contra esse tipo de injustiça social é um dos principais motes do longa-metragem. “Um Estado de Liberdade” acaba sendo um daqueles filmes que abarcam tantas mensagens e nuances que não pode ser categorizado apenas como “Drama”, nem tampouco apenas como “Ação”, ou “Histórico” ou “Biografia”. São histórias demais para contar.

Estes são em geral os melhores, certo? Apesar de longo e de, muitas vezes, bastante lento, o longa tem seu próprio ritmo e o roteiro complexo consegue ser muito bem orquestrado de forma a não exceder os limites - nem os de lentidão, nem os de ação.

O resultado são quase duas horas e meia que você consegue ver passar sem nem perceber - especialmente se for fã de filmes históricos.

Nenhum homem deve dizer a outro homem pelo que ele deverá viver ou morrer

A obrigatoriedade de ir à guerra e lutar pelo seu país - algo que é motivo de orgulho para muita gente - não é exatamente algo que agrada todo mundo, especialmente se você tem 13 anos.

Esse também é um dos assuntos que entra em pauta e que motiva a ideia de criar o Estado Livre de Jones. Empenhado com toda a sua convicção com o desenvolvimento desta causa, ainda que acidentalmente, Newt Knight se tornou o herói inspirador de muita gente. E não poderia ter havido escolha melhor de ator para interpretar o protagonista.

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Matthew McConaughey é um daqueles atores que, quando você vê no elenco, nem questiona mais nada e já dá o play no filme. Então nem preciso dizer muito sobre a performance dele. O que merece destaque aqui é a sintonia na composição da dupla entre ele e o coadjuvante Mahershala Ali, outro nome que vem se destacando em Hollywood nos últimos anos - especialmente depois de seu Oscar por “Moonlight: Sob a Luz do Luar”.

Gugu Mbatha-Raw (Rachel), Christopher Berry (Jasper), Sean Bridgers (Will), Bill Tangradi (Tenente Barbour) e outros nomes já bastante conhecidos compõem o elenco orquestrado por Gary Ross com muito zelo.

O que você coloca no chão, você coloca e colhe, ninguém deve tirar isso de você

Por falar em direção, este é outro grande aspecto do longa-metragem. Ajuda o fato de que a adaptação do roteiro também é do diretor, que conhece cada aspecto da história que vai contar. A escolha de traçar um paralelo com alguns fatos do presente gera uma quebra interessante na cronologia e andamento dos fatos, mas apenas o suficiente para despertar a curiosidade do público, sem tornar a linearidade confusa.

O que ele também usa a seu favor nesse sentido é a trilha sonora. Assinada pelo jovem Nicholas Britell (que já tem no currículo participação em sons para filmes como “12 Anos de Escravidão”, “Moonlight” e “Whiplash”), ao lado de Tim Fain e Caitlin Sullivan, ela é composta principalmente por canções originais que nos transportam diretamente para o centro da Guerra Civil. E Britell fez a gentileza de compartilhar as músicas no Spotify, então você pode dar o play aqui antes de continuar lendo a crítica!

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Outro grande aspecto que vem para compor com o filme é a fotografia. Filmado em ambientes que permanecem como que congelados naquela fase da história, “Um Estado de Liberdade” reúne em sua composição de cenários desde campos verdes e belas plantações de milho até os pesados fronts da guerra civil, os inóspitos povoados do século 19 e o belíssimo e quase acolhedor pântano onde Newt se refugia.

A paleta em tons nude e sépia, mescladas com os diferentes verdes fazem do filme trazem um misto de acolhimento com distanciamento que ajudam a manter a sensação de que algo precisa acontecer enquanto a história se desenrola.

Todo homem é um homem. Se pode andar sobre duas pernas, você é um homem. É simples assim

Como não poderia deixar de ser e como o próprio nome denuncia, “Um Estado de Liberdade” traz involucrado como eixo central em seu argumento a questão da escravidão. O coração da sua linha do tempo é justamente o período do fim da escravidão nos Estados Unidos, então durante todo o tempo o público é questionado sobre ironias e absurdos da sociedade escravagista.

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E o mais curioso é que é um filme sobre escravidão que traz os negros dentro de um eixo central, mas que é protagonizado por um branco, o que poderia ser encarado como um problema, não fosse o fato de que o protagonista desta história na vida real era, de fato, um “branco simpatizante” com a causa da escravidão.

Por conta dessa temática é que durante tanto tempo no filme o gênero do drama se sobrepõe à ação dos conflitos físicos. No fim, trata-se de um drama histórico construído sobre uma bonita mensagem de luta pela liberdade, mas pautado sobre uma boa dose de revolta contra injustiças sociais.

Assim, juntando tantas causa e conflitos a uma história baseada em fatos reais, "Um Estado de Liberdade" se constrói com andamento inteligante e instigante, ideal para fãs de diferentes estilos. Altamente recomendado!

Fonte das imagens: Divulgação/Paris Filmes

Um Estado de Liberdade

Para conseguir sua liberdade, ele enfrentará a todos

Diretor: Gary Ross
Duração: 139 min
Estreia: 27 / Out / 2016

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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