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Crítica do filme Yojimbo

O Melhor Faroeste de Samurai Pastelão

por
Fábio Jordão

13 de Junho de 2021
Fonte da imagem: Divulgação/Belas Artes À LA CARTE

Há exatos cinquenta anos, portanto lá em 1961, o filme “Yojimbo, O Guarda-Costas” chegava às telonas dos cinemas do Japão. Levou quase dois anos para o filme chegar ao Brasil, mas seja do outro lado do mundo ou nas Américas, é inegável que este foi mais um sucesso do diretor Akira Kurosawa.

Para quem sequer havia nascido, ter conhecimento sobre esta obra-prima ou mesmo ter acesso ao filme pode ter levado muito mais tempo, ainda mais com a enorme dificuldade de encontrar filmes clássicos aqui no Brasil, isso tanto em mídia física ou quanto em serviços de streaming.

Digo isto com conhecimento de causa, pois eu gosto de obras desta temática e até agora eu não tinha visto este filme, já que toda vez que ele é regravado, as mídias custam caro e os estoques se esvaziam rapidamente. Além disso, é quase impossível achar este filme online. Assim, antes de falar do filme, vou dar a dica para você ver o filme de forma legal e acessível.

Como assistir Yojimbo online?

Quando falamos em streaming, há poucas distribuidoras que focam em títulos mais antigos e quase nenhuma consegue os direitos para transmissão online. A boa notícia é que agora há um jeito fácil e barato de ver “Yojimbo” e outros títulos clássicos e cults, seja do cinema japonês ou de outros países.

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O serviço de streaming Belas Artes À LA CARTE tem um amplo catálogo de filmes clássicos, sendo um prato cheio para quem ama obras renomadas dos mais famosos diretores e títulos raros de encontrar no circuito comercial. Por apenas R$ 9,90 por mês, você pode curtir esses filmes no seu celular, no computador ou TV (com Android TV, Apple TV, Roku ou Chromecast).

E, neste mês de junho, o À LA CARTE apresenta filmes para os mais saudosistas, incluindo “Yojimbo, O Guarda-Costas” e “Festim Diabólico”, de Alfred Hitchcock. Além disso, falando em obras mais recentes, a plataforma tem a estreia exclusiva de “Crime em Roubaix”, de Arnaud Desplechin. Então, fica essa dica!

Um Samurai malandrão

Em “Yojimbo”, acompanhamos a história de um ronin misterioso que chega a uma cidade dividida por duas gangues. Ali, ele percebe uma oportunidade de conseguir um bom trocado ao oferecer seus serviços como guarda-costas para os criminosos, mas por trás dessa astúcia pode haver segundas intenções.

Akira Kurosawa ficou muito conhecido por fugir do óbvio, sendo que sua história e direção de “Yojimbo, O Guarda-Costas” compravam que este era um princípio básico de sua visão visionária. No lugar do tradicional Samurai em um enredo linear, este mestre do cinema japonês preferia uma abordagem mais ampla, vendo os diferentes caminhos que um samurai podia seguir em sua jornada.

E o detalhe é que não se trata de apenas optar por falar de um samurai ou de um ronin (que é o samurai que não segue o bushido, o código samurai), mas de pegar um personagem desses e derivar em algo completamente diferente. Assim, o que temos não é um enredo superficial, mas um conto que leva a uma moral muito perspicaz.

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O simples fato de incluir um estrangeiro num conflito de gangues já dá muita margem para uma história excelente, porém o desenvolvimento do ronin com habilidades extraordinárias e ainda mais com um toque de malandragem garante uma conexão bem mais atenciosa com o personagem.

Cada vez que Sanjuro Kuwabatake (Toshirô Mifune) aparece em tela, temos a sensação de estar diante de um espadachim que sempre tem inúmeras intenções em cada frase de seu diálogo, algo que é comprovado no desenrolar do roteiro. Ainda que não seja imbatível em campo, ele é claramente superior aos inimigos por seu senso moral aguçado.

Aqui, vale pontuar como a atuação de Toshirô Mifune (de "Os Sete Samurais") é de suma importância para o sucesso da película, pois é o jeito ímpar do ator em incorporar esse ronin que deixa o filme ainda mais primoroso. Mifune vai do samurai pensativo ao habilidoso espadachim em segundos e, na sequência, já temos um ronin gargalhando das situações cômicas.

Flertando com outros gêneros

Eis aqui inclusive um ponto que faz de “Yojimbo, O Guarda-Costas” um filme único: a transição de gêneros. Apesar de ser uma obra sumariamente focada na ação, é visível como o filme atenua os dramas corriqueiros da época — não temos uma precisão da data, mas certamente já é algo depois de 1836, uma vez que temos um personagem com revólver.

E falando em armas, temos então um flerte inusitado: o faroeste. Kurosawa foi influenciado por títulos como "Matar ou Morrer" (1952) e "Os Brutos Também Amam" (1953). E aí, fica a questão: como pode um filme de Samurai também ter algo de faroeste? Bom, a verdade é que há muita coisa em comum quando pensamos nos duelos: intensos, pausados e sanguinolentos.

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No entanto, a abordagem de Akira Kurosawa vai bem além disso, justamente por ter a presença da arma de fogo. O casamento entre filme de samurai e cenas de pistoleiro não é algo apenas pontual aqui, pois Kurosawa faz um filme focado nos confrontos de campo aberto, o que garante longas cenas de diálogo até que a ação realmente exploda na tela.

Além dessa dualidade de gêneros na concepção do filme, fica claro que Kurosawa tenta inovar ao trazer um personagem mais cômico para sua obra. Apesar do teor violento, o samurai que observa seu jogo de intrigas dá boas risadas, de modo que algumas cenas têm um humor mais pastelão.

Importante notar como tudo isso é conduzido com maestria através de um elemento-chave: a trilha sonora de Masaru Sato, que abusa dos instrumentos de corda e dos tons mais pesados para as batalhas intensas, mas que usa de instrumentos mais agudos e alegres em boa parte das cenas engraçadas. O mais interessante é que o compositor fez todo esse trabalho de som em apenas uma semana!

Por fim, mas não menos relevante, temos o fato de que “Yojimbo, O Guarda-Costas” concorreu ao Oscar na categoria de Melhor Figurino, o qual foi desenvolvido por Yoshirô Muraki. E é nessa colcha de retalhes e nas ideias geniais que esta obra ganhou extrema relevância. Trata-se de um filme que não envelheceu, pelo simples fato de que ele nasceu para ser um clássico. Altamente recomendado para fãs do cinema japonês ou para quem gosta de um filme clássico!

Fonte das imagens: Divulgação/Belas Artes À LA CARTE

Yojimbo, O Guarda-Costas

Um Samurai com convicções

Diretor: Akira Kurosawa
Duração: 110 min
Estreia: 9 / Mai / 1963

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