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A Noite Americana | O escopo de uma produção cinematográfica de Truffaut
Fonte da imagem: Divulgação/
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É possível que você já tenha reparado que nem sempre falamos de lançamentos aqui no site. Vez ou outra, alguns filmes inusitados acabam virando pauta para um texto crítico ou simplesmente para uma resenha que visa elucidar importantes pontos e dar boas dicas a você que é fã de cinema.

Pois bem, hoje, estou aqui para falar sobre um filme um bocado antigo chamado “A Noite Americana”. Neste título, acompanhamos a produção de um longa-metragem chamado “Conheça Pamela” (sim, é um filme dentro de outro), um melodrama sobre um homem de 50 e poucos anos, Alexander (Jean-Pierre Aumont), que se apaixona pela nora, Julie Baker (Jacqueline Bisset).

A produção retratada em “A Noite Americana” ainda comenta sobre o que a personagem Julie, que é uma atriz britânica, sente em relação ao sogro e como esse relacionamento é recheado de complicações. Aos poucos, acompanhamos as reações e julgamentos de terceiros, como o filho, Alphonse (Jean-Pierre Léaud), e a sogra, Séverine (Valentina Cortese), fazem a respeito do caso inusitado.

Bom, a ideia de retratar uma obra do cinema dentro de outra pode não parecer extramente inesperada, mas era um tanto ousada para época. Todavia, “La Nuit Américaine”, do aclamado François Truffaut, não trata somente desta do elenco trabalhando no set de filmagem.

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O roteiro original de Truffaut, Jean-Louis Richard e Suzanne Schiffman vai muito além das gravações, comentando sobre a produção como um todo e todo o tempo em que uma equipe passa junto no decorrer das gravações. É dessa forma, intercalando cenas da gravação e outras externas que podemos perceber a amplitude de uma obra de cinema.

Pensando nos mínimos detalhes

Tudo começa com a gravação de uma cena relativamente simples, na qual conferimos o encontro de dois personagens principais. No entanto, a película não é apenas uma mera representação de um making-of. Há sim importantes cenas que nos levam a conferir o posicionamento de câmeras, enquadramento e outros aspectos comuns de um filme, mas há coisas mais curiosas na abordagem proposta.

Aqui, o público é levado a conferir as complicações da gravação, desde a necessidade de sincronia entre atores se movimentando em set, até as exigências do diretor que vai repetir um mesmo momento até julgar que o resultado está de acordo com o planejado.

É preciso considerar ainda que uma obra cinematográfica não pode ser simplesmente rodada no improviso. Objetos, carros, iluminação e outros elementos que compõe uma sequência devem estar devidamente posicionados e entrar no momento correto na frente da câmera.

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Felizmente, “A Noite Americana” não se prende apenas a tais cenas. Algo que torna este título um ícone essencial para os cinéfilos é a abordagem dos bastidores da coisa. Nas quase duas horas de filme, o espectador é levado a conferir o trabalho de quase todos os integrantes de uma produção cinematográfica.

Relações, comunicação e o trabalho pesado

Com diálogos detalhados entre atores, produtor, diretor, roteirista, diretor de fotografia, figurinista, diretor de elenco (casting by), assistentes e outros importantes profissionais, a obra de Truffaut, lançada em 1973, nos guia pelos arredores do local de filmagem, focando nas ações curiosas de cada um – mostrando as peculiaridades de alguns supostos famosos e as safadezas dos bastidores.

As conversas mostram como é trabalhoso escolher roupas, negociar os veículos que serão utilizados em uma determinada parte do filme, lidar com o limite de orçamento, escolher acessórios para determinadas cenas, ter de rebolar para cumprir prazos (já que os estúdios precisam organizar o cronograma) e outros detalhes que resultam na montagem coerente de um título cinematográfico.

E, o pior, o que aconteceria se uma determinada cena que estava perfeita precisa ser regravada? Uma segunda encenação não é trabalho de outro mundo, mas ter que contatar vários figurantes, alugar um espaço e aprontar todos os elementos de cenários é uma tarefa complicada e que exige tempo.

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Um aspecto curioso que vale menção é a transposição de determinados papéis da vida real para o filme. Truffaut é o diretor tanto em “A Noite Americana” quanto no longa que é produzido dentro da trama, assim como Yann Dedet cuida da edição de ambos e Jean-François Stévenin é assistente de diretor nos dois casos.

Outros profissionais envolvidos na composição da obra francesa, contudo, acabam executando outras funções na história do filme. Claude Miller, por exemplo, é gerente de produção, mas no roteiro foi escalada para fazer uma ponta em uma cena no hotel, onde o elenco e demais membros da produção estão hospedados.

Esse reaproveitamento de pessoal facilita a produção e garante naturalidade no desenrolar do filme que é mostrado no roteiro, já que os profissionais sabem o que estão fazendo e podem facilmente mostrar isso frente as câmeras. Isso sem contar que há o barateamento da produção. Engraçado perceber que nem todos os atores e envolvidos são creditados.

Uma obra essencial para cinéfilos

Curioso, detalhista e muito persuasivo, “A Noite Americana” é um filme que deve estar no currículo de todos aqueles apaixonados por cinema. Não apenas por ser obra de um diretor conceituado, mas principalmente por elucidar a importância de cada membro da equipe de uma produção cinematográfica.

Mesmo aqueles que não são muito ligados em cinema podem encontrar algo de positivo aqui, já que é possível compreender a dificuldade na realização de um filme. É possível que o final não seja o mais cativador, mas o importante é o miolo que tem muito a ensinar e pode ser enriquecedor para futuras sessões de cinema.

Vale pegar a pipoca e reunir alguns amigos interessados para poder fazer um debate. Enfim, altamente recomendado!

Agradecimentos especiais ao professor Marcelo Abilio Públio que deu esta excelente dica de filme, forneceu a mídia e ainda e me incentivou a escrever a resenha.

Fonte das imagens: Divulgação/

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