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Cinema, política e memória: entrevista com a diretora Maria Augusta Ramos
Fonte da imagem: Divulgação/Assessoria/ Maria Augusta Ramos
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A realidade é uma grande fonte de matéria-prima para a arte. É com essa premissa que a diretora de cinema Maria Augusta Ramos justifica sua preferência pelos documentários, gênero que ela vem aplicando em suas produções desde o início da carreira.

A diretora, que em seus trabalhos opta por mostrar diferentes olhares sobre o cotidiano, é reconhecida pelos longas "Brasília, Um Dia em Fevereiro", "Justiça" e, mais recentemente, por “Futuro Junho”, documentário que retrata o atual momento socioeconômico e político brasileiro por meio do olhar de quatro personas. Em seus trabalhos, opta por mergulhar no universo dos personagens, mas sempre de uma forma muito espontânea, em geral sem entrevistas e sem interferir nos fatos.

Para ela, essa é uma forma não apenas de retratar, mas de ajudar a compreender e desconstruir momentos, cenários e contextos, como o atual momento político brasileiro. Depois de “Futuro Junho”, a diretora agora trabalha em um novo filme documental sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, que deve ser concluído no mês de agosto. 

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Inspirada por diretores da ficção como o japonês Ozu e o francês Robert Bresson, mas fortemente influenciada pelo documentarista holandês Johan van der Keuken, ela vem se aprimorando na produção, roteirização e direção deste gênero que já se consolidou como um dos mais importantes na história do cinema brasileiro.

O Café com Filme conversou com a cineasta sobre seu trabalho em “Futuro Junho”, sobre a capacidade de construção da memória nacional oferecida pelo cinema documental e sobre esse diálogo entre a produção cinematográfica e o contexto político, social e econômico de um país. Confira a entrevista completa!

Café com Filme: Conte um pouco sobre Futuro Junho. Como se desenvolveu a ideia deste documentário?

Foi um filme que surgiu aos poucos. Depois da crise de 2008 eu fiquei muito interessada pelo mercado financeiro e pela influência deste mercado sobre a sociedade, nas relações de trabalho e nas relações de poder, nessas políticas neoliberais. Passei a ler bastante sobre isso e decidi fazer um documentário aqui no Brasil. E escolhi a cidade de São Paulo porque é o grande centro financeiro do Brasil. Não poderia ser em outra cidade. E porque eu sempre tive vontade de retratar São Paulo. Não sou de São Paulo, mas conheço um pouco a cidade e ela me instiga muito, com toda essa característica de ser uma cidade que não para, que está 24 horas em movimento. Aí juntei as duas coisas, o desejo de falar de São Paulo e o desejo de falar dessa questão econômica através de indivíduos, de como isso afeta a vida dos indivíduos. 

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Escolhi quatro personagens, cada um deles representa um segmento da economia, para refletir sobre esse momento histórico, político e econômico, onde existe um crescimento grande, mas também uma grande insatisfação em relação a várias políticas adotadas.

É um momento em que se questiona esse modelo, onde os personagens expressam um desejo de mudança, um desejo de que as coisas caminhem de uma outra forma. No caso das manifestações de 2013 e 2014, você tem um desejo expresso nas ruas por educação e saúde de qualidade e isso também fica muito claro no filme. O filme trata dessas experiências humanas na cidade de São Paulo e dos grandes desafios e contradições que estão inerentes não só no capitalismo, mas na sociedade de maneira geral.

 CF: Nessa mesma linha é o seu próximo trabalho, um documentário sobre o processo de impeachment, certo? Como está o andamento e o que você pode nos adiantar sobre este trabalho?

Esse foi um filme que eu fiz tomando uma decisão muito às pressas, porque tudo aconteceu muito rapidamente. Então eu estou em Brasília acompanhando esse processo e provavelmente o filme termina quando o processo também concluir, que deve ser no final de agosto. Até lá eu vou acompanhar o andamento, já tenho acompanhado a Câmara, o senado, e também quando a presidenta estava no Planalto, e tudo o que está acontecendo também um pouco em torno dessas instituições. 

 “Um filme tem que ser capaz de retratar a realidade na sua complexidade, e não de uma maneira unidimensional”

 Essa decisão também veio de uma necessidade de falar disso que está acontecendo e retratar esse momento muito crítico, de uma crise profunda no sistema político brasileiro, não só no econômico. Eu não tinha como não me envolver, não querer falar disso, inclusive de vários pontos de vista. Eu acho que um filme tem que ser capaz de retratar a realidade na sua complexidade, e não de uma maneira unidimensional. E eu acho que a realidade é complexa, certamente nesse momento atual, onde você tem uma narrativa que tem que ser desconstruída e repensada, então isso tem que ser feito de uma maneira muito cautelosa e com muito respeito pela ética e pela verdade, eu acho que esse compromisso com a verdade sempre foi um elemento importante nos meus filmes. E acho que o que eu venho tentando fazer é isso: essa desconstrução e tentando compreender esse momento.

CF: O gênero de documentário vem sendo seu principal foco. O que atrai seu olhar para este gênero?

Porque a realidade me instiga muito. Eu não uso entrevistas, meus filmes são na verdade construídos a partir de observações da realidade. Cada filme tem “X” personagens e no decorrer dele você vai descobrindo esses personagens e a relação que esses personagens tem com o entorno, a família, a sociedade... Me interessa muito a interação, a relação desse indivíduo com o outro, com o pai, com o chefe, ou com a justiça. Como esse discurso, como essa relação se concretiza através de gestos e discursos e como isso é característico da sociedade brasileira.

"Muitas pessoas me perguntam quando eu vou fazer uma ficção. Mas os meus filmes têm uma construção em que a matéria prima é a realidade."

“Futuro Junho” mesmo é todo baseado nessas interações, um com o outro e consigo mesmo, seus desejos, frustrações, insatisfações, como ele externaliza isso no decorrer do filme, na medida em que ele conversa com outros. 

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Muitas pessoas me perguntam quando eu vou fazer uma ficção. Mas os meus filmes têm uma construção em que a matéria prima é a realidade. Em “Futuro Junho”, à medida que você vai vendo o filme, você vai se encantando com os personagens, com a autenticidade deles, ao mesmo tempo em que o que você está vendo é uma representação da realidade. Um filme nunca vai ser a realidade, é sempre uma realidade mediada pelas minhas escolhas como cineasta. Pode ser que um dia eu faça uma ficção, mas por enquanto meu projeto é outro, pois sou muito instigada pela realidade.

CF: Cinema e política vêm andando juntos na história da arte brasileira. Você acha que o documentário permite um estreitamento ainda maior entre ambos?

Eu acho que todo cinema, todo filme é um filme político, mesmo aquele que não se pretende político. Os filmes refletem valores e posicionamentos do diretor, mesmo aqueles que se propõem ao entretenimento, são filmes políticos que defendem valores. Acredito muito nisso. Mesmo aqueles que não diretamente falam e tratam de política, como é o caso do meu atual filme ou mesmo do “Futuro Junho”, são filmes políticos.

“Todo filme é um filme político, mesmo aquele que não se pretende político”

Mas por outro lado há uma diferença entre se propor a fazer documentários que defendem uma tese, que a gente poderia chamar de panfletários, e propor filmes que retratam a complexidade de uma realidade, propondo ao expectador ver uma realidade de várias perspectivas diferentes, que é uma outra abordagem. É com esta que eu me identifico mais, porque não é uma panfletagem, e sim leva a uma reflexão sobre essa complexidade da sociedade.

 CF: O cinema brasileiro vem ganhando mais projeção nos últimos anos e alcançando um reconhecimento junto ao circuito internacional que talvez não atinja ainda em território nacional. Você concorda com isso? E qual o papel do cinema documental neste cenário, em sua opinião?

Eu acho que o documentário brasileiro certamente tem tido uma importância nos últimos anos, ao mesmo tempo em que eu acredito que os filmes de ficção também começam a tomar mais espaço. Temos uma geração de novos cineastas que têm um trabalho muito criativo e eu acho que isso também está acontecendo com a ficção. Talvez o documentário tenha durante muito tempo preenchido esse espaço que agora acho que a ficção tem começado a preencher também. 

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O cinema brasileiro tem muito a dizer e o fato que hoje ainda há algumas políticas de incentivo através de programas como os da Ancine [Agência Nacional do Cinema] também beneficiou que jovens diretores pudessem vir a fazer filmes. 

"Talvez o documentário tenha durante muito tempo preenchido esse espaço que agora acho que a ficção tem começado a preencher também"

 O que estamos vendo hoje é um produto desse investimento, então espero que  isso continue acontecendo. Principalmente em documentário, que exista um apoio do estado, porque os filmes são feitos justamente pra se pensar como nação, são fundamentais para pensar pelo olhar da arte o momento histórico, qualquer evento histórico, qualquer personalidade histórica. Ou seja, é uma questão de memória nacional, então é muito importante que a gente continue tendo incentivos neste sentido.

É como o caso deste documentário sobre o processo de impeachment. Eu não sou a única diretora que está acompanhando esse processo. Outros diretores, como a Petra Costa [“Elena”, “Dom Quixote de Bethelehem”], também estão fazendo filmes sobre isso, e é muito importante que tenhamos vários, com múltiplos olhares sobre esse processo que é tão complexo.

Veja o trailer de "Futuro Junho" e acompanhe as novidades do Café com Filme, pois em breve teremos também a crítica do documentário por aqui!

Assuntos Entrevista

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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