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Tezza: o pai d’O Filho Eterno fala sobre a adaptação do livro para o cinema
Fonte da imagem: Divulgação/Globo Filmes/ Cristóvão Tezza
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É só um livro queridinho virar filme que já começam as especulações. Entre grandes e desvairadas expectativas e aquele bom e velho pé atrás, é quase inevitável que os leitores que já mergulharam na história por meio das páginas na literatura esbocem qualquer tipo de reação quando a película é anunciada.

Mas, vocês já pararam pra pensar sobre o que passa na cabeça do cara que bolou aquela trama toda quando vê suas linhas arduamente construída tomarem forma para além daquela que o leitor vai construir com a ajuda da imaginação?

Essa brincadeira entre haters e lovers das adaptações já gerou bastante confusão entre fãs de sagas como O Senhor dos Anéis, por exemplo, assim como dos tantos títulos de Stephen King. King, inclusive, já se manifestou diversas vezes contra algumas das releituras de seus livros. "O Iluminado" dirigido por Kubrick, por exemplo, foi achincalhado pelo autor.

Aqui no Brasil, volta e meia algum livro também vira filme e o mais recente sucesso das livrarias que foi parar no cinema é o premiado "O Filho Eterno".

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A obra conta a emocionante história de um escritor que espera ansiosamente a chegada do primeiro filho e que descobre que terá de se acostumar com uma nova ideia – ser pai de Fabrício, uma criança com Síndrome de Down. São 12 anos de obstáculos, conquistas e descobertas conduzidas com carinho pelo escritor Cristóvão Tezza.

O que esperar desse relato tão íntimo quando ele escapa das página e vai se fixar em outra superfície, a das películas? Para quem já leu, a pergunta que surge é: como é que o diretor Paulo Machline vai conseguir transmitir todo o sentimento envolvido nas palavras do pai? E será que o autor do livro vai gostar do resultado.

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Bom, a gente foi perguntar a opinião de quem mais conhece essa história toda. O Café com Filme conversou com Cristóvão Tezza pra saber o que ele pensa disso tudo!

Café com Filme: O senhor já teve a oportunidade de ver o filme? O que achou?

Cristóvão Tezza: Sim, vi na pré-estreia no Rio de Janeiro, durante o Festival Internacional. Gostei do filme – é uma ótima narrativa, que segura o espectador do começo ao fim. Marcos Veras está particularmente bom como o pai, assim como Débora Falabella, a mãe, e o menino, Pedro Vinícius, que é uma graça. E achei perfeita a escolha de centrar a história no pai, no seu drama, o que é uma concepção narrativa bastante fiel ao livro.

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CF: Ao leitor de "O Filho Eterno", o livro parece ser muito "seu", parece carregado de um olhar muito pessoal sobre um assunto bastante íntimo. Causa-lhe algum estranhamento a ideia de ter essa história contada nas telonas? Como recebeu essa ideia?

CT: Sou bastante “cuca fresca” com adaptações. O meu trabalho eu já fiz, que foi escrever o livro – a literatura é a minha linguagem. Entendo um filme ou uma peça de teatro baseados em algum livro meu como obras independentes, leituras especiais, individuais, do potencial que está no livro de origem. “O filho eterno”, o filme, é uma obra autoral de Paulo Machline, uma leitura específica, em outra linguagem, do livro que eu escrevi. Assim como a peça de teatro (montada pelo grupo Atores de Laura) é uma obra de Daniel Herz, baseada no meu romance. São leituras bem diferentes, porque são linguagens diferentes. É verdade que, nos dois casos, o roteiro tem uma grande importância, mas é o diretor que lhe dá vida.

CF: Houve alguma participação sua na adaptação? Como consultor, talvez?

CT: Não – desde os anos 1990, quando participei diretamente da adaptação de “Trapo” para o teatro (com direção de Ariel Coelho), faço questão de não participar mais de adaptações. Acho que, como autor, eu seria um péssimo conselheiro. Não tenho a prática viva de roteirista de cinema – e ela é fundamental. E, como escritor do livro, acabo sendo suspeito. É impossível adaptar um livro para o cinema sem modificá-lo muito, sem colocá-lo sobre outra perspectiva. É melhor o desapego ao livro – afinal, minha obra já está inteira nas suas páginas. Um filme é outra leitura.

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CF: Adaptações de livros para o cinema costumam ser polêmicas, no sentido de que muitos leitores exigem uma fidelidade que a diferença de linguagens nem sempre consegue comportar na hora de traduzir uma história literária para um filme. Qual é a sua opinião sobre essa diferença de linguagem?

CT: Como eu disse, são linguagens substancialmente distintas. Vou dar um único exemplo, que me parece cristalino: no romance “Desonra”, a obra-prima do sul africano J.M.Coetze, em nenhum momento o narrador esclarece se os personagens são brancos ou negros (uma informação particularmente relevante em função do histórico racista do país) – ele não dá essa informação ao leitor, e esta “ausência” cria uma tensão especial na leitura. Pois bem, no cinema esta sutileza é absolutamente impossível. É uma variável que a adaptação teve de desprezar.

"O filme cria “outras realidades” que não estão no livro. Isso é absolutamente inevitável."

CF: Existe alguma adaptação que lhe seja especialmente querida nos cinemas?

CT: Gosto de imaginar que a adaptação do romance “O estrangeiro”, de Albert Camus, feita por Visconti, é perfeita. Assisti ao filme em 1968 ou 69 por aí, assim que saiu, e eu tinha acabado de ler o livro. Fiquei fascinado com a fidelidade. Mas nunca mais vi o filme – não existe cópia à disposição em lugar algum.Assim, não posso comprovar, 40 anos depois, se era mesmo tão perfeito assim... Engraçado que, no meu último livro, “A tradutora”, um personagem faz referência a um festival em São Paulo de filmes adaptados de obras literárias, e cita expressamente “O estrangeiro”, de Visconti, como um dos filmes da mostra. Corrigi na ficção esta falha terrível da vida real!...

CF: Em algum momento o senhor já cogitou escrever algo direcionado para esse tipo de linguagem, um roteiro para cinema ou televisão?

CT: Não – a literatura já me ocupa integralmente. Não há mais espaço na minha cabeça para me aventurar em outras linguagens.

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Lu Belin

Eu queria ser a Julianne Moore.

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