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Crítica do filme Vidas Partidas

Arte que (infelizmente) imita a vida

por
Lu Belin

10 de Agosto de 2016
Fonte da imagem: Divulgação/Europa Filmes
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Graça (Naura Schneider) e Raul (Domingos Montagner) são um casal comum. Casaram-se, construíram seu lar, tiveram duas filhas e vivem uma vida razoavelmente confortável em um bairro da bela cidade de Recife, no Pernambuco. Algo incomum para a época, Graça é a principal fonte de renda da família, já que Raul tirou um tempo para estudar e só agora volta ao mercado de trabalho.

Num Brasil da década de 80, os dois são felizes, se amam, possuem uma vida ativa – tanto social quando sexualmente. Tudo começa a mudar, no entanto, quando Raul recupera seu posto de provedor principal da casa. Cada vez mais orgulhoso e possessivo, o professor passa a se comportar com agressividade, de forma abusiva e com desdém com relação às conquistas da esposa. 

 O longa “Vidas Partidas”, dirigido pelo global Marcos Schechtman (que, caso seja noveleiro, você já conhece de produções como Caminhos das Índias e O Clone, entre outras) e roteirizado por José Carvalho poderia contar a história de qualquer uma das 147.691 mulheres brasileiras que sofreram violência doméstica no ano passado. No entanto, o filme é inspirado na história de uma delas, um caso que ganhou projeção e inspirou a mais importante lei contra a violência doméstica, o caso de Maria da Penha Maia Fernandes.

Precisamos falar sobre as Graças e os Rauls

Do momento em que você começou a ler este texto até agora, mais uma mulher foi parar no hospital, vítima de violência doméstica. Isso mesmo, de acordo com dados divulgados pela “Mapa da Violência – Homicídio de Mulheres” a cada 4 minutos, uma mulher é atendida no SUS depois de sofrer este tipo de agressão. E mais, em 80% dos casos de violência contra a mulher, o agressor é o companheiro (marido, namorado, amante, ex-parceiro). 

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Ou seja, não é brincadeira, e acontece o tempo todo muito perto de cada um de nós. É por isso que o longa “Vidas Partidas” é tão relevante, porque trata de uma temática que precisa ser discutida. Conforme o filme vai se desenrolando, vemos um Raul ganhando confiança e perdendo cada vez mais o respeito pela mulher, uma bióloga que trabalha em um importante instituto e que passa a ser reconhecida pelo seu trabalho, onde chega a receber um prêmio. 

Graça passa por duas tentativas de feminicídio, que fazem com que ela sofra severas consequências. Ficção? Sim, livremente inspirada em uma triste realidade, uma vez que foi exatamente isso que aconteceu com Maria da Penha.

Suspense e narrativa instigante

Embora seja categorizado como um Drama, “Vidas Partidas” tem sua trama encaminhada de forma a instigar a curiosidade e envolver o telespectador. Quando o filme começa, já sabemos onde ele vai chegar. Mas, como ele vai nos levar até lá? 

É esta a grande surpresa e o grande trunfo deste longa metragem: sua estrutura narrativa. Para isso, Marcos Schechtman utiliza muito bem dois importantes recursos: a linha do tempo descontínua e o tom de suspense.

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O filme mostra acontecimentos de 1982, 1992 e 2006, que se intercalam não necessariamente em ordem cronológica, o que instiga o público e desperta a curiosidade para saber o que vai acontecer.

Neste sentido, o uso de técnicas muito características dos filmes de suspense também ajuda muito:  a trilha sonora, a iluminação e as tomadas com enquadramentos que fazem com que o telespectador se sinta parte do vídeo, sem saber exatamente o que vai acontecer. Os movimentos de câmera são outro grande destaque, pois ajudam a ambientar bem as cenas e contribuem com a sensação de suspense.

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Do ponto de vista técnico, talvez o aspecto em que filme mais peca seja na parte da ambientação e figurino. Embora seja ambientado no início dos anos 80, em diversas cenas fica difícil esconder alguns elementos mais modernos do que isso, apesar do claro esforço da produção em situar a trama adequadamente. Se o longa-metragem não dissesse claramente em que anos se passa sua história, não seria tão difícil enganar o público e dizer que ela é dos anos 90.

No entanto, isso não prejudica o andamento de “Vidas Partidas”, que sob todos os outros pontos de vista conta muito bem a história que se propõe a contar, surpreende em vários momentos, além de trazer uma temática de extrema relevância.

No Brasil, uma a cada cinco mulheres já foi ou é vítima de violência doméstica.

O talento do elenco também conta muitos pontos na construção deste longa-metragem, que traz alguns rostos conhecidos, como os de Milhem Cortaz e Nelson Freitas, além dos atores que encarnam os protagonistas, Naura Schneider e Domingos Montagner. Ambos, especialmente, fazem um belíssimo trabalho, mostram uma grande sintonia e destreza mesmo nas cenas mais complexas, como as de sexo e as de violência.

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Naura, inclusive, está excepcional no papel de uma vítima de violência doméstica. O medo estampado no olhar de quem encontra o agressor, a mudança na alegria da personagem do começo da trama até a fase final, quando passa a ser agredida, tudo isso é muito vívido no trabalho da atriz.

Um belo trabalho coletivo da equipe de produção, atores e sintonia com a mensagem que se quer passar. Altamente recomendado!

Fonte das imagens: Divulgação/Europa Filmes

Vidas Partidas

Podia ter sido uma história de amor

Diretor: Marcos Schechtman
Duração: 90 min
Estreia: 4 / Ago / 2016

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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